História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 16 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 15

Continuava idêntico: o mesmo tom caloroso e persuasivo da voz, a mesma capacidade de organizar o discurso partindo de proposições gerais que, de passagem em passagem, chegavam de modo consequente a experiências cotidianas, sob os olhos de todos, desvelando seu sentido. Enquanto escrevo me dou conta de que me lembro pouquíssimo de seu aspecto físico, somente o rosto pálido e imberbe, os cabelos curtos. No entanto seu corpo tinha sido, até aquele momento, o único ao qual eu me unira como se fôssemos casados.

Fui encontrar Franco depois de sua fala, seus olhos se acenderam de surpresa, e ele me abraçou. Mas foi difícil conversarmos, um sujeito o puxou pelo braço, outro já começava a falar num tom duro, apontando para ele insistentemente, como se devesse responder a golpes terríveis. Permaneci entre os que estavam ao lado da cátedra, incomodada, e na confusão me perdi de Mariarosa. Mas dessa vez foi ela quem me localizou e me puxou pelo braço.

“O que você está fazendo aqui?”, disse contente.

Evitei explicar que tinha faltado a um encontro, que estava ali por acaso. Falei indicando Franco:

“Conheço ele.”

“Mari?”

“Sim.”

Me falou de Franco com entusiasmo e então sussurrou: eles me pagam, fui eu que o convidei, olha que vespeiro. E, como ele dormiria na casa dela e viajaria para Turim no dia seguinte, insistiu logo para que eu também ficasse com ela. Aceitei — pena pelo hotel.

A assembleia durou bastante, houve momentos de grande tensão, um estado permanente de alarme. Deixamos a universidade quando já anoitecia. Além de Franco, uniram-se a Mariarosa a jovem mãe — que se chamava Silvia — e o homem de seus trinta anos que eu já tinha notado na sala, o que fumava charuto, um tal de Juan, pintor venezuelano. Fomos todos jantar numa trattoria que minha cunhada conhecia. Conversei com Franco o suficiente para entender que eu tinha me enganado, ele permanecera idêntico ao que era. Sobre seu rosto se pôs, ou talvez ele mesmo a tenha posto, uma máscara que, embora correspondesse perfeitamente aos traços de antes, apagara sua generosidade. Agora se mostrava retraído, contido, pesava as palavras. Durante uma breve conversa aparentemente confidencial, jamais mencionou nossa antiga relação e, quando toquei no assunto e me queixei de ele nunca mais ter me escrito, me interrompeu e murmurou: tinha que ser assim. Quanto à universidade, também foi evasivo, e compreendi que não tinha se formado.

“Há outras coisas a fazer”, disse.

“O quê?”

Virou-se para Mariarosa, quase irritado com o tom demasiado íntimo de nosso diálogo:

“Elena está me perguntando o que há para fazer.”

Mariarosa respondeu alegre:

“A revolução.”

Então assumi um ar irônico, provoquei:

“E nas horas vagas?”

Juan interveio sério, balançando suavemente o punho fechado do menino de Silvia, que estava sentada a seu lado:

“Nas horas vagas nós a preparamos.”

Depois do jantar entramos todos no carro de Mariarosa; ela morava em Sant’Ambrogio, em um velho apartamento muito espaçoso. Descobri que o venezuelano mantinha ali uma espécie de ateliê, um aposento bem bagunçado, ao qual nos levou a mim e a Franco para que víssemos seus trabalhos: grandes telas com cenas urbanas de multidões, realizadas com uma perícia quase fotográfica, na quais, porém, tinha fixado — estragando-as — bisnagas de tinta ou pincéis ou paletas ou tigelas para aguarrás e trapos. Mariarosa o elogiou com entusiasmo, mas se dirigindo sobretudo a Franco, cuja opinião parecia ser importante para ela.

Observei-os sem compreender. Com certeza Juan morava ali, e com certeza morava ali também Silvia, que se movia pelo apartamento com desenvoltura ao lado de Mirko, o bebê. Mas, se num primeiro momento pensei que o pintor e a jovem mãe formassem um casal e vivessem em um daqueles cômodos sublocados, logo mudei de ideia. Durante toda a noite o venezuelano mostrou em relação a Silvia apenas uma distraída cortesia, mas várias vezes envolveu os ombros de Mariarosa com o braço e a certa altura a beijou no pescoço.

No início se falou muito das obras de Juan. Franco sempre teve uma competência invejável no campo das artes visuais e uma sensibilidade crítica acentuada. Todos o escutamos com interesse, exceto Silvia, cujo filho, até aquele momento tranquilíssimo, de repente começou a chorar sem conseguir acalmar-se. Por um tempo esperei que Franco também falasse de meu livro, tinha certeza de que ele diria coisas inteligentes como as que estava dizendo, com alguma aspereza, sobre os quadros de Juan. No entanto ninguém mencionou meu livro e, após um impulso de intolerância do venezuelano, que não apreciara uma tirada de Franco sobre arte e sociedade, passou-se a discutir sobre o atraso cultural italiano, o quadro político resultante das eleições, as capitulações sucessivas da socialdemocracia, sobre os estudantes, a repressão policial e o que foi chamada de a lição da França. O debate entre os dois homens logo se tornou áspero. Silvia, que não conseguia entender quais eram as necessidades de Mirko e saía, entrava, gritava duramente com ele como se fosse já grande, disparou com frequência frases esquemáticas de discordância do corredor, onde passeava com o filho pra cima e pra baixo, ou do quarto aonde fora trocá-lo. Depois de ter falado sobre creches organizadas na Sorbonne para as crianças dos estudantes em greve, Mariarosa evocou Paris nos primeiros dias de junho, chuvosa e gelada, ainda bloqueada pela greve geral, não de primeira mão (lamentou não ter podido viajar), mas tal como uma amiga lhe descrevera numa carta. Franco e Juan ouviram as duas distraidamente, mas sem perder o fio da discussão que travavam entre si, polemizando com animosidade crescente.

A consequência foi que nos vimos — nós três, mulheres — na condição de três sonolentas vacas à espera de que os dois touros testassem até o fim a própria potência. Isso me aborreceu. Esperei que Mariarosa voltasse a entrar na conversa, eu também pensava em fazê-lo. Mas Franco e Juan não nos deram espaço, e enquanto isso o menino estrilava, e Silvia o tratava de modo cada vez mais agressivo. Lila — pensei — era ainda mais nova que ela quando teve Gennaro. E me dei conta de que algo me levara, já durante a assembleia, a estabelecer um nexo entre ambas. Talvez tenha sido a solidão de mãe que Lila experimentara após o desaparecimento de Nino e o rompimento com Stefano. Ou sua beleza: caso estivesse naquela assembleia com Gennaro, teria sido uma mãe ainda mais sedutora, ainda mais determinada que Silvia. Mas Lila já era carta fora do baralho. A onda que eu percebera na sala chegaria até San Giovanni a Teduccio, mas ela, naquele local em que terminara se degradando, nem a notaria. Uma pena — e me senti culpada. Deveria tê-la levado embora, raptado, forçando-a a viajar comigo. Ou pelo menos consolidar sua presença dentro de meu corpo, misturar sua voz à minha. Como naquele momento. Pude ouvi-la dizendo: se você ficar calada, se deixar só esses dois falarem, se você se comportar como uma planta de apartamento, pelo menos dê uma mão a essa moça, pense no que significa ter um filho pequeno. Uma confusão de espaços e tempos, de humores distantes. Me levantei, peguei com delicadeza e preocupação o menino do colo de Silvia, e ela o passou para mim agradecida.

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