História de quem foge e de quem fica
Capítulo 82
Carmen estava numa ansiedade tremenda, chorava por aquilo que lhe parecia o retorno de uma perseguição. Quanto a mim, não conseguia tirar da cabeça a pracinha desolada onde ficava a farmácia, e tinha diante dos olhos o interior da loja, que sempre me agradara pelo cheiro de caramelos e de xaropes, pelos móveis de madeira escura sobre os quais se alinhavam vasos coloridos, sobretudo pelos pais de Gino, gentilíssimos, um tanto curvados atrás do balcão de onde se debruçavam como de uma galeria de teatro, eles, que seguramente estavam ali quando o barulho dos tiros os fez estremecer, eles, que dali mesmo talvez tenham visto de olhos arregalados o filho desabar na soleira, e o sangue. Quis falar com Lila. Mas ela se mostrou de uma indiferença total e, liquidando o assunto como mais um dos tantos, se limitou a dizer: imagine se a polícia não iria atrás de Pasquale. A voz dela conseguiu imediatamente me capturar e persuadir, sublinhando que, mesmo que Pasquale tivesse de fato assassinado Gino — hipótese que ela excluía —, de todo modo ela ficaria do lado dele, porque a polícia deveria ter se preocupado mais com o morto, por todas as desgraças que ele fizera, e não com nosso amigo pedreiro e comunista. Depois disso, com o tom de quem passa a questões mais relevantes, me perguntou se poderia deixar Gennaro comigo enquanto as aulas não recomeçavam. Gennaro? E como eu faria? Eu já tinha Dede e Elsa que me esgotavam. Murmurei:
“Por quê?”
“Preciso trabalhar.”
“Estou indo para a praia com as meninas.”
“Leve ele também.”
“Vou para Viareggio e fico lá até o final de agosto: o menino me conhece pouco, vai querer você. Se você também vier, tudo bem, mas sozinha eu não sei.”
“Você me jurou que cuidaria dele.”
“Sim, mas se você estivesse mal.”
“E como é que você sabe que não estou mal?”
“Você está?”
“Não.”
“Então pode muito bem deixá-lo com sua mãe ou com Stefano.”
Ficou calada por uns segundos, depois perdeu as boas maneiras:
“Você pode me fazer esse favor? Sim ou não?”
Cedi na hora.
“Tudo bem, pode trazer o menino.”
Enzo chegou num sábado à tarde com uma Cinquecento branquíssima, que tinha acabado de comprar. Só de avistá-lo da janela, de ouvir o dialeto que usou para dizer algo ao menino que ainda estava no carro — era ele, idêntico, o mesmo gesto compassado, o mesmo organismo compacto —, senti de novo a materialidade de Nápoles, do bairro. Abri a porta com Dede agarrada a meu vestido, e me bastou apenas olhar para Gennaro e perceber que, já cinco anos atrás, Melina tinha acertado: agora que estava com dez anos o menino mostrava evidentemente que não se parecia nada não só com Nino, mas nem sequer com Lila — era uma reprodução perfeita de Stefano.
Ao constatá-lo, tive um sentimento ambíguo, uma mistura de decepção e de regozijo. Pensei que, no fim das contas, tendo de ficar com o menino por tanto tempo, teria sido bom ver pela casa, ao lado de minhas filhas, um filho de Nino; no entanto, constatei de bom grado que Nino não tinha deixado nada para Lila.
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