História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 79 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 78

Fortaleci os laços com Mariarosa. Liguei frequentemente para ela, mas quando Pietro se deu conta disso começou a me falar da irmã com um desprezo cada vez mais evidente. Era frívola, vazia, perigosa para si e para os outros, tinha sido a cruel torturadora de sua infância e adolescência, era a maior preocupação dos pais. Uma noite, enquanto eu falava com minha cunhada por telefone, saiu do escritório desgrenhado, o rosto exausto. Circulou pela cozinha, comeu alguma coisa, brincou com Dede e enquanto isso ficou escutando nossa conversa. Depois, de uma hora pra outra, gritou: essa cretina sabe que está na hora do jantar? Desculpei-me com Mariarosa e pus o fone no gancho. Está tudo pronto — falei —, já vamos comer, não precisa gritar. Ele resmungou que gastar dinheiro com interurbanos para ouvir as doidices da irmã lhe parecia uma estupidez. Não respondi, pus a mesa. Percebeu que eu estava com raiva e disse preocupado: não era com você, era com Mariarosa. Mas a partir daquela noite ele começou a folhear os livros que eu lia, a ironizar sobre frases que eu tinha sublinhado. Dizia: não se deixe enganar, é tudo bobagem. E tentava me demonstrar a lógica claudicante de manifestos e opúsculos feministas.

Uma noite, justamente sobre aquele tema, acabamos brigando e eu talvez tenha exagerado; de frase em frase, cheguei a lhe dizer: você se dá muita importância, mas tudo o que você é depende de seu pai e de sua mãe, exatamente como Mariarosa. Ele reagiu de modo inesperado, me deu uma bofetada, e na presença de Dede.

Aguentei firme, melhor do que ele: tinha levado muitas bofetadas ao longo da vida, Pietro nunca tinha dado uma, nem provavelmente recebido. Vi em sua expressão o horror pelo que havia feito, fixou a filha por um instante, saiu de casa. Esperei o ódio esfriar. Não fui para a cama, esperei por ele e, como não voltava, fiquei preocupada, não sabia o que fazer. Ele estava com problema de nervos, precisava de repouso? Ou essa era sua verdadeira natureza, enterrada sob milhares de livros e uma boa educação? Mais uma vez me dei conta de que sabia bem pouco sobre ele, que não era capaz de prever seus movimentos: podia ter pulado no Arno, estar caído embriagado em algum canto, até ter ido a Gênova em busca de conforto e curativo nos braços da mãe. Ah, chega, eu estava assustada. Percebi que estava deixando à margem de minha vida privada tudo aquilo que eu lia, que sabia. Tinha duas filhas, não queria encerrar as contas muito apressadamente.

Pietro voltou por volta das cinco da manhã, e senti tanto alívio ao vê-lo são e salvo que o abracei e beijei. Ele balbuciou: você não me ama, nunca me amou. E acrescentou: de todo modo, não mereço você.

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