História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 5 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 4

Saímos da livraria. Com discrição, Adele seguiu na frente acompanhada de Tarratano, enquanto eu e Nino os acompanhávamos atrás. Mas logo descobri que não sabia o que falar com ele, temia que qualquer palavra minha soasse equivocada. Ele cuidou de quebrar o silêncio. Elogiou mais uma vez meu livro e começou a falar com muito apreço dos Airota (os definiu como “a mais civilizada das famílias que valem alguma coisa na Itália”), disse que conhecia Mariarosa (“está sempre na linha de frente: duas semanas atrás tivemos uma grande discussão”), congratulou-me porque tinha acabado de saber por Adele que eu estava noiva de Pietro, cujo livro sobre os ritos báquicos, para meu espanto, ele conhecia; mas acima de tudo falou com deferência sobre o chefe de família, o professor Guido Airota, “um homem realmente excepcional”. Fiquei um pouco irritada por ele já saber de meu noivado, e também incomodada ao notar que o elogio a meu livro era mais um preâmbulo ao louvor bem mais acentuado de toda a família de Pietro, do livro de Pietro. Então o interrompi, perguntei a respeito dele, mas foi vago nas respostas, apenas a menção a um livrinho no prelo que ele mesmo qualificou de tedioso, mas obrigatório. Insisti, indaguei se tinha enfrentado muitas dificuldades nos primeiros anos em Milão. Respondeu com poucas palavras genéricas sobre os problemas quando se vem do Sul sem um centavo no bolso. Depois me perguntou de repente:

“Você voltou a morar em Nápoles?”

“Por enquanto, sim.”

“No bairro?”

“Sim.”

“Eu rompi definitivamente com meu pai e não vejo mais ninguém da família.”

“Que pena.”

“Está ótimo assim. Só lamento não ter notícias de Lina.”

Por um instante pensei que eu me enganara, que Lila nunca tivesse saído de sua vida, que não tinha ido à livraria por minha causa, mas só para saber dela. Então disse a mim mesma: se ele realmente quisesse saber de Lila, depois de tantos anos teria encontrado um meio de se informar, e reagi com ímpeto, no tom claro de quem quer encerrar o assunto depressa:

“Ela deixou o marido, vive com outro.”

“Teve um menino ou uma menina?”.

“Um menino.”

Fez uma expressão descontente e disse:

“Lina é corajosa, até demais. Mas não sabe dobrar-se à realidade, é incapaz de aceitar os outros e a si mesma. Gostar dela foi uma experiência difícil.”

“Em que sentido?”

“Ela não sabe o que é dedicação.”

“Talvez você esteja exagerando.”

“Não, ela realmente tem problemas: na cabeça, em tudo, até no sexo.”

Aquelas últimas palavras — até no sexo — me atingiram mais que as outras. Então Nino estava expressando um juízo negativo sobre sua relação com Lila? Então acabara de me dizer, para meu espanto, que aquele juízo também incluía a esfera sexual? Fixei por uns segundos as silhuetas escuras de Adele e de seu amigo, que caminhavam à nossa frente. O espanto se transformou em ansiedade, percebi que até no sexo era um preâmbulo, que ele queria ser ainda mais explícito. Anos atrás aconteceu que Stefano, depois do casamento, fez confidências a mim e me contou alguns problemas com Lila, mas sem nunca aludir ao sexo, ninguém no bairro o teria feito ao falar sobre a mulher que amava. Era impensável, por exemplo, que Pasquale me falasse da sexualidade de Ada ou, pior ainda, que Antonio conversasse com Carmen ou Gigliola sobre minha sexualidade. Isso se fazia entre homens — e de modo vulgar, quando eles não se importavam ou já tinham deixado de se importar conosco, mulheres —, mas entre homens e mulheres, não. Entretanto intuí que Nino, o novo Nino, considerava absolutamente normal tratar comigo sobre temas como o das relações sexuais que tivera com minha amiga. Fiquei constrangida, me retraí. Este é outro ponto — pensei — sobre o qual nunca devo falar com Lila; no entanto disse com falsa desenvoltura: águas passadas, vamos esquecer as tristezas, me fale de você, como é seu trabalho, quais as perspectivas na universidade, onde você mora, vive sozinho? Mas com certeza demonstrei excessiva ansiedade, e ele deve ter notado que saí pela tangente depressa. Sorriu irônico e começou a me responder. Mas tínhamos chegado ao restaurante, e entramos.

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