História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 36 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 35

O dia de trabalho transcorreu numa ansiedade que Lila, como de costume, tratou de ocultar por trás de uma atitude ora desdenhosa, ora ameaçadora. Todos deram a entender que a culpa por aquele clima de tensão, desencadeado de repente em um estabelecimento sempre tranquilo, era dela. Mas logo se delinearam dois partidos: um, constituído de poucos, queria reunir-se em algum lugar durante o intervalo do almoço e aproveitar o estado das coisas para convencer Lila a levar ao dono da fábrica uma cautelosa reivindicação econômica; outro, composto pela maioria, nem sequer dirigia a palavra a Lila e era contrário a qualquer iniciativa que complicasse uma vida de trabalho já complicada. Entre os dois grupos não houve meio de se chegar a um acordo. Aliás, Edo, que pertencia ao primeiro grupo e estava bastante nervoso com o ferimento na mão, chegou a dizer a um integrante do partido oposto: se minha mão infeccionar, se eu a perder, vou até sua casa, jogo uma lata de gasolina e queimo você e toda sua família. Lila ignorou ambas as facções. Manteve-se fechada e trabalhou de cabeça baixa com a eficiência habitual, afugentando o bate-boca, os insultos e o resfriado. Mas refletiu muito sobre o que a aguardava, e um vórtice de pensamentos diversos lhe passou pela cabeça febril: o que acontecera com os estudantes espancados, para onde tinham fugido, em que enrascada a tinham metido; Gino espalharia fofocas sobre ela em todo o bairro, contaria tudo a Michele Solara; que humilhação pedir favores a Bruno, no entanto não havia outra possibilidade, temia ser demitida, temia perder um salário que, mesmo sendo miserável, permitia que ela gostasse de Enzo sem o considerar fundamental para sua sobrevivência e a de Gennaro.

Depois tornou a se lembrar de sua noite terrível. O que tinha acontecido? Devia ir a um médico? E se o médico encontrasse alguma doença, como ela faria com o trabalho e o menino? Cuidado, não se agite, precisava se reorganizar. Por isso, no intervalo do almoço, vencida pelas preocupações, resignou-se a falar com Bruno. Queria conversar sobre a brincadeira maldosa da linguiça, sobre os fascistas de Gino, e reafirmar que não tinha culpa naquilo. Mas antes, sentindo desprezo por si, trancou-se no banheiro para ajeitar os cabelos e passar um pouco de batom. No entanto a secretária lhe comunicou hostil que Bruno não estava e quase seguramente não viria durante toda a semana. Foi tomada de novo pela ansiedade. Cada vez mais nervosa, pensou em pedir a Pasquale que impedisse os estudantes de voltarem ao portão, disse para si que, afastados os rapazes do comitê, os fascistas também sumiriam, e a fábrica se acalmaria dentro de seus velhos hábitos. Mas como localizar Peluso? Não sabia onde era o canteiro em que ele trabalhava, não se sentia disposta a ir procurá-lo no bairro, temia ter de cruzar com sua mãe, com o pai, sobretudo com o irmão, com quem não queria se encontrar. Assim, esgotada, somou todos os seus desgostos e decidiu recorrer diretamente a Nadia. Ao final do turno correu para casa, deixou para Enzo um bilhete em que lhe dizia que preparasse o jantar, cobriu bem Gennaro com capote e gorro e subiu, ônibus após ônibus, até o corso Vittorio Emanuele.

O céu tinha tons pastéis, nem sequer uma nesga de nuvem, mas a luz do final da tarde estava cedendo e o vento era forte, soprando um ar violeta. Recordou-se com precisão da casa, do portão, de cada coisa, e a humilhação de anos atrás lhe acendeu mais ainda o fastio de agora. Como o passado era friável, desmoronava continuamente, caía sobre ela. Daquela casa onde ela havia entrado comigo numa festa que a fizera sofrer agora saía rodopiando Nadia, a ex-namorada de Nino, para fazê-la sofrer ainda mais. Mas ela não era do tipo de ficar quieta, e foi até lá arrastando Gennaro consigo. Queria dizer àquela garotinha: você e os outros estão criando problemas para meu filho; pra você é apenas uma diversão, nunca lhe acontecerá nada de grave; pra mim, pra ele, não, é coisa séria, então ou você faz algo para consertar tudo, ou eu quebro sua cara. Pretendia falar exatamente assim, e tossia enquanto a raiva aumentava, não via a hora de desabafar.

Encontrou o portão aberto. Subiu as escadas, lembrou-se de mim e dela, de Stefano, que nos acompanhara à festa, das roupas, dos sapatos, de cada palavra que trocamos na ida e na volta. Tocou, a própria professora Galiani lhe abriu a porta, idêntica a como a recordava, gentil, toda arrumada até dentro de casa. Em comparação a ela, Lila se sentiu suja: pelo cheiro de carne crua que trazia impregnado no corpo, pelo resfriado que lhe congestionava o peito, pela febre que desordenava os sentimentos, pelo menino que a importunava se lamuriando em dialeto. Perguntou bruscamente:

“Nadia está?”

“Não, saiu.”

“Quando ela volta?”

“Lamento, não sei dizer, daqui a dez minutos, uma hora; ela faz o que lhe dá na telha.”

“Pode dizer que Lina a procurou?”

“É algo urgente?”

“Sim.”

“Quer dizer a mim?”

Dizer a ela o quê? Lila se desconcertou, seu olhar vagou para além de Galiani. Entrevia-se a antiguidade aristocrática dos móveis e dos lampadários, a biblioteca repleta de livros que a encantara, os quadros preciosos nas paredes. Pensou: aí está o mundo que Nino ambicionava antes de se atolar em mim. Pensou: o que é que eu sei dessa outra Nápoles, nada; nunca vou viver aqui, nem Gennaro; então que seja destruída, que venham o fogo e as cinzas, que a lava chegue até o topo das colinas. Depois finalmente respondeu: não, obrigada, preciso falar com Nadia. E já estava para se despedir, tinha sido uma viagem inútil. Mas gostara do andamento hostil com que a professora tinha falado da filha e exclamou com um tom subitamente frívolo:

“Sabe que anos atrás eu estive em uma festa nesta casa? Eu imaginava não sei o quê, mas no fim das contas me entediei, não via a hora de sair.”

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