História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 43 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 42

O tom preocupado de Pasquale a exasperou. Enquanto dirigia para casa, perguntou a ela:

“O que Armando lhe disse? Como você está?”

“Estou bem, preciso me alimentar melhor.”

“Está vendo? Você não se cuida.”

Lila esbravejou:

“Pasquà, você não é meu pai, não é meu irmão, não é ninguém. Me deixe em paz, combinado?”

“Não posso me preocupar com você?”

“Não, e tome cuidado com o que faz e o que diz, especialmente com Enzo: se você disser a ele que eu me senti mal — o que não é verdade, só tive uma tontura —, corremos o risco de romper a amizade.”

“Tire dois dias de descanso e não vá falar com Soccavo: tanto Capone quanto o comitê aconselharam você a não fazer isso, é uma questão de oportunidade política.”

“Estou me lixando para a oportunidade política: foram vocês que me meteram nessa enrascada, e agora eu faço o que quiser.”

Não o convidou a subir, e ele foi embora aborrecido. Uma vez em casa, Lila mimou muito Gennaro, preparou o jantar e esperou por Enzo. Agora tinha a impressão de estar constantemente com a respiração curta. Como Enzo demorasse, deu de comer a Gennaro e teve medo de que fosse uma daquelas noites em que ele se encontrava com mulheres e voltava altas horas. Quando o menino derrubou um copo cheio d’água, ela interrompeu toda ternura e gritou com ele como se fosse um adulto, em dialeto: quer ficar um pouco parado, quer que eu lhe dê uns tapas, por que você quer arruinar minha vida assim?

Enzo voltou naquele momento, ela tentou ser gentil. Comeram, mas Lila teve a impressão de que as garfadas tinham dificuldade de descer ao estômago, arranhando-lhe o peito. Assim que Gennaro adormeceu, os dois se dedicaram às apostilas do curso de Zurique, mas Enzo se cansou logo e tentou várias vezes, gentilmente, ir dormir. Foram tentativas vãs, Lila queria ir até tarde, tinha medo de se fechar em seu quarto, temia que os sintomas omitidos a Armando aparecessem assim que ela se visse sozinha no escuro, todos juntos, levando-a à morte. Ele lhe perguntou baixinho:

“O que é que você tem?”

“Nada.”

“Está sempre pra lá e pra cá com Pasquale: qual o segredo de vocês?”

“São coisas do sindicato, ele me inscreveu nele e agora preciso participar.”

Enzo fez uma expressão incomodada, e ela perguntou:

“O que foi?”

“Pasquale me contou o que você está fazendo na fábrica. Você conversou com ele e conversou com o pessoal do comitê. Por que o único que não merece saber sou eu?”

Lila ficou nervosa, se levantou, foi ao banheiro. Pasquale não tinha resistido. O que ele tinha contado? Apenas a luta sindical que queria travar com Soccavo ou também sobre Gino, o mal-estar que ela sentira na via dei Tribunali? Não conseguira ficar calado, a amizade entre homens tem seus pactos não escritos, mas sólidos, não como a amizade entre mulheres. Deu descarga, voltou a Enzo, disse:

“Pasquale é um dedo-duro.”

“Pasquale é um amigo. Já você é o quê?”

O tom lhe fez mal, cedeu de modo inesperado, de golpe. Os olhos se encheram de lágrimas, e tentou inutilmente mandá-las para dentro, humilhada pela própria fraqueza.

“Não quero lhe causar mais problemas do que já lhe causei”, soluçou, “tenho medo de que você me mande embora.” Então assoou o nariz e acrescentou num sussurro: “Posso dormir com você?”

Enzo a fixou incrédulo.

“Dormir como?”

“Como você quiser.”

“E você quer?”

Lila murmurou, fixando o jarro de água no centro da mesa, um jarro engraçado, de que Gennaro gostava muito, com uma cabeça de galinha:

“O essencial é que você fique perto de mim.”

Enzo balançou a cabeça, desanimado.

“Você não gosta de mim.”

“Gosto, mas não sinto nada.”

“Não sente nada por mim?”

“Nada disso, eu gosto muito de você e todas as noites desejo que me chame e me abrace. Mas além disso não desejo mais nada.”

Enzo ficou pálido, o rosto bonito se contraiu como numa dor insuportável, constatou:

“Tem aversão por mim.”

“Não, não, não: vamos fazer o que você quiser, agora, estou pronta.”

Ele deu um sorriso desolado e ficou um instante em silêncio. Depois não suportou a ansiedade dela e balbuciou:

“Vamos dormir.”

“Cada um em seu quarto?”

“Não, no meu.”

Aliviada, Lila foi se despir. Colocou a camisola e foi até ele tremendo de frio. Enzo já estava na cama.

“Posso me deitar aqui?”

“Pode.”

Deslizou sob as cobertas, apoiou a cabeça em seu ombro, passou um braço sobre seu peito. Ele ficou imóvel, ela logo sentiu que emanava um calor violentíssimo.

“Estou com os pés gelados”, sussurrou, “posso encostá-los nos seus?”

“Sim.”

“Posso fazer carinho em você?”

“Me deixe quieto.”

Aos poucos o frio passou. A dor no peito se dissolveu, esqueceu-se do aperto na garganta, abandonou-se à trégua da tepidez.

“Posso dormir?”, perguntou a ele, aturdida de cansaço.

“Durma.”

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