História de quem foge e de quem fica
Capítulo 28
Assim que A fada azul se transformou em cinzas voláteis na fogueira do pátio, Lila voltou ao trabalho. Não sei quanto nosso encontro influiu sobre ela, com certeza se sentiu infeliz por dias e dias, mas conseguiu não se indagar por quê. Tinha aprendido que buscar razões lhe fazia mal e esperou que a infelicidade se tornasse primeiro um genérico mau humor, depois melancolia, por fim a ânsia normal de todo dia: cuidar de Gennaro, refazer as camas, manter a casa limpa, lavar e passar as roupas do menino, de Enzo e dela, preparar a comida para os três, entregar Gennaro à vizinha com mil recomendações, correr para a fábrica e ali suportar o cansaço e os abusos, voltar para casa e se dedicar ao filho e também aos meninos com quem Gennaro brincava, preparar o jantar, comer de novo os três juntos, pôr Gennaro na cama enquanto Enzo tirava a mesa e lavava os pratos, voltar à cozinha para ajudá-lo a estudar, algo a que ele dava muita importância e que ela, apesar de exausta, não queria lhe negar.
O que ela via em Enzo? No fim das contas, acho, a mesma coisa que tinha querido ver em Stefano e em Nino: uma maneira de finalmente pôr tudo de pé do modo mais justo. Mas enquanto Stefano, desmoronada a fachada do dinheiro, se revelara uma pessoa sem substância e perigosa; enquanto Nino, desmoronada a fachada da inteligência, se transmudara numa fumaça negra de dor; Enzo por ora lhe parecia incapaz de tristes surpresas. Tinha sido o menino da fundamental que ela, por motivos obscuros, sempre respeitara, e agora era um homem tão intimamente compacto em cada gesto, tão resoluto diante do mundo e tão manso com ela que lhe fazia excluir a hipótese de poder de repente se deformar.
É verdade, não dormiam juntos, Lila não conseguia. Fechavam-se cada um em seu quarto, e ela o escutava se mover além da parede até que todo rumor cessasse e restassem somente os barulhos da casa, do edifício, da rua. Tinha dificuldade de pegar no sono, apesar do cansaço. No escuro, todos os motivos de infelicidade que por prudência deixara sem nome se misturavam e se concentravam em Gennaro. Pensava: em que vai se transformar este menino? Pensava: não devo chamá-lo de Rinuccio, assim o constranjo a retroceder ao dialeto. Pensava: também preciso ajudar os meninos que brincam com ele, se eu não quiser que, estando em sua companhia, ele se estrague. Pensava: não tenho muito tempo, já não sou a mesma de antes, não pego numa caneta, não leio mais um livro.
Às vezes sentia um peso no peito. Se alarmava, acendia a luz em plena noite, olhava o filho dormindo. Reconhecia pouco ou nada de Nino, Gennaro se parecia mais com seu irmão. Quando era mais novo, o menino estava sempre atrás dela, mas agora se aborrecia, gritava, queria ir correndo brincar, lhe dizia palavrões. Amo muito ele — Lila refletia —, mas será que o amo assim como é? Pergunta terrível. Quanto mais examinava o filho, mais percebia que, embora a vizinha de casa o achasse inteligentíssimo, não estava crescendo como ela gostaria. Sentia que os anos em que se dedicara unicamente a ele não tinham servido para nada, agora punha em dúvida que as qualidades de uma pessoa dependessem da qualidade de sua primeira infância. Era preciso ser constante, e Gennaro não tinha nenhuma constância, tal como ela mesma não tinha. Minha cabeça se desvia continuamente, dizia para si, tenho uma constituição ruim, e ele também. Depois se envergonhava de pensar assim e sussurrava ao menino adormecido: você é ótimo, já sabe ler, já sabe escrever, sabe somar e subtrair, sua mãe é uma estúpida, nunca está contente. Então beijava o pequeno na testa e apagava a luz.
Mas o sono continuava se negando a vir, especialmente nas vezes em que Enzo voltava tarde e ia para a cama sem a chamar para estudar. Nesses casos Lila imaginava que ele tivesse se encontrado com alguma prostituta, ou que tivesse uma amante, uma operária da fábrica onde trabalhava, uma militante da célula comunista à qual se filiara prontamente. Os homens são assim mesmo, pensava, pelo menos todos os que eu conheci: precisam trepar o tempo todo, se não se sentem infelizes. Não creio que Enzo seja diferente, por que deveria? De resto eu mesma o rejeitei, o deixei na cama sozinho, não posso pretender nada. Temia apenas que ele se apaixonasse e a mandasse embora. O que a preocupava não era ficar sem um teto, tinha um trabalho na fábrica de embutidos e se sentia forte, surpreendentemente bem mais forte do que quando se casara com Stefano e se vira com muito dinheiro, mas submetida a ele. O que mais a amedrontava era perder a gentileza de Enzo, a atenção que ele prestava a qualquer ansiedade sua, a força tranquila que desprendia e graças à qual a salvara, primeiro da ausência de Nino, depois da presença de Stefano. Tanto mais que, na condição de vida em que se achava agora, ele era o único que a gratificasse continuando a lhe atribuir capacidades extraordinárias.
“Você sabe o que significa isso?”
“Não.”
“Olhe bem.”
“É alemão, Enzo, e eu não sei alemão.”
“Mas, se você se concentrar, logo logo vai saber”, ele lhe dizia, em parte brincando, em parte sério.
Enzo, que fizera grandes esforços para obter o diploma e afinal conseguira, achava que ela — apesar de ter parado na quinta série da fundamental — tinha uma inteligência muito mais pronta que a sua, e lhe atribuía a virtude milagrosa de dominar rapidamente qualquer matéria. De fato, quando a partir de pouquíssimos elementos ele se convencera de que não só as linguagens das calculadoras eletrônicas preparavam o futuro do gênero humano, mas também que a elite que primeiramente se apoderasse delas teria um papel extraordinário na história do mundo, logo recorreu a ela.
“Me ajude.”
“Estou cansada.”
“A gente leva uma vida de merda, Lina, precisamos mudar.”
“Pra mim está bom assim.”
“O menino passa o dia todo com estranhos.”
“Ele já está grandinho, não pode viver numa redoma de vidro.”
“Olhe como suas mãos estão.”
“As mãos são minhas, e faço com elas o que eu quiser.”
“Quero ganhar mais, por você e por Gennaro.”
“Pense em suas coisas que eu penso nas minhas.”
Reações ásperas, como de costume. Enzo se inscrevera em um curso com apostilas mensais — coisa cara para o bolso deles, que exigia testes periódicos enviados a um centro internacional de elaboração de dados com sede em Zurique, o qual os remetia de volta corrigidos — e aos poucos tinha conseguido envolver Lila, que se esforçara para acompanhá-lo. Mas se comportara de um modo totalmente diverso de como tinha se comportado com Nino, que ela assediara com a obsessão de mostrar para ele que era capaz de ajudá-lo em tudo. Quando estudava com Enzo se mostrava tranquila, não tentava superá-lo. As horas noturnas que dedicavam ao curso eram para ele um esforço, para ela, um sedativo. Talvez por isso, nas raras vezes em que voltava tarde e parecia poder prescindir dela, Lila ficava acordada, ansiosa, escutando a água que escorria no banheiro e com a qual imaginava que Enzo estivesse lavando do corpo todos os vestígios de contato com suas amantes.
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