História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 122 de 124

Páginas do PDF

História de quem foge e de quem fica

Capítulo 121

A data da partida se aproximava, mas as coisas com Pietro não melhoravam; qualquer acordo, nem que fosse apenas para aquela viagem a Montpellier, parecia impossível. Se você for, ele me dizia, nunca mais vai ver as meninas. Ou: se você levar as meninas, eu me mato. Ou: vou denunciá-la por abandono do teto conjugal. Ou: vamos fazer uma viagem nós quatro, vamos para Viena. Ou: meninas, sua mãe prefere o senhor Nino Sarratore a vocês.

Comecei a não aguentar mais. Lembrei-me das resistências de Antonio quando tinha decidido deixá-lo. Mas Antonio era um rapaz, tinha herdado a cabeça frágil de Melina e sobretudo não recebera a mesma educação de Pietro, não tinha sido adestrado desde a infância a identificar regras no caos. Talvez — pensei comigo — eu tenha atribuído um peso excessivo ao uso cultivado da razão, às boas leituras, à língua bem governada, à filiação política; talvez, diante do abandono, sejamos todos iguais; talvez nem mesmo uma cabeça muito disciplinada consiga suportar a descoberta de não ser amada. Meu marido — não havia o que fazer — estava convencido de que devia me proteger a todo custo da mordida venenosa de meus desejos e, assim, contanto que continuasse sendo meu marido, estava disposto a recorrer a qualquer meio, mesmo ao mais abjeto. Ele, que tinha querido o casamento no civil, ele, que sempre fora a favor do divórcio, por um desgovernado movimento interno pretendia que nossa relação durasse eternamente, como se tivéssemos nos casado diante de Deus. E, como eu insistia em pôr um ponto final em nossa história, ele primeiro tentava todas as vias da persuasão, depois quebrava coisas, se estapeava, de repente começava a cantar.

Quando se excedia daquele modo, eu ficava furiosa e lhe gritava insultos. E ele como sempre mudava num instante, feito um bichinho assustado, e se punha ao meu lado, me pedia desculpas, dizia que não era comigo, era sua cabeça que não funcionava bem. Adele — me revelou uma noite entre lágrimas — sempre traíra seu pai, foi uma descoberta que ele fez ainda na infância. Aos seis anos flagrara a mãe beijando um homem enorme, vestido de azul, na grande sala de estar em Gênova com vista para o mar. Lembrava-se de todos os detalhes: o homem tinha grandes bigodes que eram como uma lâmina escura; na calça despontava uma mancha brilhante que parecia uma moeda de cem liras; sua mãe, apertada a ele, parecia um arco tão tenso que arriscava se quebrar. Eu o escutei em silêncio, tentei consolá-lo: se acalme, são falsas lembranças, você sabe que são, eu nem preciso lhe dizer. Mas ele voltou a insistir: Adele estava com uma saída de praia rosa, uma alça escorregara de seu ombro bronzeado; as unhas compridas pareciam de vidro; tinha feito uma trança negra que lhe pendia da nuca feito uma serpente. Finalmente me disse, passando do sofrimento à ira: entende o que você me fez, entende em que horror você me atirou? E eu pensei: Dede também vai se lembrar, Dede também vai gritar algo parecido quando for grande. Mas depois me esquivei, me convenci de que Pietro estava me contando aquilo sobre sua mãe só agora, depois de tantos anos, justamente para me induzir àquele pensamento, me ferir, me segurar.

Segui em frente extenuada, dia e noite, não se dormia mais. Se meu marido me atormentava, Nino por sua vez não ficava atrás. Quando me percebia provada pelas tensões e preocupações, em vez de me consolar, ficava nervoso e dizia: você acha que para mim é mais fácil, mas aqui está um inferno que nem aí, tenho medo por Eleonora, tenho medo pelo que possa vir a fazer, por isso não pense que estou com problemas menores que os seus, talvez minha situação seja até pior. E exclamava: mas eu e você, juntos, somos mais fortes que qualquer um, nossa união é uma necessidade imprescindível; você tem clareza disso, me diga, quero ouvir, tem clareza? Eu tinha clareza. Mas aquelas palavras não me ajudavam muito. O que me dava força mesmo era imaginar o momento em que finalmente o reencontraria e pegaríamos o avião para a França. Preciso resistir até lá, dizia a mim mesma, depois veremos. Por agora eu só almejava uma suspensão da dor, não aguentava mais. No ápice de uma briga violentíssima, diante dos olhos de Dede e Elsa, eu disse a Pietro:

“Chega. Vou viajar por cinco dias, somente cinco dias, depois volto e vamos ver o que faremos. Tudo bem?”

Ele se virou para as meninas:

“A mãe de vocês disse que vai embora por cinco dias, mas vocês acreditam nisso?”

Dede fez sinal que não com a cabeça, e Elsa também.

“Nem elas acreditam”, disse então Pietro, “todos nós sabemos que você vai nos deixar e não vai voltar mais.”

Nesse instante, como se tivessem combinado, tanto Dede quanto Elsa se lançaram contra mim, abraçando minhas pernas e implorando que eu não fosse, que ficasse com elas. Não aguentei. Fiquei de joelhos, as abracei pela cintura, disse: tudo bem, não vou viajar, vocês são minhas menininhas, vou ficar com vocês. Aquelas palavras as acalmaram, aos poucos Pietro também se acalmou. Me recolhi no meu quarto.

Ah, meu Deus, como tudo estava fora dos eixos, eles, eu, o mundo ao redor: só era possível uma trégua recorrendo a mentiras. Faltavam dois dias para a partida. Primeiro escrevi uma longa carta a Pietro, depois uma breve para Dede, recomendando que ela também a lesse para Elsa. Preparei uma mala, coloquei-a no quarto de hóspedes, debaixo da cama. Comprei de tudo, abarrotei a geladeira. No almoço e no jantar preparei pratos que Pietro adorava, e ele comeu com gratidão. As meninas, aliviadas, voltaram a brigar por qualquer coisa.

OceanofPDF.com