História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 26 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 25

Não via Pasquale nem Enzo fazia muito tempo, mas não houve preâmbulos, tinham vindo por causa de Lila e me falaram imediatamente sobre ela. Pasquale deixara a barba como a de Che Guevara, e tive a impressão de que aquela mudança o deixou melhor. Os olhos pareciam maiores e mais intensos, os bigodes espessos cobriam seus dentes estragados até quando ria. Já Enzo não tinha mudado, sempre silencioso, sempre concentrado. Somente quando já estávamos no velho carro de Pasquale me dei conta de como era surpreendente vê-los juntos. Estava certa de que ninguém no bairro quisesse ter mais nada a ver com Lila e com Enzo. No entanto as coisas não eram bem assim: Pasquale frequentava a casa deles, tinha acompanhado Enzo até mim, Lila os mandara me procurar juntos.

Foi Enzo quem me contou com seu jeito seco e ordenado o que tinha acontecido: depois do trabalho em um canteiro de obras nos arredores de San Giovanni a Teduccio, estava combinado que Pasquale iria jantar com eles. Mas Lila, que normalmente voltava às quatro e meia da fábrica, às sete, quando Enzo e Pasquale chegaram, ainda não tinha retornado. O apartamento estava vazio, Gennaro estava com a vizinha. Os dois começaram a cozinhar, Enzo deu de comer ao menino. Lila só apareceu por volta das nove, palidíssima, muito nervosa. Não respondeu às perguntas de Enzo e Pasquale. A única frase que disse, com um tom apavorado, foi: minhas unhas estão se soltando. Coisa falsa, Enzo pegara suas mãos e tinha checado, estava tudo certo com as unhas. Então ela ficou furiosa e foi se trancar no quarto com Gennaro. Depois de um tempo gritou que fossem ver se eu estava no bairro, precisava falar urgentemente comigo.

Perguntei a Enzo:

“Vocês brigaram?”

“Não.”

“Ela se sentiu mal, se feriu no trabalho?”

“Não me parece, não sei.”

Pasquale me disse:

“Agora não vamos ficar ansiosos. Querem apostar que Lina se acalma assim que você chegar? Estou tão contente por termos achado você, agora você é uma pessoa importante, deve ter muitos compromissos.”

Como eu me esquivava, ele citou como prova o velho artigo do Unità, e Enzo fez sinais de concordância, ele também tinha lido.

“Lina também viu”, ele disse.

“E o que ela falou?”

“Estava muito contente com a foto.”

“No entanto”, resmungou Pasquale, “eles davam a entender que você ainda era uma estudante. Você deveria escrever uma carta ao jornal explicando que já é formada.”

Queixou-se do grande espaço que até o Unità concedia aos estudantes. Enzo lhe deu razão, e os dois falaram coisas não muito distantes daquelas que ouvi em Milão, apenas o fraseado era mais rude. Estava claro que sobretudo Pasquale queria me entreter com assuntos dignos de alguém que, mesmo sendo amiga deles, aparecia no Unità com uma foto daquelas. Mas talvez também o fizessem para espantar a ansiedade, a deles e a minha.

Fiquei escutando. Logo entendi que a relação entre eles se reforçara justamente graças à paixão política. Viam-se com frequência depois do trabalho, em reuniões do partido ou de não sei qual comitê. Eu os ouvi, intervim por gentileza, eles replicaram, mas enquanto isso não conseguia tirar Lila da cabeça, devorada sabe-se lá por que angústia, ela, que era sempre tão resistente. Quando chegamos a San Giovanni eles me pareceram orgulhosos de mim, especialmente Pasquale não tinha perdido nada do que eu dissera e várias vezes me observara pelo espelhinho do retrovisor. Embora tivesse o mesmo tom sabido de sempre — era secretário da seção de bairro do partido comunista —, na verdade atribuía à minha concordância política o poder de sancionar que ele estava certo. Tanto é que, quando se sentiu claramente apoiado, me explicou com algum mal-estar que estava empenhado com Enzo e outros companheiros num duro combate dentro do partido, o qual — disse enfezado, batendo as mãos no volante — preferia esperar um assobio de Aldo Moro, como o que se dá a um cão obediente, em vez de acabar com a espera e partir para a luta.

“O que você acha?”, perguntou.

“É isso mesmo”, respondi.

“Você é excelente”, me elogiou então com solenidade enquanto subíamos as escadas sujas, “sempre foi. Não é verdade, Enzo?”

Enzo fez sinal que sim, mas compreendi que a preocupação dele por Lila aumentava a cada degrau — assim como aumentava a minha —, sentindo-se em culpa por ter se distraído com aquelas conversas. Abriu a porta, falou em voz alta estamos aqui e me indicou uma porta com vidro esmerilhado no meio, de onde vinha uma claridade de poucos watts. Bati levemente e entrei.

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