História de quem foge e de quem fica
Capítulo 23
Pietro ficou três dias. Meu pai e meus irmãos rapidamente se afeiçoaram a ele. Especialmente Peppe e Gianni estavam contentes por ele não ser arrogante e se interessar pelos dois, mesmo a escola os tendo julgado incapazes. Já minha mãe continuou a tratá-lo sem amizade, e só na véspera da partida ficou mais terna. Era domingo, meu pai disse que queria mostrar ao genro como Nápoles era linda. O genro concordou e propôs que almoçássemos fora.
“No restaurante?”, perguntou minha mãe preocupada.
“Sim, senhora, precisamos comemorar.”
“Melhor que eu cozinhe, eu tinha dito que faríamos o gâteau de novo.”
“Não, obrigado, a senhora já trabalhou bastante.”
Enquanto nos preparávamos, minha mãe me puxou de lado e perguntou:
“Ele vai pagar?”
“Vai.”
“Tem certeza?”
“Claro, mãe, foi ele quem nos convidou.”
Fomos ao centro de manhã cedo, vestidos de festa. E aconteceu uma coisa que me surpreendeu acima de tudo. Meu pai assumiu a tarefa de servir de guia. Mostrou ao forasteiro o Maschio Angioino, o Palácio Real, as estátuas dos reis, Castel dell’Ovo, via Caracciolo e o mar. Pietro ficou ouvindo com uma expressão muito atenta. Mas depois de certo tempo, ele, que vinha à cidade pela primeira vez, passou a falar sobre ela discretamente, revelando-a a nós. Foi lindo. Eu nunca tinha demonstrado um especial interesse pelo cenário de minha infância e adolescência, me espantei que Pietro soubesse discorrer sobre ele com tão admirável conhecimento. Ele demonstrou conhecer a história de Nápoles, sua literatura, as fábulas, as lendas, muitas anedotas, os monumentos visíveis e os escondidos pela incúria. Imaginei que em parte ele conhecesse a cidade porque era um homem que sabia tudo, em parte porque a estudara a fundo, com o rigor costumeiro, porque era a minha cidade, porque minha voz, meus gestos e todo meu corpo tinham sofrido sua influência. Naturalmente meu pai se sentiu logo destituído, e meus irmãos se entediaram. Percebi e fiz gestos a Pietro para que parasse. Ele enrubesceu e se calou imediatamente. Mas minha mãe, com uma de suas repentinas reviravoltas, se pendurou em seu braço e lhe disse:
“Continue, estou gostando, ninguém nunca me falou essas coisas.”
Fomos comer num restaurante em Santa Lucia, que, segundo meu pai (nunca tinha estado lá, mas lhe indicaram), era ótimo.
“Posso pedir o que eu quiser?”, me perguntou Elisa no ouvido.
“Pode.”
O tempo passou agradavelmente. Minha mãe bebeu demais e disse algumas indecências, enquanto meu pai e meus irmãos recomeçaram a brincar com Pietro e entre si. Não perdi de vista meu futuro marido, tive a certeza de que gostava dele, era uma pessoa que conhecia seu valor e no entanto, se necessário, se esquecia de si com naturalidade. Notei pela primeira vez sua propensão à escuta, o tom de voz compreensivo como o de um confessor laico, e gostei disso. Talvez devesse convencê-lo a ficar mais um dia e apresentá-lo a Lila, dizer a ela: vou me casar com este homem, estou prestes a deixar Nápoles com ele, o que você diz, estou agindo bem? E estava avaliando aquela possibilidade quando aconteceu que, numa mesa não distante da nossa, cinco ou seis estudantes que estavam comemorando não sei o quê com uma pizza começaram a nos observar com insistência, aos risos. Compreendi imediatamente que achavam Pietro engraçado por causa das sobrancelhas muito espessas e a moita de cabelos na cabeça. No intervalo de poucos minutos meus irmãos se levantaram da mesa ao mesmo tempo, se dirigiram à mesa dos estudantes e provocaram uma briga com a violência de sempre. Houve um escarcéu, gritos, pancadaria. Minha mãe gritou insultos em defesa dos filhos, meu pai e Pietro correram para apartá-los. Pietro estava quase achando graça, não tinha entendido nada do motivo da briga. Uma vez na rua, ele disse irônico: é um costume local, vocês se levantam de repente e vão bater nos que estão na mesa vizinha? Acabou que ele e meus irmãos ficaram mais alegres e entrosados que antes. No entanto, assim que pôde, meu pai puxou os filhos para um canto e os recriminou pelo papel de mal-educados que tinham feito na frente do professor. Ouvi que Peppe se justificava, quase sussurrando: estavam zombando de Pietro, papai, que merda a gente devia fazer? Gostei que dissesse Pietro, e não o professor: isso queria dizer que ele já era considerado parte da família, alguém de casa, um amigo de grandes qualidades, e que, embora de aspecto um tanto anômalo, ninguém podia debochar dele em sua presença. Entretanto aquele incidente me convenceu de que eu não deveria apresentar Pietro a Lila: eu a conhecia, ela era maldosa, o teria achado ridículo e zombaria dele assim como os rapazes do restaurante.
À noite, cansados do dia passado ao ar livre, comemos algo em casa e depois saímos todos de novo, para acompanhar meu noivo até o hotel. No momento da separação, minha mãe, já alta, lhe deu dois beijos estalados nas bochechas. Mas, quando voltamos ao bairro fazendo os maiores elogios a Pietro, ela ficou na dela durante todo o percurso, sem dar um pio. Antes de se retirar para o quarto, porém, ela disse rancorosa:
“Você tem sorte demais, não merece esse pobre garoto.”
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