História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 97 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 96

 

Falou assim e depois me disse umas coisas desencontradas. Parabéns, você tem um marido bonito e inteligente, ele fala como se fosse um religioso mesmo sendo ateu, conhece tudo da antiguidade e também de hoje, sabe especialmente um monte de coisas sobre Nápoles, fiquei envergonhada, sou napolitana, mas não sei nada. Gennaro está crescendo, minha mãe cuida mais dele do que eu, vai muito bem na escola. Com Enzo está tudo bem, trabalhamos muito, nos vemos pouco. Já Stefano se arruinou com as próprias mãos: a polícia encontrou no fundo da loja produtos roubados, não sei bem o quê, e acabou sendo preso; agora está em liberdade, mas precisa tomar cuidado, perdeu tudo o que tinha, sou eu que lhe dou dinheiro, não ele a mim. Veja só como as coisas mudam: se eu continuasse sendo a senhora Carracci, estava acabada, de bunda no chão que nem todos os Carracci; mas me chamo Raffaella Cerullo e sou a chefe de informática de Michele Solara por quatrocentas e vinte mil liras ao mês. O resultado é que minha mãe me trata como uma rainha, meu pai me perdoou tudo, meu irmão chupa meu dinheiro, Pinuccia diz que me adora, os filhos dela me chamam de titia. Mas é um trabalho tedioso, o oposto do que me parecia no início: ainda lento demais, perde-se um tempo enorme, tomara que cheguem logo as novas máquinas, que vão ser bem mais rápidas. Ou não. A velocidade come tudo, como quando as fotografias saem tremidas. Foi Alfonso quem usou essa expressão, de brincadeira, disse que saiu mexido, sem contornos muito claros. Nos últimos tempos me fala sempre com amizade. Faz questão de ser meu amigo, queria me copiar como um papel carbono, jura que gostaria de ser uma mulher que nem eu. Que mulher — disse a ele —, você é homem, Alfò, não sabe nada de como eu sou e, mesmo sendo amigos, mesmo você me estudando, analisando e copiando, nunca vai saber nada. Então — ele brincou — como é que eu vou fazer? Eu sofro do jeito que sou. E me confessou que gosta de Michele desde sempre — Michele Solara, sim — e que desejaria atraí-lo assim como, segundo ele, eu o atraio. Você entende, Lenu, o que acontece com as pessoas: a gente tem coisa demais por dentro, e isso nos incha, nos arrebenta. Tudo bem — disse a ele —, vamos ser amigos, mas tire da cabeça esse negócio de ser uma mulher como eu, você só conseguiria ser uma mulher segundo o que vocês, homens, pensam. Pode me copiar, fazer meu retrato exato como os artistas fazem, mas minha merda vai continuar sempre minha, e a sua, sua. Ah, Lenu, o que é que acontece com a gente, somos como o encanamento quando a água congela, que coisa horrível é uma cabeça descontente. Você se lembra do que fizemos com minha foto de noiva? Quero seguir por esse caminho. Um dia vou me reduzir inteira a diagramas, vou me transformar numa fita cheia de furos e você não vai me encontrar nunca mais.

Risadinhas, e só. Aquela conversa no corredor me confirmou que nossa relação já não gozava de intimidade. Reduzira-se a notícias sucintas, escassos detalhes, piadas maldosas, palavras em liberdade, nenhum desvelamento de fatos e pensamentos confiados exclusivamente a mim. A vida de Lila agora era só dela, parecia não querer compartilhá-la com ninguém. Inútil insistir com perguntas do tipo: o que é que você sabe de Pasquale, onde ele foi parar, você tem algo a ver com a morte de Soccavo, com os tiros nas pernas de Filippo, o que a levou a aceitar a proposta de Michele, o que pretende fazer da dependência dele por você? Lila se retraíra no inconfessável, qualquer curiosidade minha não podia mais ser expressa, ela me teria respondido: o que é que você tem na cabeça, ficou louca, Michele, dependência, Soccavo, o que é isso? Ainda hoje, enquanto escrevo, me dou conta de que não disponho de elementos suficientes para passar a Lila foi, Lila fez, Lila encontrou, Lila planejou. No entanto, enquanto voltava de carro para Florença, tive a impressão de que ali no bairro, entre o atraso e a modernidade, ela tivesse mais história que eu. Quanta coisa eu perdera ao ir embora, acreditando estar destinada a quem sabe que vida. Lila, que continuara ali, tinha um trabalho novíssimo, ganhava muito, agia com absoluta liberdade e segundo desígnios que pareciam indecifráveis. Era muito ligada ao filho, dedicara-se muitíssimo a ele nos primeiros anos de vida, e ainda o acompanhava; mas parecia capaz de livrar-se dele como e quando quisesse, ele não lhe causava aquela ansiedade que minhas filhas me davam. Tinha rompido com a família de origem, e mesmo assim assumia o peso e a responsabilidade por ela sempre que podia. Cuidava de Stefano caído em desgraça, mas sem nenhuma aproximação. Detestava os Solara, e no entanto se dobrava a eles. Ironizava Alfonso e era sua amiga. Dizia não querer reencontrar Nino, mas eu sabia que não era assim, que acabaria o reencontrando. A vida dela era agitada, a minha era imóvel. Enquanto Pietro guiava em silêncio e as meninas brigavam entre si, pensei muito nela e em Nino, no que poderia ocorrer. Lila vai reconquistá-lo — fantasiei —, vai achar um modo de reencontrá-lo, vai submetê-lo como só ela sabe fazer, o afastará da mulher e do filho, o usará em sua guerra já nem sei contra quem, o induzirá ao divórcio e, ao mesmo tempo, escapará de Michele depois de lhe ter tomado muito dinheiro, vai deixar Enzo e finalmente se divorciará de Stefano, e talvez se case com Nino ou não, mas com certeza os dois vão somar suas inteligências e quem sabe em que vão se transformar.

Transformar. Esse era um verbo que sempre me obcecara, mas me dei conta disso pela primeira vez somente naquela ocasião. Eu queria me transformar, embora nunca tenha sabido em quê. E tinha me transformado, isso era certo, mas sem um objeto, sem uma verdadeira paixão, sem uma ambição determinada. Tinha querido me transformar em algo — aí está o ponto — só porque temia que Lila se transformasse em sabe-se lá quem, e eu ficasse para trás. Minha transformação era uma transformação dentro de seu rastro. Precisava recomeçar a me transformar, mas para mim, como adulta, fora dela.

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