História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 66 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 65

 

Me senti abandonada, mas com a impressão de que merecia aquilo: não era capaz de garantir serenidade a minha filha. No entanto segui firme, embora estivesse cada vez mais assustada. Meu organismo recusava o papel de mãe. E por mais que eu rechaçasse a dor na perna, fazendo de tudo para ignorá-la, a dor tinha voltado e crescia. Mas eu insistia, me esgotava cuidando de tudo. Como o prédio não tinha elevador, eu subia e descia com a pequena dentro do carrinho, ia fazer as compras, voltava carregada de sacolas, limpava a casa, cozinhava, pensava: estou ficando feia e velha antes da hora, que nem as mulheres do bairro. E, claro, sempre que estava particularmente desesperada, telefonava para Lila.

Assim que ouvia a voz dela me vinha de gritar: mas o que foi que você fez, estava indo tudo bem e agora, de uma hora para outra, está acontecendo justamente o que você dizia, a menina está mal, eu estou mancando, como é possível, não aguento mais. Mas conseguia me segurar a tempo e murmurara: está tudo bem, a pequena dá um certo trabalho e por ora cresce pouco, mas é maravilhosa, estou muito contente. Então, com falso interesse, passava a perguntar por Enzo, por Gennaro, pelas relações dela com Stefano, com o irmão, o bairro, se tinha tido outros problemas com Bruno Soccavo ou com Michele. Ela respondia num dialeto pesado e agressivo, mas em geral sem raiva. Soccavo — dizia — precisa se ferrar. E Michele, se eu topar com ele, cuspo na cara. Quanto a Gennaro, agora se referia a ele explicitamente como o filho de Stefano e dizia: é quadrado que nem o pai. E ria quando eu falava é um menino tão agradável, disparava: você é uma mamãezinha tão boa, fique com ele. Naquelas frases eu sentia o sarcasmo de quem conhecia, graças quem sabe a que força oculta, o que de fato estava ocorrendo comigo, e isso me dava rancor, mas eu redobrava a carga, insistia com meu teatrinho — escute que vozinha linda a Dede tem, aqui em Florença é uma beleza, estou lendo um livro interessante de Baran — e prosseguia assim até que ela me forçava a terminar a encenação para me falar do curso que Enzo tinha começado na ibm.

Falava com respeito apenas sobre ele, demoradamente, e logo em seguida me perguntava de Pietro.

“Tudo bem com seu marido?”

“Tudo ótimo.”

“Eu também com Enzo.”

Quando desligava, sua voz deixava um rastro de imagens e de sons do passado que durava horas em minha cabeça: o pátio, as brincadeiras perigosas, a minha boneca que ela jogara no porão, as escadas escuras que subimos para buscá-la com dom Achille, o casamento dela, sua generosidade e sua maldade, como ela se apossara de Nino. Não tolera minha sorte, eu pensava amedrontada, me quer ao lado dela, abaixo dela, ajudando-a em suas coisas, em suas miseráveis guerras de bairro. Depois dizia a mim mesma: como sou estúpida, de que me serviu estudar — e fazia de conta que tudo estava sob controle. Para minha irmã Elisa, que me ligava frequentemente, eu dizia que ser mãe era lindo. Para Carmen Peluso, que me falava de seu casamento com o frentista do estradão, eu respondia: ah, que bela notícia, desejo-lhe muitas felicidades, mande lembranças a Pasquale, como ele está. Com minha mãe, que raramente telefonava, fingi estar radiante, e somente numa ocasião acabei cedendo e lhe perguntando: o que aconteceu com sua perna, por que você manca?; e ela respondeu: que te importa, cuide de suas coisas.

Lutei durante meses, mantive sob vigilância as partes mais opacas de mim. Às vezes me surpreendia rezando para Nossa Senhora, apesar de me considerar ateia — e me envergonhava. Mais frequentemente, quando estava sozinha em casa com a menina, lançava gritos terríveis, não palavras, apenas sopro expelido com o desespero. Mas aquele período ruim não queria passar, foi um tempo longo e atormentado. À noite, mancando, eu levava a menina para lá e para cá pelo corredor e já não lhe sussurrava palavrinhas sem sentido, a ignorava e tentava pensar em mim, sempre com um livro na mão ou uma revista, mesmo sem conseguir ler quase nada. De dia, quando Adele dormia placidamente — no início, tinha começado a

chamá-la de Ade[2], sem me dar conta do inferno concentrado naquelas duas sílabas, tanto que, quando Pietro chamou minha atenção para isso, fiquei perturbada e mudei para Dede —, eu tentava escrever para o jornal. Mas não tinha mais tempo — e com certeza nem sequer vontade — de andar viajando por conta do Unità. Assim, as coisas que eu escrevia perderam energia, tentava apenas exibir minha habilidade formal e acabava em arabescos desprovidos de substância. Uma vez rabisquei um artigo e o li a Pietro antes de ditá-lo para a redação. Ele disse:

“É vazio.”

“Em que sentido?”

“São palavras, só isso.”

Me senti ofendida, ditei o artigo mesmo assim. Não o publicaram. E a partir daquele momento, com um certo mal-estar, tanto a redação local quanto a nacional começaram a recusar meus textos alegando problemas de espaço. Sofri, me dei conta de que, como por violentos abalos provenientes de profundezas inacessíveis, estava desmoronando rapidamente ao meu redor tudo o que até pouco tempo atrás eu considerara uma condição de vida e de trabalho já conquistada. Lia apenas para manter os olhos fixos num livro ou revista, mas era como se eu parasse nos caracteres e não tivesse mais acesso aos significados. Duas ou três vezes topei por acaso com artigos de Nino, mas o fato de lê-los não me deu o prazer habitual de imaginá-lo, de ouvir sua voz, de usufruir seus pensamentos. Fiquei contente por ele, claro: se escrevia, isso queria dizer que estava bem, vivia a vida dele quem sabe onde, quem sabe com quem. Mas eu olhava a assinatura, lia poucas linhas e me retraía, sempre como se cada frase dele, preto no branco, tornasse minha situação ainda mais insuportável. Não tinha mais curiosidade, não conseguia me cuidar nem mesmo no aspecto. De resto, me cuidar para quê? Não encontrava ninguém, somente Pietro, que me tratava com uma gentileza convencional, mas eu percebia que, para ele, eu era uma sombra. Às vezes tinha a impressão de pensar com a cabeça dele e quase sentia seu descontentamento. O casamento só tinha complicado sua existência de estudioso, e isso justamente quando sua fama estava crescendo, especialmente na Inglaterra e nos Estados Unidos. Eu o admirava, mas ao mesmo tempo me ressentia. E conversava com ele sempre com uma mistura de rancor e subalternidade.

Um dia eu impus a mim mesma: chega, esqueça o Unità, já é muito se eu conseguir achar o caminho certo para um novo livro; assim que ele estiver pronto, tudo vai se arranjar. Mas que livro? Eu garantia à minha sogra, à editora, que já estava num bom ponto, mas era mentira; e eu mentia em cada ocasião com tons cordialíssimos. Na verdade, eu só tinha cadernos cheios de apontamentos frouxos, nada mais. Quando resolvia abri-los — de noite ou de dia, a depender dos ritmos que Dede me impunha —, dormia em cima deles sem nem perceber. Num final de tarde, Pietro voltou da universidade e me encontrou em um estado pior do que aquele em que o flagrara tempos atrás: eu estava na cozinha, mergulhada no sono, a cabeça apoiada na mesa; a menina não tinha comido nada e gritava no quarto. O pai a encontrou no berço, seminua, esquecida. Quando Dede se acalmou, agarrando-se vorazmente à mamadeira, Pietro disse desolado:

“Será que você não teria ninguém que pudesse ajudar?”

“Nesta cidade, não, e você sabe muito bem.”

“Traga sua mãe para cá, sua irmã.”

“Não quero.”

“Então peça àquela sua amiga de Nápoles: você fez tudo por ela, e ela vai fazer o mesmo por você.”

Senti um calafrio. Percebi com clareza, por uma fração de segundo, que uma parte de mim tinha certeza de que Lila já estava em casa, presente: se antes ela ficava à espreita dentro de mim, agora se infiltrava por dentro de Dede, os olhos semicerrados, o cenho franzido. Sacudi a cabeça com energia. Era preciso espantar aquelas imagens, aquela possibilidade: de que eu estava me aproximando?

Pietro se conformou e telefonou para a mãe. Perguntou a ela, muito a contragosto, se poderia passar um tempo com a gente.

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