História de quem foge e de quem fica
Capítulo 89
Não quis me adiantar mais nada e interrompeu furiosíssima a ligação. Telefonei ansiosa para a casa de meus pais, minha mãe atendeu.
“De vez em quando você se lembra de que a gente existe”, ela disse.
“Mãe, o que está acontecendo com Elisa?”
“O mesmo que acontece com as mulheres de hoje.”
“Ou seja?”
“Está com alguém.”
“Ficou noiva?”
“Digamos que sim.”
“E com quem ela está?”
A resposta me atravessou o coração.
“Com Marcello Solara.”
Então era isso que Lila queria que eu soubesse. Marcello, o belo Marcello de nossa primeira adolescência, seu noivo teimoso e desesperado, o rapaz que ela humilhara ao se casar com Stefano Carracci, tinha tomado Elisa para si, a mais nova da família, minha irmãzinha boa, a mulher que eu ainda sentia como uma menina mágica. E Elisa se deixara tomar. Meus pais e meus irmãos não tinham movido uma palha para impedi-lo. E toda minha família, e de algum modo eu mesma, acabaríamos aparentados com os Solara.
“Desde quando?”, perguntei.
“Sei lá, um ano.”
“E vocês deram permissão?”
“Você por acaso pediu nossa permissão? Fez como bem entendeu. E ela fez a mesma coisa.”
“Pietro não é Marcello Solara.”
“Você tem razão: Marcello nunca permitiria que Elisa o tratasse como você trata Pietro.”
Silêncio.
“Vocês podiam ter me informado, ter me consultado.”
“E por quê? Você foi embora. ‘Eu cuido de vocês, não se preocupem.’ Coisa nenhuma. Você só pensou em suas coisas, se fodeu para a gente.”
Decidi viajar imediatamente para Nápoles com as meninas. Queria ir de trem, mas Pietro se ofereceu para nos levar de carro, fazendo passar por zelo o fato de que não queria trabalhar. Já quando saímos da Doganella e entramos no trânsito caótico de Nápoles, me senti agarrada de novo pela cidade, comandada por suas leis não escritas. Não punha os pés ali desde que tinha saído para me casar. O barulho me pareceu insuportável, fiquei nervosa com o buzinar contínuo dos carros, com as ofensas que lançavam a Pietro quando, por não conhecer a estrada, hesitava, diminuía a marcha. Pouco antes de piazza Carlo iii o obriguei a encostar o carro, assumi o volante e guiei com agressividade até via Firenze, até o mesmo hotel em que ele se hospedara anos antes. Deixamos as bagagens e me dediquei a cuidados meticulosos com as meninas e comigo. Depois fomos ao bairro, para a casa de meus pais. O que eu achava que poderia fazer? Impor a Elisa minha autoridade de irmã mais velha, formada, bem-casada? Induzi-la a romper o noivado? Dizer: conheço Marcello desde que me agarrou pelo pulso e tentou me puxar para dentro de sua Millecento, arrebentando o bracelete de prata de mamãe, confie em mim, ele é um homem vulgar e violento? Sim. Eu me sentia determinada, minha tarefa era tirar Elisa daquela armadilha.
Minha mãe acolheu Pietro com grande afeto e, um após outro — este é para a Dede da vovó, este é para Elsa —, deu às meninas muitos presentinhos que, cada qual a seu jeito, as deixaram muito animadas. Meu pai ficou com a voz rouca de emoção, me pareceu emagrecido, ainda mais subalterno. Esperei que meus irmãos aparecessem, mas descobri que não estavam em casa.
“Estão sempre trabalhando”, disse meu pai sem entusiasmo.
“O que eles estão fazendo?”
“Labutando”, atalhou minha mãe.
“Onde?”
“Marcello arranjou emprego para eles.”
Me lembrei de como os Solara tinham arranjado emprego para Antonio, em que eles o haviam transformado.
“Que tipo de emprego?”, perguntei.
Minha mãe respondeu irritada:
“Eles trazem dinheiro para casa, é o que importa. Elisa não é que nem você, Elisa pensa em todos nós.”
Fiz de conta que não escutei:
“Você avisou que eu chegaria hoje? Onde ela está?”
Meu pai baixou os olhos, minha mãe falou seca:
“Na casa dela.”
Fiquei furiosa:
“Ela não mora mais aqui?”
“Não.”
“E desde quando?”
“Quase dois meses. Ela e Marcello têm um belo apartamento no bairro novo”, disse minha mãe, gelada.
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