História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 62 de 124

Páginas do PDF

História de quem foge e de quem fica

Capítulo 61

Na noite anterior à minha partida para Florença não consegui dormir. Dentre todos os pensamentos dolorosos, o mais resistente dizia respeito a Pasquale. As críticas dele me queimavam. Num primeiro momento as rejeitei em bloco, mas agora oscilava entre a convicção de que não as merecia e a ideia de que, se Lila dera razão a ele, talvez eu tivesse errado de fato. Por fim, fiz algo que nunca havia feito: levantei da cama às quatro da manhã e saí de casa sozinha, antes que amanhecesse. Estava muito infeliz, queria que me acontecesse algo ruim, um evento que, punindo-me por minhas ações equivocadas e meus maus pensamentos, também punisse Lila por reflexo. No entanto nada me aconteceu. Caminhei longamente pelas ruas desertas, bem mais seguras do que quando estavam lotadas. O céu ficou violeta. Cheguei ao mar, uma folha acinzentada sob o céu pálido com raras nuvens de bordas rosadas. A massa do Castel dell’Ovo estava nitidamente cortada em duas pela luz, uma forma ocre resplandecente do lado do Vesúvio, uma mancha marrom do lado de Mergellina e Posillipo. A rua ao longo do arrecife estava vazia, o mar não tinha som, mas emanava um cheiro intenso. Quem sabe que sentimento eu teria de Nápoles, de mim, se acordasse todas as manhãs não no bairro, mas num daqueles edifícios à beira-mar. O que estou buscando? Mudar meu nascimento? Mudar a mim mesma e também aos outros? Repovoar esta cidade agora deserta de cidadãos sem o suplício da miséria ou da avidez, sem rancor e sem fúrias, cidadãos capazes de gozar o esplendor da paisagem como as divindades que um dia a habitaram? Favorecer meu demônio, dar a ele uma boa vida e me sentir feliz? Eu tinha usado o poder dos Airota, gente que há gerações lutava pelo socialismo, gente que estava ao lado de pessoas como Pasquale e Lila, não porque eu pensasse em consertar os problemas do mundo, mas porque estava em condições de ajudar uma pessoa que eu amava e me parecera indesculpável não o fazer. Tinha agido mal? Devia ter deixado Lila se virar? Nunca mais, nunca mais moveria uma palha por ninguém. Parti, fui me casar.

OceanofPDF.com