História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 103 de 124

Páginas do PDF

História de quem foge e de quem fica

Capítulo 102

Oh, claro que eu estava gostando, estava gostando muito. Mas também me sentia como se meu corpo tivesse a consistência da casca do ovo e bastasse uma leve pressão num braço, na testa, na barriga para rompê-lo e extrair dali todos os meus segredos, sobretudo os que eram secretos até para mim. Evitei contar os dias. Me concentrei nos textos que estava estudando, mas o fiz como se Nino fosse o contratante daquele meu trabalho e, em seu retorno, exigisse resultados de qualidade. Queria dizer a ele: segui seu conselho, fui em frente, aqui está um rascunho, me diga o que acha.

Foi uma ótima decisão. Os trinta dias de espera voaram depressa até demais. Me esqueci de Elisa, não pensei em Lila, não telefonei para Mariarosa. E não li jornais, não vi tv, relaxei com as meninas e a casa. Das prisões e combates e assassinatos e guerras, da convulsão permanente da Itália e do planeta, só me chegou um eco, e mal me dei conta da campanha eleitoral carregada de tensões. Só fiz escrever, com grande empenho. Quebrei a cabeça com um monte de velhas questões até ter a impressão de haver encontrado, pelo menos na escrita, uma ordem definitiva. Às vezes me sentia tentada a recorrer a Pietro. Ele era muito mais competente que eu, com certeza teria me poupado de escrever coisas levianas, toscas ou estúpidas. Mas não o fiz, detestava os momentos em que ele me mantinha em sujeição com seu saber enciclopédico. Trabalhei muito, me lembro bem, sobretudo sobre a primeira e a segunda criação bíblica. Coloquei-as em sucessão e considerei a primeira uma espécie de síntese do ato criativo divino, a segunda, uma espécie de narrativa mais estendida. Fiz a partir dela uma história bastante movimentada, sem jamais me sentir imprudente. Deus — escrevi mais ou menos nesses termos — cria o homem, Ish, à sua imagem. Fabrica uma versão masculina e uma feminina. Como? Primeiro, com o pó da terra, dá forma a Ish e lhe sopra nas narinas o hálito vital. Depois extrai Isha’h, a mulher, da matéria masculina já formada, matéria não mais bruta, mas viva, que toma do flanco de Ish fechando-lhe imediatamente a carne. O resultado é que Ish pode dizer: esta coisa não é, como a legião de tudo o que foi criado, outro que não eu, mas é carne da minha carne, ossos dos meus ossos. Eu sou Ish e ela é Isha’h. Sobretudo na palavra, na palavra que a nomeia, ela deriva de mim, que sou a imagem do espírito divino, que trago dentro de mim seu Verbo. Ela é, pois, um puro sufixo aplicado à minha raiz verbal, podendo exprimir-se apenas dentro da minha palavra.

E prossegui assim, vivendo dias e dias num estado de agravável excitação intelectual. Minha única aflição foi ter um texto legível a tempo. De vez em quando me surpreendia comigo: tinha a impressão de que aspirar ao consenso de Nino me tornava a escrita mais fácil, me desatava.

Mas o mês passou, e ele não deu sinal de vida. A princípio isso me ajudou, tive mais tempo e consegui levar a cabo meu trabalho. Depois me alarmei, perguntei a Pietro. Descobri que os dois tinham se falado com frequência pelo telefone do escritório, mas que há alguns dias Pietro não tinha notícias dele.

“Vocês se falaram várias vezes?”

“Sim.”

“E por que você não me disse nada?”

“Dizer o quê?”

“Que vocês se falaram várias vezes.”

“Eram ligações de trabalho.”

“Bem, já que vocês ficaram tão amigos, ligue e veja se ele se digna a nos dizer quando vem.”

“Qual a necessidade disso?”

“Para você, nenhuma, mas todo o trabalho é meu: sou eu que devo providenciar tudo e gostaria de ser avisada com antecedência.”

Ele não ligou. Reagiu me dizendo: tudo bem, vamos esperar, Nino prometeu às meninas que voltaria, não acho que vá decepcioná-las. E foi assim. Telefonou com uma semana de atraso, à noite. Eu mesma atendi, ele pareceu constrangido. Disse poucas frases genéricas e perguntou: Pietro está? Fiquei constrangida por minha vez e passei o telefone a meu marido. Conversaram por muito tempo, senti com um mau humor crescente que Pietro usava uma entonação estranha: voz muito alta, frases exclamativas, risadas. Só então entendi que a relação com Nino o tranquilizava, o fazia se sentir menos isolado, se esquecia das mazelas, trabalhava com mais vontade. Me fechei em meu quarto, onde Dede estava lendo e Elsa brincando, ambas à espera do jantar. Mas até mesmo ali me chegou aquela voz insólita, parecia embriagado. Depois se calou, ouvi seus passos pela casa. Pôs a cara na porta e disse alegre às meninas:

“Filhinhas, amanhã à noite vamos jantar frittelle com tio Nino.”

Dede e Elsa lançaram gritos de entusiasmo, e eu perguntei:

“O que ele vai fazer? Vem dormir aqui?”

“Não”, me respondeu, “veio com a esposa e o filho, estão num hotel.”

OceanofPDF.com