História de quem foge e de quem fica
Capítulo 71
Foi então que comecei a telefonar para Lila não esporadicamente, como tinha ocorrido até aquele momento, mas quase todos os dias. Fazia caras ligações interurbanas com o único objetivo de me aninhar em sua sombra, fazer passar o tempo da gravidez, esperar que, segundo um velho costume, ela pusesse minha fantasia em movimento. Naturalmente eu tomava cuidado para não dizer coisas erradas, e esperava que ela fizesse o mesmo. Agora sabia com clareza que só era possível cultivar nossa amizade com a condição de frearmos nossa língua. Por exemplo, eu não podia confessar a ela que uma parte sombria de mim temera que ela tivesse feito malefícios contra mim a distância, que essa parte ainda esperava que ela de fato estivesse doente e morresse. Por exemplo, ela não podia revelar os reais motivos que a levavam a me tratar de modo áspero, frequentemente ofensivo. Por isso nos limitávamos a falar de Gennaro, que era um dos melhores alunos da escola fundamental, de Dede, que já sabia ler — e o fazíamos como duas mães, com as normais gabolices de mãe. Ou então mencionava minhas tentativas de escrever, mas sem dramatizar, dizendo apenas: estou trabalhando, não é fácil, a gravidez me consome um pouco. Ou tentava entender se Michele continuava lhe fazendo o cerco, para prendê-la de algum modo e se apossar dela. Ou às vezes tentava saber se ela gostava de certos atores do cinema ou da tv, levá-la a me dizer se era atraída por homens diferentes de Enzo, e se fosse o caso confessar que também eu desejava outros homens que não Pietro. Mas parecia que esse último assunto não lhe interessava. Sobre os atores, dizia quase sempre: quem é? Nunca vi nem no cinema, nem na televisão. Mas bastava que eu mencionasse o nome de Enzo, e ela desandava a falar sobre a história dos computadores, confundindo-me com um jargão incompreensível.
Eram relatos entusiásticos, e às vezes, na hipótese de que pudessem ser úteis no futuro, eu tomava nota enquanto ela falava. Enzo tinha conseguido, agora trabalhava numa pequena fábrica de tecidos a cinquenta quilômetros de Nápoles. A empresa havia alugado uma máquina da ibm, e ele era o analista de sistemas. Sabe que trabalho é esse? Ele esquematiza os processos manuais, transformando-os em diagramas de fluxo. A unidade central da máquina é do tamanho de um armário de três portas, e a memória é de 8 KByte. Que calor que faz, Lenu, você não pode imaginar: o computador é pior que uma estufa. Máxima abstração misturada a suor e muito fedor. Me falava de núcleos de ferrita, de anéis atravessados por um cabo elétrico cuja tensão determinava sua rotação, 0 ou 1, e um anel era um bit, e o conjunto de oito anéis podia representar um byte, isto é, um caractere. Enzo era o protagonista absoluto da verborragia de Lila. Dominava como um deus toda aquela matéria, manipulava aquele vocabulário e sua substância dentro de uma grande sala com grandes condicionadores de ar, um gigante que conseguia que a máquina fizesse tudo o que as pessoas faziam. Estou sendo clara?, me perguntava de vez em quando. Eu respondia vacilante que sim, mas não tinha ideia do que ela estava falando. Percebia apenas que ela notava quão obscuro era tudo aquilo para mim, e isso me envergonhava.
O entusiasmo dela cresceu de interurbano em interurbano. Enzo agora ganhava 148 mil liras por mês, precisamente, cento e quarenta e oito. Porque era excepcional, o homem mais inteligente que já tinha conhecido. Tão competente, tão rápido, que logo se tornou indispensável e encontrou um modo de a contratarem também, como ajudante. Sim, esta era a novidade: Lila estava trabalhando de novo, e dessa vez estava gostando. Ele é o chefe, Lenu, e eu, a subchefe. Deixo Gennaro com minha mãe — às vezes até com Stefano — e vou para a fábrica todas as manhãs. Eu e Enzo estudamos a empresa ponto por ponto. Fazemos o que os funcionários fazem para entender bem o que devemos inserir no computador. Assinalamos, por exemplo, os movimentos contábeis, colamos os registros nas faturas, verificamos as cadernetas dos aprendizes, os cartões de presença, e depois transformamos tudo em diagramas e furos nas fichas. Sim, sim, também trabalho como perfuradora: fico lá com outras três mulheres, e me pagam 80 mil liras. Cento e quarenta e oito mais oitenta dá duzentas e vinte e oito, Lenu. Eu e Enzo estamos ricos, e vai ficar ainda melhor daqui a uns meses, porque o patrão se deu conta de que sou capaz e quer que eu faça um curso. Viu a vida que estou levando? Está contente?
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