História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 20 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 19

Não consegui mais dormir. Aos nervos tensos, aos pensamentos contraditórios, veio juntar-se Mirko, que voltara a chorar. Lembrei a forte emoção que experimentei quando carreguei o menino em meus braços, como ele não se acalmava, e não consegui me controlar. Levantei, segui o rastro sonoro do choro e cheguei a uma porta da qual filtrava uma luz. Bati, Silvia respondeu áspera. O quarto era mais aconchegante que o meu, tinha um velho armário, uma cômoda, uma cama de casal onde a jovem estava sentada com um baby-doll rosa, de pernas cruzadas, uma expressão ruim. Os braços abandonados, o dorso de ambas as mãos sobre o lençol, tinha sobre as coxas nuas, como uma oferenda votiva, Mirko igualmente nu, arroxeado, a abertura negra da boca escancarada, os olhinhos apertados, os membros agitados. De início me acolheu com hostilidade, depois abrandou. Disse que se sentia uma mãe incapaz, que não sabia o que fazer, que estava desesperada. Por fim murmurou: quando não está comendo, faz sempre assim, talvez esteja mal, vai morrer aqui nesta cama — e, enquanto me falava, pareceu-me muitíssimo distante de Lila, feia, deformada por expressões nervosas da boca, olhos excessivamente arregalados. Até que desandou a chorar.

O choro de mãe e filho me enterneceu, gostaria de ter abraçado ambos, apertá-los, niná-los. Sussurrei: posso segurá-lo um pouco? Ela fez sinal que sim, entre soluços. Então tirei o menino de seus joelhos, aconcheguei-o em meu peito e tornei a sentir o eflúvio de cheiros, sons e mornidão, como se suas energias vitais estivessem se apressando a retornar para mim com alegria, depois da separação. Caminhei para frente e para trás pelo quarto, murmurando uma espécie de litania assintática que inventei no momento, uma longa e insensata declaração de amor. Milagrosamente Mirko se acalmou e adormeceu. Coloquei-o devagar ao lado da mãe, mas sem nenhuma vontade de me separar dele. Temia voltar para meu quarto, uma parte de mim tinha certeza de que encontraria Juan lá e queria permanecer ali.

Silvia me agradeceu sem gratidão, um obrigada ao qual acrescentou uma fria lista de meus méritos: você é inteligente, sabe tudo, sabe se fazer respeitar, é uma mãe de verdade, sorte de seus futuros filhos. Me esquivei, estou indo, disse. Mas ela teve um impulso de ansiedade, pegou minha mão, me pediu que ficasse: ele está ouvindo sua voz, disse, faça isso por ele, vai dormir tranquilo. Aceitei imediatamente. Deitamos na cama com o menino no meio, apagamos a luz. Mas não dormimos, começamos a falar de nós.

No escuro Silvia se tornou menos hostil. Falou-me da repulsa que sentiu quando soube que estava grávida. Tinha escondido a gravidez do homem que amava e até de si mesma, tinha se convencido de que passaria como uma doença que deve cumprir seu percurso. No entanto o corpo reagia, se deformava. Silvia precisava comunicar a seus pais, profissionais muito abastados de Monza. Houve um pandemônio, e ela foi embora de casa. Mas, em vez de admitir que deixara os meses passar à espera de um milagre, em vez de confessar a si mesma que nunca levara em consideração o aborto apenas por medo físico, passou a afirmar que queria a criança por amor ao homem que a engravidara. Ele lhe dissera: se você quiser, pelo amor que sinto por você, eu também quero. Amor dela, amor dele: naquele momento, ambos falavam a sério. Mas depois de alguns meses, antes mesmo que a gravidez chegasse a seu termo, o amor já havia abandonado os dois, e Silvia insistiu várias vezes naquele ponto, com sofrimento. Não restara nada, só ressentimento. Então ela se viu sozinha e, se até aquele momento tinha conseguido se virar, o mérito era de Mariarosa, que ela elogiou muito, falando dela com grande enlevo, uma professora excelente e de fato solidária com os estudantes, uma companheira inestimável.

Disse-lhe que toda a família Airota era admirável, que eu estava noiva de Pietro, que nos casaríamos no outono. Ela replicou imediatamente: o casamento me causa horror, e a família também — tudo coisa velha. Depois passou de repente a um tom melancólico.

“O pai de Mirko também trabalha na universidade.”

“É?”

“Tudo começou porque fiz o curso dele. Era tão seguro de si, muito preparado, muito inteligente, lindo. Tinha todas as qualidades. E, já antes que as lutas começassem, ele dizia: reeduquem seus professores, não se deixem tratar como animais.”

“Ele ajuda um pouco com o menino?”

Riu no escuro e murmurou, áspera:

“Um homem, exceto nos momentos de loucura, em que você está apaixonada e ele te penetra, fica sempre de fora. Por isso, mais tarde, quando você deixa de amá-lo, só de pensar que você já gostou dele lhe dá rancor. Ele gostou de mim, eu gostei dele, fim. Quanto a mim, várias vezes ao dia me acontece de gostar de alguém. Você não? Durante pouco tempo, depois passa. Só o menino fica, é uma parte de você; já o pai era um estranho e volta a ser um estranho. Nem mesmo o nome tem mais o som de antigamente. Nino, eu dizia, e só fazia repeti-lo mentalmente assim que acordava, era uma palavra mágica. Agora, no entanto, é um som que me traz tristeza.”

Não falei nada por um instante e por fim sussurrei:

“O pai de Mirko se chama Nino?”

“Sim, é conhecido de todos, é muito conhecido na universidade.”

“Nino de quê?”

“Nino Sarratore.”

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