História de quem foge e de quem fica
Capítulo 40
Pasquale apareceu de noite depois do jantar, com uma cara preocupada, e convidou Enzo a uma reunião na seção de San Giovanni a Teduccio. Lila ficou sozinha com ele uns poucos minutos e lhe disse:
“Bela cagada, a de hoje de manhã.”
“Faço o que é necessário.”
“Seus amigos estavam de acordo?”
“Quem são meus amigos?”
“Nadia e o irmão dela.”
“Claro que estavam de acordo.”
“Mas ficaram em casa.”
Pasquale murmurou:
“E quem disse que ficaram em casa?”
Não estava de bom humor, aliás, parecia esvaziado de energias, como se o exercício da violência lhe tivesse exaurido a ânsia de agir. De resto, não pediu a ela que fosse à reunião, fez o convite apenas a Enzo, o que nunca tinha acontecido, nem quando já estava tarde da noite, fazia frio e era improvável que ela levasse Gennaro para fora. Talvez eles tivessem outros combates de macho pela frente. Talvez estivesse chateado com ela porque, com sua resistência à luta, estragava a imagem dele perante Nadia e Armando. O certo é que estava irritado com o tom crítico com que ela aludira à expedição da manhã. Está convencido — pensou Lila — de que eu não compreendi por que ele bateu em Gino daquele modo, por que queria arrebentar a cabeça do vigia. Bons ou maus, todos os homens acham que, a cada ação deles, você deve colocá-los num altar como um são Jorge matando o dragão. Me considera uma ingrata, fez isso para se vingar, queria que eu ao menos lhe agradecesse.
Quando os dois saíram, ela se deitou e leu até tarde as publicações sobre trabalho e sindicato que Pasquale lhes dera tempos atrás. Serviram para que ela se mantivesse ancorada nas coisas pálidas do cotidiano, temia o silêncio da casa, o sono, a desobediência das batidas do coração, as formas que ameaçavam deteriorar-se a cada momento. Apesar do cansaço, leu muito e, segundo seu costume, entusiasmou-se e aprendeu depressa muitíssimas coisas. Tentando se sentir segura, esforçou-se para esperar o retorno de Enzo. Mas ele não voltou, o som da respiração regular de Gennaro acabou se tornando hipnótico, e ela caiu no sono.
Na manhã seguinte, Edo e a mulher da descarnagem, Teresa, começaram a zumbir em torno dela com palavras e gestos timidamente amigáveis. E Lila não só não os rechaçou, mas também tratou com gentileza os outros colegas. Mostrou-se disponível com quem reclamava, compreensiva com quem se enfurecia, solidária com quem praguejava contra os abusos. Escorou o incômodo de um ao incômodo de outro, soldando tudo com boas palavras. Acima de tudo, nos dias seguintes, deu cada vez mais corda a Edo, a Teresa e a seu minúsculo grupo, transformando o intervalo de almoço num momento de conchavo. E como, quando queria, sabia dar a impressão de que não era ela quem propunha e dispunha, mas os outros, encontrou em torno de si cada vez mais gente satisfeita em ouvir que as próprias lamúrias, genéricas, eram nada menos que necessidades justas e urgentes. Somou as reivindicações da descarnagem às das câmaras e às das piscinas e descobriu, ela mesma com certa surpresa, que os problemas de um setor dependiam dos problemas de outro setor e que todos juntos eram elos de uma mesma cadeia de exploração. Fez uma lista detalhada das mazelas originadas das condições de trabalho: danos às mãos, aos ossos, aos pulmões. Recolheu informações suficientes para demonstrar que todo o estabelecimento estava em péssimo estado, que as condições higiênicas eram lastimáveis, que se trabalhava com materiais às vezes deteriorados, às vezes de procedência duvidosa. Quando pôde falar pessoalmente com Pasquale e explicar o que tinha levantado em pouquíssimo tempo, ele, de mal-humorado que estava, ficou boquiaberto de maravilha e disse, radiante: eu jurava que você faria isso, e marcou para ela um encontro com um tal de Capone, secretário da Câmara do Trabalho.
Lila passou a limpo com sua bela letra tudo o que tinha recolhido, preto no branco, e levou a cópia a Capone. O secretário examinou as folhas e também ficou entusiasmado. Disse-lhe coisas do tipo: de onde você apareceu, companheira, você fez um trabalho precioso, excelente. E mais: nós nunca conseguimos entrar na Soccavo, ali dentro são todos fascistas, mas agora que você está lá as coisas vão mudar.
“Como devemos agir?”, ela perguntou.
“Façam uma comissão.”
“Já temos uma comissão.”
“Ótimo: então a primeira coisa é pôr uma ordem nisto aqui.”
“Pôr uma ordem em que sentido?”
Capone olhou para Pasquale, Pasquale não disse nada.
“Vocês estão reivindicando coisas demais ao mesmo tempo, até coisas que ninguém nunca reivindicou, é preciso estabelecer prioridades.”
“Ali dentro, tudo é prioridade.”
“Eu sei, mas é uma questão de tática: se vocês quiserem tudo de uma vez só, correm o risco de amargar uma derrota.”
Lila reduziu os olhos a uma fenda, houve algum bate-boca. Entre outras coisas, veio à tona que a comissão não podia tratar diretamente com o dono da empresa, era preciso a mediação do sindicato.
“E eu não sou o sindicato?”, ela se exaltou.
“Claro, mas há tempos e modos.”
Desentenderam-se de novo. Capone disse: vejam lá vocês, abram a discussão, sei lá, sobre os turnos, as férias, as horas extras, e depois se segue adiante. De todo modo — concluiu —, você não sabe como estou contente de ter uma companheira como você, é uma coisa rara, vamos nos coordenar, faremos grandes avanços no setor alimentar, as mulheres que se engajam são muito poucas. Em seguida, pôs a mão na carteira que trazia no bolso posterior da calça e perguntou a ela:
“Quer um pouco de dinheiro para as despesas?”
“Que despesas?”
“O mimeógrafo, o papel, o tempo que gastou nisso, coisas assim.”
“Não.”
Capone recolocou a carteira no bolso.
“Mas não vá desanimar e desaparecer, Lina, vamos ficar em contato. Olha, vou escrever aqui nome e sobrenome, quero falar de você no sindicato, precisamos utilizá-la.”
Lila foi embora insatisfeita e disse a Pasquale: que tipo de gente você me apresenta? Mas ele a tranquilizou, garantiu que Capone era uma ótima pessoa, falou que ele tinha razão, que era preciso entender, havia a estratégia e havia a tática. Depois se tomou de entusiasmo, quase se comoveu, fez que ia abraçá-la, voltou atrás e disse: vá em frente, Lina, que se foda a burocracia, enquanto isso informo o comitê.
Lila não fez nenhuma seleção dos objetivos. Limitou-se a reduzir a primeira redação, que era muito ampla, a uma folha bem densa, que entregou a Edo: uma lista de demandas relativas à organização do trabalho, aos ritmos, ao estado geral do estabelecimento, à qualidade do produto, ao risco permanente de se ferir ou contrair doenças, às indenizações miseráveis, aos aumentos salariais. Nessa altura se pôs a questão de quem iria levar aquela lista a Bruno.
“Vá você”, disse Lila a Edo.
“Eu perco as estribeiras facilmente.”
“Melhor assim.”
“Não sou adequado.”
“Você é adequadíssimo.”
“Não, vá você, que é associada ao sindicato. Além disso, você sabe falar bem, rapidinho vai colocá-lo no lugar.”
OceanofPDF.com