História de quem foge e de quem fica
Capítulo 104
Par causa de minhas indecisões chegamos atrasados à trattoria. A família Sarratore já estava à mesa. Nino nos apresentou sua mulher, Eleonora, e meu humor mudou. Oh, sim, ela tinha um rosto bonito e lindos cabelos pretos, como na foto. Mas era mais baixa que eu — embora eu não fosse nada alta. E, apesar de rechonchuda, não tinha peito. E usava um vestido vermelho fogo que lhe caía malíssimo. E estava carregada de joias. E desde as primeiras palavras que disse revelou uma voz estrídula, um sotaque de napolitana educada por jogadoras de canastra numa casa com vidraças para o golfo. Mas acima de tudo, ao longo da noite, demonstrou pouca cultura — embora estudasse jurisprudência — e uma propensão a falar mal de tudo e de todos com um ar de quem se sente na contracorrente e se orgulha disso. Em suma, era rica, mimada, vulgar. Até seus traços agradáveis eram continuamente estragados por uma careta de fastio seguida de uma risadinha nervosa, ih, ih, ih, que lhe cortava a fala, mesmo em frases curtas. Invocou-se com Florença — em que é melhor do que Nápoles? —, com a trattoria — péssima —, com o dono — um mal-educado —, com qualquer coisa que Pietro dissesse — que bobagem —, com as meninas — nossa senhora, como vocês falam, um pouco de silêncio, por favor — e naturalmente comigo — você estudou em Pisa, mas por quê?, Letras em Nápoles é bem melhor, nunca ouvi falar desse seu romance, quando é que saiu?, oito anos atrás eu só tinha catorze anos. Apenas com o filho e com Nino foi sempre carinhosa. Albertino era muito bonito, gordinho, com um ar feliz, e Eleonora não parava de elogiá-lo. O mesmo acontecia com o marido: ninguém era melhor que ele, aprovava cada frase que saía de sua boca, o tocava, o abraçava, o beijava. O que essa garotinha podia ter em comum com Lila, até com Silvia? Nada. Então por que Nino se casara com ela?
Fiquei de olho nele durante a noite toda. Era gentil com ela, deixava-se abraçar e beijar, sorria-lhe afetuosamente quando dizia tolices mal-educadas, brincava distraidamente com o menino. Mas não mudou sua atitude com minhas filhas, às quais prestou grande atenção, continuou discutindo alegremente com Pietro e até me dirigiu algumas palavras. A mulher — quis acreditar — não o absorvia. Eleonora era uma das muitas peças de sua vida movimentada, mas não tinha nenhuma influência sobre ele, Nino seguiu em frente seu próprio caminho sem dar peso a ela. Por isso me senti cada vez mais à vontade, especialmente quando ele me segurou o pulso por alguns segundos, quase o acariciou, mostrando que reconhecera meu bracelete; especialmente quando zombou do meu marido perguntando-lhe se tinha deixado um pouco mais de tempo para mim; especialmente quando, logo em seguida, me perguntou se eu tinha avançado em meu trabalho.
“Terminei a primeira redação”, respondi.
Nino se virou sério para Pietro:
“Você leu?”
“Elena não me deixa ler nada.”
“É você quem não quer”, rebati sem irritação, como se fosse uma brincadeira entre nós.
Nesse ponto Eleonora se intrometeu, não queria ser deixada de lado:
“De que se trata?”, quis saber. Porém, justamente quando eu estava para responder, sua cabeça volúvel a levou para longe e começou a me perguntar entusiasmada: “Amanhã você me acompanha para ver as lojas enquanto Nino trabalha?”.
Sorri com falsa cordialidade. Disse que estava disponível, e ela começou com uma lista detalhadíssima das coisas que pretendia comprar. Somente quando saímos da trattoria consegui me aproximar de Nino e murmurar:
“Você poderia dar uma olhada em meu texto?”
Ele me olhou com sincera surpresa:
“Você realmente me deixaria ler?”
“Se não for um incômodo, claro.”
Passei-lhe furtivamente minhas páginas com o coração aos pulos, como se não quisesse que Pietro, Eleonora e as meninas percebessem.
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