História de quem foge e de quem fica
Capítulo 108
Tudo começou durante um jantar. Pietro falou com admiração de um professor de Nápoles, na época muito estimado, e Nino disse: seria capaz de apostar que você gostava daquele cretino. Meu marido se mostrou desconcertado, esboçou um sorriso incerto, mas Nino aumentou a dose, debochando de como ele se deixava enganar facilmente pelas aparências. A isso se seguiu, já na manhã seguinte, outro pequeno incidente. Não me lembro a propósito de que, Nino voltou a citar meu antigo desentendimento com o professor de religião sobre o Espírito Santo. Pietro, que não conhecia aquele episódio, quis saber mais, e Nino, virando-se não para ele, mas para as meninas, passou imediatamente a contar o caso como se fosse um grande feito de sua mãe quando criança.
Meu marido me elogiou e disse: você foi muito corajosa. Mas depois explicou a Dede, com o tom que assumia quando diziam bobagens na televisão e ele se sentia obrigado a esclarecer a filha sobre como as coisas eram de fato, o que tinha acontecido aos doze apóstolos na manhã de pentecostes: um rumor de vento, lampejos como de fogo, o dom de fazer-se compreender por qualquer um, em qualquer língua. Então se dirigiu a mim e a Nino falando-nos com arrebatamento da virtus que invadira os discípulos, e citou o profeta Joel: derramarei meu espírito sobre toda a carne, e disse que o Espírito Santo era um símbolo indispensável para refletir sobre como as multidões descobrem um meio de se encontrar e se organizar em comunidades. Nino o deixou falar, mas com uma expressão cada vez mais irônica. Por fim exclamou: eu teria apostado que por trás de você se escondia um padre. E para mim, divertido: você é mulher dele ou empregada de padre? Pietro ficou vermelho, se atrapalhou. Desde sempre tinha uma paixão por aqueles temas, senti que estava ficando incomodado. Balbuciou: me desculpem, estou tomando seu tempo, vamos trabalhar.
Os momentos daquele tipo se multiplicaram, sem um motivo evidente. Enquanto as relações entre mim e Nino permaneceram inalteradas, atentas à forma, educadas e distantes, entre ele e Pietro as barreiras se romperam. Fosse no café da manhã ou no jantar, o hóspede passou a se dirigir ao dono da casa num crescendo de frases zombeteiras, quase no limite do ofensivo, dessas que humilham, mas de um jeito amigável, com um sorriso nos lábios, tanto que não é possível se rebelar senão se passando por pessoa suscetível. Era uma entonação que eu conhecia, no bairro os mais espertos frequentemente se valiam dela para subjugar os mais lentos e empurrá-los, sem palavras, para o centro do escárnio. Pietro pareceu sobretudo desorientado: estava bem com Nino, o apreciava, e por isso não reagia, balançava a cabeça simulando um ar divertido, às vezes parecia perguntar-se em que poderia ter errado e esperava que se voltasse aos velhos e bons tons afetuosos. Mas Nino prosseguia implacável. Virava-se para mim, para as meninas, redobrava a dose para obter nosso consenso. E as meninas concordavam rindo, e discretamente eu também. Mas enquanto isso eu pensava: por que está fazendo isso?, se Pietro levar a sério, as relações serão cortadas. Mas Pietro não levava a sério, simplesmente não entendia, e dia após dia as neuroses voltavam a atormentá-lo. O rosto demonstrava cansaço, o desgaste daqueles anos reaparecia nos olhos em alarme e na fronte marcada. Preciso fazer alguma coisa — pensava —, e o mais depressa possível. Mas eu não fazia nada, aliás, tinha dificuldade de me livrar não da admiração, mas da excitação — talvez, sim, fosse excitação — que me invadia ao ver e ouvir como um Airota, um cultíssimo Airota, perdia terreno, se confundia, respondia com piadinhas frouxas às agressões velozes, brilhantes e até cruéis de Nino Sarratore, meu colega de escola, meu amigo, nascido no mesmo bairro que eu.
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