História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 112 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 111

 

Voltei para minha cama por volta das quatro da manhã. Meu marido teve um sobressalto e murmurou dormindo: o que foi? Respondi de modo peremptório: durma — e ele se aquietou. Eu estava atordoada. Feliz com o que havia acontecido, mas, embora me esforçasse, não conseguia ter consciência daquilo a partir de dentro de minha condição, de dentro do que eu era naquela casa, em Florença. Tinha a impressão de que tudo entre mim e Nino houvesse ocorrido no bairro, enquanto os pais dele se mudavam e Melina lançava objetos da janela e berrava destroçada pelo sofrimento; ou em Ischia, quando tínhamos passeado de mãos dadas; ou na noite em Milão, após o encontro na livraria, quando ele me defendeu contra aquele crítico raivoso. Por um momento isso me deu um senso de irresponsabilidade, talvez até de inocência, como se a amiga de Lila, a esposa de Pietro, a mãe de Dede e de Elsa não tivessem nada a ver com a menina-garota-mulher que amava Nino e finalmente o conquistara. Sentia os vestígios de suas mãos e dos beijos em cada parte do corpo. A ânsia de gozo não queria sossegar, os pensamentos eram: o dia ainda está longe, o que estou fazendo aqui, vou voltar para ele, mais uma vez.

Depois adormeci. Reabri os olhos com um calafrio, havia luz no quarto. O que eu tinha feito? Justo aqui, em minha casa, que cretinice. Agora Pietro acordaria. Agora as meninas acordariam. Eu precisava preparar o café da manhã. Nino se despediria de nós e voltaria a Nápoles, para a mulher e o filho. E eu voltaria a ser eu.

Levantei, tomei uma ducha demorada, enxuguei os cabelos, me maquiei com apuro, pus um vestido de festa como se fosse sair. Oh, claro, eu e Nino tínhamos jurado no coração da noite que nunca mais nos perderíamos de vista, que acharíamos um jeito de continuar nos amando. Mas como? E quando? Por que ele me procuraria de novo? Tudo o que podia acontecer entre nós já tinha acontecido, o resto era só complicação. Chega, pus a mesa com cuidado para o café da manhã. Queria deixar para ele uma bela imagem daquela sua permanência, da casa, dos objetos cotidianos, de mim.

Pietro apareceu descabelado, de pijama.

“Aonde você vai?”

“A lugar nenhum.”

Me olhou perplexo, nunca acontecia de eu estar tão bem-arrumada logo depois de acordar:

“Você está muito bem.”

“Não por mérito seu.”

Foi até a janela, olhou para fora e então balbuciou:

“Eu estava muito cansado ontem à noite.”

“E muito mal-educado também.”

“Vou pedir desculpas a ele.”

“Devia pedir desculpas primeiramente a mim.”

“Me desculpe.”

“Hoje ele vai embora.”

Dede apareceu de pés descalços. Fui buscar suas pantufas e acordei Elsa, que, como sempre, ainda de olhos fechados, me encheu de beijos. Que cheiro gostoso ela tinha, como era macia. Sim, disse a mim mesma, aconteceu. Ainda bem, podia não acontecer nunca. Mas agora preciso me impor uma disciplina. Telefonar a Mariarosa para saber da França, falar com Adele, ir pessoalmente à editora para tentar entender o que pretendem fazer com meu livrinho, se acreditam nele de verdade ou querem apenas agradar minha sogra. Depois ouvi rumores no corredor. Era Nino, fui arrebatada pelos sinais de sua presença, ainda estava ali, só por mais um pouco. Livrei-me do abraço da menina e disse: desculpe, Elsa, mamãe volta logo — e saí depressa.

Nino estava saindo sonolento do quarto, o empurrei para o banheiro, tranquei a porta. Começamos a nos beijar, perdi de novo a consciência do lugar e da hora. Eu mesma me espantei com a intensidade de meu desejo, era boa em esconder as coisas de mim. Nos agarramos com uma fúria que eu desconhecia, como se os corpos se chocassem um contra o outro com a intenção de se arrebentar. Então o prazer era isso: quebrar-se, misturar-se, não saber mais o que era meu e o que era dele. Mesmo se Pietro tivesse aparecido, mesmo se as meninas surgissem ali, não seriam capazes de nos reconhecer. Sussurrei em sua boca.

“Fique mais um tempo.”

“Não posso.”

“Então volte, jure que vai voltar.”

“Juro.”

“E me ligue.”

“Sim.”

“Diga que não vai se esquecer de mim, que não vai me deixar, diga que me ama.”

“Te amo.”

“Repita.”

“Te amo.”

“Jure que não é uma mentira.”

“Juro.”

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