História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 100 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 99

Estávamos então neste ponto: a irmã de meu marido considerava meu casamento um equívoco e o dizia a mim com franqueza. Eu não sabia se ria ou se chorava, aquilo me pareceu a extrema e desapaixonada confirmação do meu mal-estar conjugal. De resto, fazer o quê? Dizia a mim mesma que a maturidade consistia em aceitar o rumo que a existência tomara sem se agitar demais, traçar um sulco entre prática cotidiana e aquisições teóricas, aprender a se enxergar, a se conhecer, à espera de grandes mudanças. Dia após dia fui me acalmando. Minha filha Dede ia entrar um pouco antes da hora no primeiro ano fundamental, mas já sabendo ler e escrever; minha filha Elsa estava feliz por ficar sozinha comigo durante a manhã inteira na casa quieta; meu marido, mesmo sendo o mais monótono dos acadêmicos, parecia finalmente próximo de terminar um segundo livro que prometia ser ainda mais importante que o primeiro; e eu era a senhora Airota, Elena Airota, uma mulher entristecida pela aceitação e que, no entanto, movida pela cunhada, mas também para combater o aviltamento, começara a estudar quase em segredo a invenção da mulher por parte dos homens, misturando mundo antigo e mundo moderno. Eu o fazia sem um objetivo preciso, apenas para dizer a Mariarosa, a minha sogra, a algum conhecido: estou trabalhando.

Foi assim que, em minhas ruminações, me embrenhei desde a primeira e a segunda criações bíblicas até Defoe-Flanders, até Flaubert-Bovary, até Tolstói-Karenina, até La dernière mode, até Rose Sélavy e além, ainda mais além, num frenesi desbravador. Aos poucos me senti contente. Descobria por todo lado autômatos de mulheres fabricados por homens. De nosso não havia nada, o pouco que surgia logo se tornava matéria para a manufatura deles. Quando Pietro estava no trabalho, Dede na escola, Elsa brincava a poucos passos de minha escrivaninha e eu me sentia finalmente viva escavando nas palavras e entre as palavras, acabava às vezes imaginando o que teria sido minha vida e a de Lila se ambas tivéssemos feito o exame de admissão na escola média e depois o liceu e depois todos os estudos até a formatura, ombro a ombro, afinadas, um casal perfeito que soma energias intelectuais, prazeres do entendimento e da imaginação. Teríamos escrito juntas, teríamos assinado juntas, teríamos tirado força uma da outra, nos bateríamos lado a lado para que aquilo que era nosso fosse inimitavelmente nosso. É uma tristeza a solidão feminina das cabeças, dizia a mim mesma, é um desperdício esse excluir-se mutuamente, sem protocolos, sem tradição. Naqueles casos me sentia como se tivesse pensamentos cortados pela metade, atraentes e no entanto defeituosos, com a urgência de uma comprovação, de um desenvolvimento, mas sem convicção, sem confiança em si. Então me voltava a vontade de telefonar para ela, de lhe dizer: veja sobre o que estou refletindo, por favor, vamos discutir juntas esse ponto, me diga sua opinião, lembra o que você me falou de Alfonso? Mas a ocasião estava perdida para sempre, já há décadas. Precisava aprender a me contentar comigo.

Depois, um dia, justo enquanto analisava essa necessidade, escutei a chave girando na fechadura. Era Pietro que voltava para o almoço, depois de ter buscado Dede na escola como sempre fazia. Fechei livros e cadernos enquanto a menina já irrompia no quarto, recebida com entusiasmo por Elsa. Estava com fome, sabia que em breve gritaria: mamãe, o que vamos comer? No entanto, antes mesmo de se desfazer da pasta, exclamou: um amigo de papai veio almoçar com a gente. Lembro exatamente a data: 9 de março de 1976. Me levantei de mau humor, Dede segurou minha mão e me arrastou pelo corredor. Já Elsa, após o anúncio da presença de um estranho, se agarrou prudentemente à minha saia. Pietro disse alegre: olha quem eu lhe trouxe.

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