História de quem foge e de quem fica
Capítulo 95
No dia seguinte levantei cedíssimo, arrumei as malas, queria voltar imediatamente a Florença. Mas não consegui. Marcello disse que tinha prometido ao irmão nos levar a Acerra, e, como Pietro — embora eu desse a entender de todas as maneiras que queria ir embora — se mostrou disponível, deixamos as meninas com Elisa e concordamos que aquele homenzarrão nos levasse de carro até um edifício baixo e comprido pintado de amarelo, um grande depósito de calçados. Durante todo o trajeto permaneci calada, enquanto Pietro fazia perguntas sobre os negócios dos Solara na Alemanha e Marcello escapava com frases desconexas do tipo: a Itália, a Alemanha, o mundo, professô, eu sou mais comunista que os comunistas, mais revolucionário que os revolucionários, para mim, se fosse possível varrer tudo e reconstruir tudo do zero, eu estaria na primeira fila. De todo modo, acrescentou olhando-me pelo espelhinho do retrovisor em busca de concordância, para mim o amor está acima de tudo.
Depois que chegamos, nos levou a uma sala de teto baixo, iluminada por neon. Fui atingida pelo forte cheiro de tinta, de pó e de isolantes superaquecidos misturado ao das gáspeas e da graxa de sapatos. Olha aí, aqui está o troço que Michele alugou. Olhei ao redor, não havia ninguém na máquina. O Sistema 3 era totalmente anódino, um móvel sem nenhum fascínio encostado numa parede: painéis metálicos, manoplas, um interruptor vermelho, uma bancada de madeira, teclados. Eu não entendo nada, disse Marcello, isso é coisa que só Lina sabe, mas ela não tem horários, vive sempre pra lá e pra cá. Pietro examinou com cuidado os painéis, as manoplas, cada coisa, mas era evidente que a modernidade o decepcionava, tanto mais que a cada pergunta dele Marcello respondia: são coisas de meu irmão, eu tenho outras preocupações na cabeça.
Lila apareceu quando já estávamos prestes a ir embora. Chegou acompanhada de duas jovens segurando caixas de metal. Parecia irritada, dava ordens secas às duas. Assim que se deu conta de nossa presença, mudou de tom e se tornou gentil, mas de modo forçado, quase como se uma parte de seu cérebro se desvinculasse inclinando-se raivosamente para questões urgentes de trabalho. Ignorou Marcello e se dirigiu a Pietro, mas como se falasse também para mim. Qual o interesse de vocês por este troço — disse despachada —, se têm mesmo curiosidade por isso, vamos fazer uma troca: vocês ficam trabalhando aqui, e eu me dedico às coisas de vocês, romances, pinturas, antiguidades. Tive de novo a impressão de que estava mais envelhecida que eu, não só no aspecto, mas também nos movimentos, na voz, na escolha do registro pouco brilhante, vagamente entediado, com que nos explicou o funcionamento não só do Sistema e das várias máquinas, mas também das fichas magnéticas, das fitas, dos discos de cinco polegadas e outras novidades que vinham por aí, como computadores de mesa que podiam ser instalados em casa, para uso pessoal. Não era mais a Lila que, por telefone, falava do novo trabalho com ares infantis; e parecia muito distante do entusiasmo de Enzo. Comportava-se como uma funcionária supercompetente cumprindo uma das tantas ordens desagradáveis que o patrão lhe designara, no caso, nossa excursãozinha turística. Não me tratou em tom amigável, não brincou em nenhum momento com Pietro. No final, ordenou que as garotas mostrassem a meu marido como funcionava a perfuradora e então me empurrou para o corredor, dizendo:
“E aí? Deu os parabéns a Elisa? Dorme-se bem na casa de Marcello? Está contente com os sessenta anos da velha bruxa?”
Rebati nervosa:
“Se minha irmã quer assim, o que é que eu posso fazer, quebrar a cabeça dela?”
“Está vendo? Nas fábulas se age como se quer, na realidade se faz o que se pode.”
“Não é verdade. Quem obrigou você a ser usada por Michele?”
“Sou eu que uso Michele, não ele a mim.”
“Você se ilude.”
“Espere e veja.”
“O que você quer que eu veja, Lila? Deixa pra lá.”
“Vou repetir: não gosto quando você fala assim. Você não sabe mais nada sobre a gente, então é melhor ficar calada.”
“Quer dizer que eu só posso te criticar se viver em Nápoles?”
“Nápoles, Florença: você não está fazendo nada em lugar nenhum, Lenu.”
“Quem disse?”
“Os fatos.”
“Os fatos, quem sabe de mim sou eu, não você.”
Eu estava tensa, e ela percebeu. Fez um trejeito conciliador.
“Você me deixa nervosa e eu acabo dizendo coisas que não penso. Você fez bem ao ter ido embora de Nápoles, fez muitíssimo bem. Mas sabe quem voltou?”
“Quem?”
“Nino.”
A notícia me queimou o peito.
“Como você ficou sabendo?”
“Marisa me disse. Ele conseguiu uma cátedra na universidade.”
“Não estava bem em Milão?”
Lila apertou os olhos.
“Se casou com uma fulana de via Tasso que é parente de meio Banco de Nápoles. Têm um filho de um ano.”
Não sei se sofri, mas tive dificuldade de acreditar.
“Ele se casou mesmo?”
“Sim.”
Olhei para ela tentando entender o que tinha em mente.
“Você tem intenção de revê-lo?”
“Não. Mas, se acontecer de o encontrar, quero dizer que Gennaro não é filho dele.”
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