História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 13 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 12

 

Esses episódios, um após o outro, me fizeram suspeitar de que o livro estivesse vendendo porque tanto as críticas positivas quanto as negativas assinalavam a presença de páginas escabrosas. Cheguei até a pensar que Nino tivesse feito referência à sexualidade de Lila só porque acreditara que, com alguém que escrevia daquele jeito, fosse possível entrar naqueles assuntos sem problema. E por esse caminho me voltou o desejo de reencontrar minha amiga. Quem sabe — disse a mim mesma — se Lila foi atrás do livro assim como Carmen? Imaginei-a de noite, depois da fábrica — Enzo sozinho em um quarto, ela com o menino ao lado em outro —, exausta e mesmo assim atenta a ler meu livro, a boca semicerrada, o cenho franzido como fazia quando se concentrava. Como o avaliaria? Ela também reduziria o romance às páginas ousadas? Mas talvez não estivesse lendo nada, duvidava que tivesse dinheiro para comprar um exemplar, eu precisaria levar uma cópia de presente para ela. A princípio me pareceu uma boa ideia, depois deixei pra lá. Continuava dando mais importância a Lila do que a qualquer outra pessoa, mas não tive coragem de me decidir a procurá-la. Não tinha tempo, precisava estudar e aprender muitas coisas depressa. Além disso, o desfecho de nosso último encontro — ela com o avental sobre o capote, no pátio da fábrica, em frente à fogueira onde as folhas da Fada azul queimavam — tinha sido um adeus definitivo aos resíduos da infância, a confirmação de que nossos percursos agora divergiam, talvez ela me dissesse: não tenho tempo de ler seu livro, não vê a vida que levo? E segui em frente pelo meu caminho.

Enquanto isso, sabe-se lá por que motivo, o livro ia indo de vento em popa. Uma vez Adele me ligou e, com sua mistura habitual de ironia e afeto, me disse: se continuar assim, vai ficar rica em pouco tempo e sem saber o que fazer com o pobre Pietro. Depois passou a ligação a ninguém menos que seu marido. Guido — disse — quer falar com você. Fiquei agitada, minhas conversas com o professor Airota tinham sido pouquíssimas e eu me sentia constrangida. Mas o pai de Pietro foi muito cordial, cumprimentou-me pelo meu sucesso, ironizou as manifestações de pudor por parte de meus detratores, falou sobre a longuíssima Idade Média italiana, elogiou-me pela contribuição que eu estava dando à modernização do país e assim por diante. Não falou nada de específico sobre o romance, certamente não o tinha lido, era um homem muito ocupado. De todo modo foi bom receber dele um sinal de estima e de concordância.

Mariarosa não se mostrou menos afetuosa, e também me fez elogios. De início pareceu na iminência de comentar longamente meu livro, depois mudou de assunto de modo acalorado, e disse que queria me convidar para a Estatal de Milão: achava importante que eu também participasse do que definiu como a marcha irrefreável dos acontecimentos. Venha amanhã mesmo, me disse, viu o que está acontecendo na França? Eu sabia de tudo, vivia grudada a um velho radinho azul de pilha, todo manchado de gordura, que minha mãe deixava na cozinha, e respondi sim, é magnífico, Nanterre, as barricadas no Quartier Latin. Mas ela me pareceu bem mais informada, bem mais envolvida. Planejava ir a Paris com outros companheiros, me convidou a ir com ela de carro. Fiquei tentada a viajar. Respondi tudo bem, vou pensar. Ir até Milão, atravessar a França, chegar a Paris em revolta, enfrentar a brutalidade da polícia, atirar-me com minha experiência pessoal no magma mais incandescente daqueles meses, dar seguimento àquela viagem para fora da Itália que eu tinha feito anos antes com Franco. Como seria bom pegar a estrada com Mariarosa, a única jovem independente que eu conhecia, tão moderna, totalmente engajada nos acontecimentos do mundo, senhora do discurso político quase como os homens. Eu a admirava, não havia jovens que alcançassem a fama com aquele jeito de lançar tudo pelos ares. Os jovens heróis que ousavam enfrentar, correndo risco e perigo, a violência da reação se chamavam Rudi Dutschke, Daniel Cohn-Bendit e, como nos filmes de guerra, em que só havia homens, era difícil nos reconhecer neles, podíamos apenas admirá-los, ajustar nossas ideias a seus pensamentos, sofrer pela sorte deles. Ocorreu-me que, entre os companheiros de Mariarosa, quem sabe também estivesse Nino. Eles se conheciam, era provável. Ah, encontrá-lo, ser arrastada por aquela aventura, expor-me aos perigos ao lado dele. O dia passou assim. A cozinha agora estava silenciosa, meus pais dormiam, meus irmãos ainda vagabundeavam pelas ruas, Elisa se lavava trancada no banheiro. Partir, amanhã de manhã.

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