História de quem foge e de quem fica
Capítulo 53
Dei o dinheiro a Lila, que o contou por duas vezes com satisfação e quis imediatamente me devolver a quantia que eu lhe emprestara. Pouco depois Enzo chegou, tinha acabado de encontrar a pessoa especialista em calculadores. Parecia contente, naturalmente dentro dos limites daquela sua impassibilidade que, talvez até contra seus próprios desejos, estrangulava emoções e palavras. Lila e eu penamos para tirar informações de sua boca, mas por fim acabamos tendo um quadro bastante claro. O especialista tinha sido de grande gentileza. De início reiterara que as apostilas de Zurique eram dinheiro jogado fora, mas depois se deu conta de que Enzo era bom, a despeito da inutilidade do curso. Dissera-lhe que a ibm estava prestes a produzir na Itália, no estabelecimento de Vimercate, um computador novíssimo, e que a filial de Nápoles tinha urgente necessidade de perfuradores-verificadores, de operadores, de programadores-analistas. Garantiu-lhe que, tão logo a empresa começasse os cursos de formação, ele entraria em contato. Tomara nota de todos os seus dados.
“Parecia uma pessoa séria?”, quis saber Lila.
Para testemunhar a seriedade de seu interlocutor, Enzo apontou para mim e disse:
“Sabia tudo sobre o noivo de Lila.”
“Como assim?”
“Falou que era filho de uma pessoa importante.”
Lila fez uma expressão de fastio. Obviamente sabia que o encontro tinha sido arranjado por Pietro e que o sobrenome Airota tinha um peso no bom êxito daquele encontro, mas me pareceu contrariada com o fato de que Enzo precisasse saber disso. Pensei que o que a perturbava era a ideia de que ele também me devesse alguma coisa, como se aquela dívida — que entre mim e ela não podia ter nenhuma consequência, nem mesmo a subalternidade da gratidão — pudesse, ao contrário, fazer mal a Enzo. Apressei-me a dizer que o prestígio de meu sogro importava pouco, que o especialista em computadores tinha deixado claro, inclusive para mim, que só o ajudaria se ele fosse bom. Lila fez um gesto um tanto excessivo de aprovação e exclamou:
“Ele é excelente.”
“Nunca vi um computador na vida”, disse Enzo.
“E daí? Mesmo assim aquele sujeito deve ter notado que você sabe fazer as coisas.”
Ele pensou e por fim se dirigiu a Lila com uma admiração que, por um instante, me causou inveja:
“Ficou impressionado com os exercícios que você me estimulou a fazer.”
“É mesmo?”
“Sim. Especialmente o esquema de coisas do tipo passar roupa, bater um prego.”
A partir daquele momento, os dois começaram a brincar recorrendo a fórmulas que eu não entendia e que me excluíam. E de repetente me pareceram um casal de apaixonados, muito felizes, com um segredo tão secreto que era desconhecido até para eles mesmos. Revi o pátio de quando éramos pequenas. Revi Enzo e ela enquanto combatiam pelo primado em aritmética sob os olhos do diretor e da professora Oliviero. Revi-os enquanto ele, que nunca chorava, se desesperava por a ter ferido com uma pedra. Pensei: o modo de eles estarem juntos vem da parte melhor do bairro. Talvez Lila tenha razão em querer voltar.
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