História de quem foge e de quem fica
Capítulo 38
No carro ela atacou Pasquale (você virou o escravo dessa gente?), e ele a deixou desabafar. Somente quando lhe pareceu que ela havia esgotado todas as recriminações, ele começou com seu repertório político: a condição operária no Sul, o estado de servidão que predominava ali, a chantagem permanente, a fraqueza ou até mesmo a ausência de sindicatos, a necessidade de forçar as situações e chegar à luta. Lila — disse a ela em dialeto, com um tom comovido —, você tem medo de perder essa miséria que lhe pagam, e tem razão, Gennaro precisa crescer. Mas eu sei que você é uma companheira de verdade, sei que você compreende: nós aqui, trabalhadores, nunca estivemos nem mesmo dentro do piso salarial, estamos fora de todas as regras, estamos abaixo de zero. Por isso é uma blasfêmia dizer: me deixe em paz, eu tenho meus problemas e vou me virar sozinha. Cada um tem de fazer, no lugar que lhe couber, tudo o que for possível.
Lila estava exausta, ainda bem que Gennaro dormia no banco de trás com o carrinho apertado na mão direita. Escutou o falatório de Pasquale em ondas. De vez em quando lhe vinha à mente a bela casa do corso Vittorio Emanuele, e a professora, e Armando, e Isabella, e Nino, que a abandonara para encontrar em algum lugar uma mulher do tipo de Nadia, e Marco, que tinha três anos e sabia ler bem melhor que seu filho. Que esforço inútil tentar que Gennaro se tornasse inteligente. O menino já estava se perdendo, era arrastado para trás, e ela não conseguia segurá-lo. Quando chegaram ao portão de casa e ela se viu obrigada a convidar Pasquale a subir, disse a ele: não sei o que Enzo cozinhou, ele cozinha muito mal, talvez não seja bom para você — e esperou que ele fosse embora. Mas Pasquale respondeu: fico só dez minutos e depois saio — de modo que ela tocou seu braço com a ponta dos dedos e murmurou:
“Não diga nada a seu amigo.”
“Nada sobre o quê?”
“Sobre os fascistas. Se ele souber, vai esta noite mesmo quebrar a cara de Gino.”
“Você gosta dele?”
“Não gostaria de fazer mal a ele.”
“Ah.”
“É isso mesmo.”
“Olhe que Enzo sabe melhor que eu e você o que é preciso ser feito.”
“Sim, mas de todo modo não diga nada a ele.”
Pasquale concordou com uma expressão preocupada. Carregou Gennaro, que se recusava a acordar, e o levou escada acima, seguido por Lila, que resmungava descontente: que droga de dia, estou morta de cansaço, você e seus amigos me meteram numa enrascada enorme. Contaram a Enzo que tinham estado na casa de Nadia para uma reunião, e Pasquale não lhe deu espaço para fazer perguntas, conversou sem parar até meia-noite. Disse que Nápoles, assim como o mundo inteiro, era um caldeirão fervendo de vida nova, elogiou muito Armando, que, como bom médico que era, em vez de pensar na carreira, tratava de graça quem não tinha dinheiro, cuidava dos meninos dos Bairros e, com Nadia e Isabella, estava metido em mil projetos a serviço do povo, uma escola infantil, um ambulatório. Disse que ninguém estava mais só, os companheiros ajudavam os companheiros, a cidade vivia momentos maravilhosos. Vocês, disse, não devem ficar trancados em casa, precisam sair, precisamos estar mais tempo juntos. E por fim anunciou que, para ele, não dava para continuar no partido comunista: muita coisa ruim, muitos compromissos nacionais e internacionais, não aguentava mais aquele marasmo. Enzo ficou bastante perturbado com aquela decisão, o debate entre eles se acendeu e estendeu noite adentro, o partido é o partido, não, sim, não, chega de políticas de estabilização, é preciso atacar o sistema em suas estruturas. Lila se aborreceu depressa, foi pôr Gennaro na cama, que tinha jantado queixoso por causa do sono, e não voltou mais.
Mas permaneceu acordada mesmo quando Pasquale foi embora e os sinais da presença de Enzo pela casa se apagaram. Mediu a febre, estava com trinta e oito. Tornou a lembrar o momento em que Gennaro teve dificuldade de ler. Mas que espécie de palavra ela pusera diante dos olhos do menino: destinação. Com certeza Gennaro nunca a escutara. Não basta conhecer o alfabeto, pensou, as dificuldades são muitas. Se Nino o tivesse gerado com Nadia, aquele filho teria um destino totalmente diverso. Sentiu-se uma mãe falhada. No entanto fui eu quem o quis, pensou, era de Stefano que eu não desejava filhos; de Nino, sim. De Nino ela gostara de verdade. Desejara-o intensamente, desejara dar prazer a ele e, pelo prazer dele, fizera de bom grado tudo o que, para seu marido, tinha tido que fazer à força, vencendo o asco, só para não ser morta. Mas o que se dizia que ela deveria experimentar ao se sentir penetrada, isso ela nunca experimentara, era certo, e não só com Stefano, mas também com Nino. Os homens eram fixados demais nele, no pau, tinham um enorme orgulho dele e estavam convencidos de que você devia admirá-lo ainda mais que eles. Também Gennaro não parava de brincar com sua coisinha, às vezes era embaraçoso como ele o girava entre as mãos, o puxava. Lila temia que se machucasse, e até para lavá-lo e fazê-lo urinar tivera de esforçar-se, habituar-se. Enzo era tão discreto, nunca de cueca pela casa, nunca uma palavra vulgar. Essa era a razão por que sentia um intenso afeto por ele e lhe era agradecida por sua espera devotada no outro cômodo, que nunca resultara em um movimento equivocado. O controle que ele exercia sobre as coisas e sobre si lhe pareceu o único consolo. Mas depois o sentimento de culpa aflorou: o que a consolava com certeza o fazia sofrer. E o pensamento de que Enzo sofresse por sua causa se somou a todas as coisas ruins daquele dia. Os fatos e as falas lhe voltearam desordenadamente na cabeça por muito tempo. Tons de voz, palavras isoladas. Como se comportar amanhã na fábrica? Realmente havia todo aquele fervor em Nápoles e no mundo ou eram Pasquale, Nadia e Armando que o imaginavam para sedar suas próprias ânsias, por tédio, para criar coragem? Devia confiar nisso, com o risco de cair prisioneira de fantasias? Ou era melhor tentar falar de novo com Bruno para evitar problemas? Mas de fato seria útil buscar amansá-lo, com o risco de que ele a atacasse de novo? Servia de alguma coisa dobrar-se à prepotência de Filippo e dos chefetes? Não avançou muito. Por fim, sonolenta, chegou a um velho princípio que nós duas tínhamos assimilado desde pequenas. Chegou à conclusão de que, para se salvar, para salvar Gennaro, deveria intimidar aqueles que a mantinham sob intimidação, deveria meter medo em quem queria amedrontá-la. Adormeceu com a intenção de causar estragos: a Nadia, demonstrando que ela era apenas uma garotinha de boa família, cheia de conversas melosas; a Soccavo, lhe estragando o prazer de farejar salames e mulheres na câmara de maturação.
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