História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 108 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 107

Nino ficou uns dez dias. Nada do que ocorreu naquele período teve que ver com a ânsia de sedução que eu experimentara anos antes. Não fiz gracinhas com ele, não mudei o tom de voz, não o assediei com cortesias de todo tipo, não representei o papel da mulher liberal imitando minha cunhada, não experimentei o caminho das alusões maliciosas, não procurei seu olhar com ternura, não procurei sentar a seu lado na mesa ou no sofá, diante da televisão, não circulei seminua pela casa, não busquei estar sozinha com ele, não encostei meu cotovelo no dele, braço no braço ou no seio, perna com perna. Fui tímida, digna, de poucas e secas palavras, atenta apenas a que se alimentasse bem, que as meninas não o importunassem, que se sentisse à vontade. E não foi uma escolha, eu não teria conseguido me comportar de outra maneira. Ele brincava muito com Pietro, com Dede, com Elsa, mas assim que me dirigia a palavra se tornava sério, parecia medir as frases como se não houvesse uma velha amizade entre nós. E comigo acontecia o mesmo. Estava felicíssima de tê-lo em casa e no entanto não sentia nenhuma necessidade de tons ou gestos de intimidade, ao contrário, gostava de me manter à margem e de evitar contatos entre nós. Me sentia como uma gota de chuva numa teia de aranha, e ficava atenta para não escorregar.

Tivemos uma única troca, longa, toda ela concentrada em meu texto. Ele tocou no assunto imediatamente, assim que chegou, com precisão e agudeza. Ficara tocado com a narrativa de Ish e Isha’h, me fez questões, perguntou: para você a mulher, no relato bíblico, não é distinta do homem, é o próprio homem? Sim, respondi, Eva não pode, não sabe, não tem matéria para ser Eva fora de Adão. Seu mal e seu bem são o mal e o bem segundo Adão. Eva é Adão mulher. E a operação divina é tão bem lograda que ela mesma, em si, não sabe o que é, tem lineamentos maleáveis, não possui uma língua própria, não tem uma lógica e um estilo próprios, forma-se como nada. Condição terrível, comentou Nino, e eu, nervosa, o espiei com o rabo do olho para entender se estava zombando de mim. Não, não estava. Ao contrário, me elogiou muito sem a mínima sombra de ironia, citou alguns livros que eu não conhecia sobre assuntos correlatos e reiterou que considerava o trabalho pronto para publicação. Escutei sem demonstrar satisfação, apenas disse no final: Mariarosa também gostou do texto. Nessa altura ele pediu informações sobre minha cunhada, falou bem dela tanto como estudiosa quanto pela dedicação a Franco, e seguiu para a biblioteca.

Quanto ao resto, saiu todas as manhãs com Pietro e voltou todas as noites depois dele. Em raríssimas ocasiões saímos todos juntos. Uma vez, por exemplo, quis nos levar ao cinema para ver uma comédia, escolhida especialmente para as meninas. Nino se sentou ao lado de Pietro, eu, entre minhas filhas. Quando me dei conta de que eu ria alto sempre que ele ria, parei completamente de rir. Censurei-o brandamente porque durante o intervalo quis comprar sorvete para Dede, Elsa e também para os adultos. Para mim, não — disse —, obrigada. Brincou um pouco, falou que o sorvete era bom e que eu não sabia o que estava perdendo, ofereceu para que eu o provasse, provei. Enfim, pequenos gestos. Numa tarde fizemos um passeio eu, ele, Dede e Elsa. Conversamos pouquíssimo, Nino deu corda sobretudo às meninas. Mas o percurso ficou impresso na minha memória, eu poderia mencionar cada rua, os locais onde paramos, cada esquina. Fazia calor, a cidade estava abarrotada de gente. Ele cumprimentava passantes o tempo todo, alguns o chamavam pelo sobrenome, fui apresentada a um ou outro com elogios exagerados. Fiquei surpresa com sua notoriedade. Um deles, historiador bastante conhecido, o cumprimentou pelas meninas como se fossem nossas filhas. Não aconteceu mais nada além disso, exceto uma mudança repentina e inexplicável das relações entre ele e Pietro.

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