História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 35 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 34

 

Ao despertar, descobriu que estava com febre, tomou uma aspirina e foi trabalhar mesmo assim. No céu ainda noturno havia uma luz tênue, azulada, que roçava construções baixas, campos lamacentos e destroços. Já na embocadura do trecho descampado que levava à fábrica, enquanto evitava as poças, notou que os estudantes agora eram quatro, os dois do dia anterior, um terceiro da mesma idade e um gordo, decididamente obeso, de seus vinte anos. Estavam colando no muro cartazes que convocavam para a luta e começavam a distribuir um folhetinho com o mesmo teor. Porém, se no dia anterior, por curiosidade, por gentileza, operários e operárias tinham aceitado receber o panfleto, agora a maior parte ou seguia em frente de cabeça baixa, ou pegava o papel e imediatamente o amassava para jogar no lixo.

Tão logo viu que os rapazes já estavam ali, pontuais como se o que chamavam de trabalho político tivesse horários mais rígidos que o dela, Lila sentiu antipatia. A antipatia se transformou em hostilidade quando o jovenzinho do dia anterior a reconheceu e foi a seu encontro correndo, com ar cordial e um bom número de folhetos na mão.

“Tudo certo, companheira?”

Lila não lhe deu bola, estava com a garganta inflamada, as têmporas latejando. O rapaz insistiu, falou inseguro:

“Sou Dario, talvez não se lembre, nos vimos na via dei Tribunali.”

“Já sei quem você é, caralho”, explodiu Lila, “mas não quero conversa nem com você nem com seus amigos.”

Dario ficou sem palavras, diminuiu o passo, falou quase para si:

“Não quer o folheto?”

Lila não respondeu para evitar ofendê-lo ainda mais. Mas guardou na memória a cara desorientada do rapaz, aquela expressão que as pessoas fazem quando se sentem do lado certo e não entendem como é que os outros não compartilham sua opinião. Pensou que deveria ter lhe explicado direito por que tinha dito as coisas que disse no comitê, e por que achara insuportável que tudo aquilo fosse parar no texto mimeografado, e por que motivo julgava inútil e estúpido que eles quatro, em vez de ainda estarem na cama ou se preparando para entrar numa sala de aula, estivessem ali, no frio, distribuindo um folheto apinhado de frases a pessoas que mal sabiam ler e, pior, não tinham razões para se submeter àquele esforço, uma vez que elas já conheciam aquelas coisas, as viviam todos os dias, e podiam contar outras ainda piores, sons impronunciáveis que ninguém jamais teria dito, escrito, lido, e que no entanto custodiavam em potência as verdadeiras razões de sua subalternidade. Mas estava com febre, cansada de tudo, seria muito extenuante para ela. De todo modo, já tinha chegado ao portão, e ali o cenário estava se complicando.

O vigia esbravejava com o rapaz mais velho, o obeso, gritando-lhe em dialeto: passe dessa linha, passe, strunz, assim você entra sem permissão numa propriedade privada e eu lhe dou um tiro. O estudante, igualmente agitado, replicava rindo, uma risada larga, agressiva, que acompanhava de insultos: chamava-o de servo, berrava em italiano atire, me mostre se você sabe atirar, isto aqui não é propriedade privada, tudo o que há aqui dentro pertence ao povo. Lila passou ao lado de ambos — quantas vezes assistira a patacoadas como aquelas: Rino, Antonio, Pasquale, até Enzo, todos eram mestres naquelas patifarias — e disse a Filippo, séria: faça a vontade dele, não perca tempo com conversas, alguém que poderia estar dormindo ou estudando e em vez disso está aqui, enchendo o saco, merece levar um tiro. O vigia olhou para ela, ouviu e ficou de boca aberta, tentando entender se estava realmente o encorajando a fazer uma loucura ou se debochava dele. Já o estudante não teve dúvidas, a mirou com raiva e gritou: vá, entre, vá lamber o saco do patrão, e recuou alguns passos balançando a cabeça; depois, continuou distribuindo folhetos a dois metros do portão.

Lila avançou pelo pátio. Já estava cansada às sete da manhã, sentiu os olhos queimando, oito horas de trabalho lhe pareceram uma eternidade. Nesse momento, surgiu atrás de si um barulho de freios e gritos de homens, e ela se virou. Dois carros tinham chegado, um cinza e um azul. Alguém desceu do primeiro e começou a arrancar os cartazes recém-colados no muro. A coisa vai ficar feia, pensou Lila, e instintivamente fez o caminho inverso, mesmo sabendo que devia agir como os outros, se apressar, entrar e começar o trabalho.

Deu poucos passos, o suficiente para distinguir com clareza o jovem que estava ao volante do carro cinza: era Gino. Pôde vê-lo abrir a porta e, alto, a massa de músculos em que se transformara, sair do automóvel empunhando um bastão. Os outros, os que estavam arrancando os cartazes, os que mais preguiçosamente estavam ainda deslizando para fora do carro, sete ou oito ao todo, seguravam correntes e barras de ferro. Quase todos fascistas do bairro, e Lila reconheceu alguns. Fascistas como tinha sido o pai de Stefano, dom Achille, e como se revelara o próprio Stefano, fascistas como os Solara, avô, pai, netos, ainda que às vezes posassem de monarquistas, às vezes de democratas-cristãos, segundo a conveniência. Detestava-os desde que, garotinha, imaginara cada detalhe de suas abjeções, desde que teve a impressão de descobrir que não havia modo de se livrar deles, de começar tudo do zero. A ligação entre passado e presente nunca cedera de fato, o bairro os amava em sua larga maioria, os bajulava, e eles surgiam com seu negrume a cada ocasião de violência.

Dario, o rapazinho da via dei Tribunali, foi o primeiro a reagir: correu para protestar contra os cartazes arrancados. Levava na mão o maço de folhetos, e Lila pensou: jogue fora, cretino, mas ele não fez isso. Ouviu que ele falava em italiano frases inúteis, do tipo parem com isso, vocês não têm o direito, e enquanto isso viu que se virava para os companheiros em busca de ajuda. Não sabe nada sobre como se luta: nunca perder de vista o adversário, no bairro não havia blá-blá-blá, no máximo se lançavam gritos com olhos esbugalhados de meter medo e, nesse meio tempo, se golpeava primeiro, fazendo o maior estrago possível, sem parar, e eram os outros que deviam detê-lo se fossem capazes. Um dos que estavam arrancando os cartazes se comportou justamente desse modo: atingiu Dario na cara sem preâmbulos, com um soco, derrubando-o entre os folhetos que tinham caído, e então foi para cima dele e continuou a golpeá-lo, enquanto os papéis esvoaçavam em torno como se houvesse uma excitação feroz nas próprias coisas. A essa altura o estudante obeso se deu conta do rapaz no chão e correu em seu socorro de mãos vazias, mas foi parado no meio do caminho por um sujeito armado de corrente, que o acertou em um braço. O jovem então agarrou furioso a corrente e começou a puxar para arrancá-la do agressor, e os dois passaram a disputá-la por alguns segundos, aos insultos. Até que Gino chegou pelas costas do estudante gordo e o abateu com uma paulada.

Lila se esqueceu da febre, do cansaço e correu para o portão, mas sem um propósito definido. Não sabia se queria ter uma visão mais clara, se queria ajudar os estudantes, se simplesmente era movida por um instinto que sempre tivera e em virtude do qual as pancadas não a atemorizavam, ao contrário, acendiam sua fúria. Mas não fez a tempo de voltar para a rua, precisou esquivar-se para não ser arrastada por um grupinho de operários que estava passando às carreiras pelo portão. Alguns tinham tentado conter os espancadores, certamente Edo e mais uns outros, mas não conseguiram e agora estavam fugindo. Fugiam homens e mulheres, todos perseguidos por dois jovens com barras de ferro. Uma que se chamava Isa, uma funcionária, gritou correndo para Filippo: intervenha, faça alguma coisa, chame os guardas; e Edo, que estava com uma mão sangrando, disse em voz alta para si: vou buscar o machado e depois veremos. Assim, quando Lila chegou à estrada de terra, o carro azul já havia partido e Gino estava entrando no cinza; mas ele a reconheceu, parou estupefato e disse: Lina, você veio parar aqui? Então, puxado para dentro pelos camaradas, deu a partida e arrancou, gritando pela janela: você bancava a madame, cretina, e olha em que merda se transformou.

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