História de quem foge e de quem fica
Capítulo 103
Demorei um tempo longuíssimo para assimilar o sentido daquelas frases. Disparei:
“Ele podia ter avisado.”
“Decidiram de última hora.”
“É um grosseirão.”
“Elena, qual o problema?”
Então Nino viera com a mulher — fui tomada pelo terror da comparação. Eu sabia bem como era feita, conhecia a materialidade bruta de meu corpo, mas durante boa parte de minha vida lhe tinha dado pouca importância. Crescera com um par de sapatos de quando em quando, roupinhas costuradas por minha mãe, maquiagem somente em raras ocasiões. Em anos recentes tinha começado a me preocupar com a moda, a educar meu gosto sob a orientação de Adele, e agora achava divertido me arrumar. Mas às vezes — especialmente quando me cuidava não só para causar uma boa impressão geral, mas também para um homem — me enfeitar (era esta a palavra) me dava a impressão de algo ridículo. Toda aquela afobação, todo aquele tempo me disfarçando, quando poderia empregá-lo em coisa melhor. As cores que ficam bem em mim, as que não ficam, os modelos que me deixam mais magra, os que me engordam, o corte que me valoriza, o que me deprecia. Uma longa e penosa preparação. Reduzir-me a mesa posta para o apetite sexual do macho, a iguaria bem cozinhada para lhe dar água na boca. E depois a angústia de não conseguir, de não parecer bonita, de não ter sido capaz de ocultar com destreza a vulgaridade da carne com seus humores, cheiros e deformidades. De todo modo eu tinha conseguido. Inclusive para Nino, recentemente. Quis mostrar a ele que eu me tornara outra, que conquistara uma certa fineza, que não era mais a menina do casamento de Lila, a estudante na festa dos filhos da Galiani, nem mesmo a autora despreparada de um único livro, como devo ter parecido a ele em Milão. Mas agora chega. Ele trouxera a esposa e eu estava com raiva, me parecia uma maldade. Detestava competir em beleza com outra mulher, mais ainda sob o olhar de um homem, e sofria ao pensar que estaria dividindo o espaço com a bela jovem que eu tinha visto na foto, me dava dor de estômago. Ela me avaliaria e examinaria em cada detalhe, com a soberba de uma dondoca de via Tasso, educada para a gestão do corpo desde o nascimento; depois, encerrada a noite, a sós com o marido, me criticaria com lucidez cruel.
Vacilei por horas e por fim decidi que inventaria alguma desculpa, apenas meu marido e as meninas iriam àquele jantar. Mas no dia seguinte não consegui resistir. Me vesti, me desvesti, me arrumei, me desarrumei, atormentei Pietro. Ia ao quarto dele continuamente, ora com uma roupa, ora com outra, ora com um penteado, ora com outro, perguntando tensíssima: como é que estou? Ele me lançava um olhar distraído e dizia: está bem. Eu respondia: e se eu pusesse o vestido azul? Concordava. Mas eu punha o vestido azul e não gostava, ficava muito justo nos quadris. Voltava até ele e dizia: está apertado. Pietro rebatia paciente: é verdade, aquele verde com florezinhas fica melhor em você. Mas eu não queria que o verde com florezinhas ficasse simplesmente melhor, queria que ficasse perfeito, que ficassem perfeitos os brincos e também os cabelos e também os sapatos. Enfim, Pietro não era capaz de me passar confiança, me olhava sem me ver. E eu me sentia cada vez mais disforme, peito demais, bunda demais, quadris largos, e estes cabelos aloirados, este nariz grande. Tinha o corpo de minha mãe, um organismo desprovido de graça, só me faltava a ciática voltar de repente e eu recomeçar a mancar. Já a mulher de Nino era muito jovem, bonita, rica e seguramente se movia à vontade no mundo, coisa que eu jamais conseguiria aprender. Assim voltei mil vezes à decisão inicial: não vou, mando Pietro com as meninas, mando dizer que não estou me sentindo bem. No entanto fui. Pus uma blusa branca com uma saia florida, a única joia que usei foi o velho bracelete de minha mãe, meti na bolsa o texto que havia escrito. E disse a mim mesma: que se fodam ela, ele, todo mundo.
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