História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 42 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 41

 

Lila sabia desde o início que a tarefa caberia a ela. Ganhou tempo, deixou Gennaro com a vizinha, foi com Pasquale a uma reunião do comitê na via dei Tribunali convocada para discutir também a situação na Soccavo. Dessa vez eram doze pessoas, incluindo Nadia, Armando, Isabella e Pasquale. Lila fez circular a cópia que tinha preparado para Capone, já que, naquela primeira versão, cada demanda estava mais bem argumentada. Nadia leu com atenção. Por fim, disse: Pasquale tinha razão, você é daquelas que não se omitem, em pouquíssimo tempo fez um trabalho excelente. E elogiou com um tom sinceramente admirado não só a substância política e sindical do documento, mas também a escrita: como você é talentosa, disse, quando já se viu que se pode escrever sobre esse assunto desta maneira? No entanto, depois dessa premissa, desaconselhou que ela partisse logo para um confronto direto com Soccavo. E Armando expressou a mesma opinião.

“Vamos esperar para nos reforçar e crescer”, disse, “a fabriqueta de Soccavo é uma realidade que precisa ser amadurecida. Nós colocamos um pé lá, e isso já é um grande resultado, não podemos nos arriscar a sermos varridos por pura imprudência.”

Dario perguntou:

“O que vocês propõem?”

Nadia respondeu, mas se dirigindo a Lila:

“Vamos fazer uma reunião mais ampla. Vamos nos encontrar o mais rapidamente possível com seus companheiros, consolidamos a estrutura de vocês e, se for o caso, com o seu material, preparamos outro panfleto mimeografado.”

Diante daquelas cautelas inesperadas, Lila sentiu uma grande e agressiva satisfação. Disse arrogante:

“Então vocês acham que eu fiz todo esse esforço e estou pondo meu emprego em risco para permitir que vocês façam uma reunião ampliada e preparem um outro texto?”

Mas não conseguiu gozar plenamente aquela sensação de revanche. De repente Nadia, que estava bem à sua frente, começou a vibrar como um vidro mal fixado e se despedaçou. Sem um motivo aparente, a garganta de Lila se fechou, e os mínimos gestos dos presentes, até um bater de cílios, se aceleraram. Ela fechou os olhos, apoiou as costas no espaldar da cadeira bamba em que estava sentada e se sentiu sufocar.

“Você está bem?”, perguntou Armando.

Pasquale se agitou:

“Ela se cansa demais”, disse. “Lina, o que foi, quer um copo d’água?”

Dario correu para buscar a água, enquanto Armando checava seu pulso e Pasquale, nervoso, insistia:

“O que você está sentindo? Alongue as pernas, respire.”

Lila sussurrou que estava bem, tirou bruscamente o pulso das mãos de Armando, disse que só queria ser deixada um minuto em paz. Mas, depois que Dario voltou com a água e ela deu um pequeno gole, murmurou que não era nada, só um pouco de gripe.

“Está com febre?”, perguntou Armando com tranquilidade.

“Hoje não.”

“Tosse, tem dificuldade de respirar?”

“Um pouco, sinto o coração batendo na garganta.”

“Agora está um pouco melhor?”

“Sim.”

“Venha para a outra sala.”

Lila relutava e, no entanto, sentia uma grande angústia por dentro. Por fim obedeceu, ergueu-se com dificuldade e acompanhou Armando, que nesse meio-tempo pegara uma bolsa de couro preto com fivelas douradas. Foram para um cômodo que Lila ainda não tinha visto, espaçoso, frio, três camas de campanha sobre as quais havia velhos colchões de aparência imunda, um armário com um espelho rachado, um gaveteiro. Sentou-se exausta em uma das camas, não se submetia a uma consulta médica desde a época da gravidez. Quando ele a indagou sobre os sintomas, omitiu tudo, só mencionou o peso no peito, mas acrescentou: é uma bobagem.

Armando a examinou em silêncio, e ela imediatamente odiou aquele silêncio, pareceu-lhe um silêncio pérfido. Aquele homem distante, limpo, mesmo durante as perguntas parecia não confiar nem um pouco nas respostas; submetia-a a análises como se somente seu corpo, potencializado por instrumentos e competências, fosse um dispositivo confiável. Ele a auscultava, apalpava, perscrutava e ao mesmo tempo lhe impunha uma espera de palavras definitivas sobre o que estava acontecendo em seu peito, na barriga, na garganta, locais aparentemente bem conhecidos que agora ela sentia como totalmente estranhos. Por fim Armando perguntou:

“Você dorme bem?”

“Muito bem.”

“Quanto?”

“Depende.”

“De quê?”

“Dos pensamentos.”

“Come bem?”

“Quanto tenho vontade.”

“Às vezes tem dificuldade de respirar?”

“Não.”

“Dores no tórax?”

“Um peso, mas leve.”

“Suores frios?”

“Não.”

“Já aconteceu de desmaiar ou se sentir tonta?”

“Não.”

“Você é regular?”

“Em quê?”

“Nas menstruações.”

“Não.”

“Quando menstruou pela última vez?”

“Não sei.”

“Você não registra?”

“É preciso registrar?”

“É melhor. Usa anticoncepcionais?”

“O que você quer dizer?”

“Preservativos, diu, pílula?”

“Que pílula?”

“Um medicamento novo: você toma e impede a gravidez.”

“É verdade?”

“Com certeza que sim. Seu marido nunca usou um preservativo?”

“Não tenho mais marido.”

“Ele a deixou?”

“Eu o deixei.”

“Quando estavam juntos, ele usava?”

“Não sei nem como é um preservativo.”

“Você tem uma vida sexual regular?”

“Qual a necessidade de falar sobre essas coisas?”

“Se não quiser, não falamos.”

“Não quero.”

Armando recolocou seus instrumentos na bolsa, sentou-se numa cadeira meio destroçada, deu um suspiro.

“Você precisa ir mais devagar, Lina: você forçou seu corpo demais.”

“O que isso significa?”

“Você está desnutrida, debilitada, você se descuidou muito.”

“E o que mais?”

“Tem um pouco de catarro, vou lhe dar um xarope.”

“E o que mais?”

“Você deveria fazer uma série de exames, o fígado está um pouco inchado.”

“Não tenho tempo para exames, me dê um remédio.”

Armando balançou a cabeça, descontente.

“Escute”, disse, “já entendi que com você é melhor ser direto: você tem um sopro.”

“O que é isso?”

“Um problema no coração, e poderia ser algo não benigno.”

Lila fez uma expressão de ansiedade.

“O que você quer dizer? Que eu vou morrer?”

Ele sorriu e disse:

“Não, você só precisa fazer um exame com um cardiologista. Venha me ver amanhã no hospital e eu mando você a um bom especialista.”

Lila franziu o cenho, se levantou e disse fria:

“Amanhã tenho compromisso, vou ver Soccavo.”

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