História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 50 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 49

O telefonema a Pietro e sobretudo à minha sogra liberaram um sentimento que até então eu mantivera sob controle, ou melhor, reprimira, mas que estava vivo e pronto a ganhar terreno. Tinha a ver com minha mudança de estado. Era provável que os Airota, especialmente Guido, mas talvez também a própria Adele, me considerassem uma garota que, embora muito voluntariosa, estava bem distante da pessoa que teriam esperado para o filho. Era igualmente provável que minha origem, minha cadência dialetal, minha deselegância em tudo, pusessem a dura prova sua largueza de visões. Com certo exagero, eu poderia até supor que a publicação de meu livro fosse parte de um plano de emergência destinado a me tornar apresentável ao mundo deles. Mas não havia nenhuma dúvida de que eles tinham me aceitado, que eu estava prestes a me casar com Pietro com o consentimento deles, que estava a ponto de entrar numa família protetora, uma espécie de castelo bem fortificado de onde eu poderia avançar sem medo, ou para onde poderia recuar caso me sentisse em perigo. Portanto eu devia me habituar àquele novo meio com urgência e, acima de tudo, devia ter consciência disso. Não era mais uma pequena vendedora de fósforos sempre à beira do último palito, agora eu contava com uma boa provisão de fósforos. E por isso — compreendi de repente — podia fazer por Lila muito mais do que tinha calculado fazer.

Foi com essa perspectiva que pedi a minha amiga que me passasse a documentação que ela recolhera contra Soccavo, e ela obedeceu passivamente, sem nem sequer perguntar o que eu pretendia fazer com aquilo. Comecei a ler o material com crescente envolvimento. Quantas coisas terríveis ela conseguira dizer com precisão e eficácia. Quantas experiências insuportáveis percebiam-se por trás da descrição da fábrica. Virei as páginas entre as mãos por muito tempo; depois, de repente, quase sem me dar conta, procurei na lista telefônica e liguei para a Soccavo. Dei o tom certo à minha voz, disse com correta altivez: alô, aqui é Elena Greco — e me passaram para Bruno. Ele foi cordial — que prazer ouvi-la —, eu, fria. Ele disse: quanta coisa boa você fez, Elena, vi sua foto no Roma, excelente, que bons tempos os de Ischia. Respondi que também estava contente de ouvi-lo, mas que Ischia estava muito longe, que bem ou mal todos tínhamos mudado, que sobre ele, por exemplo, eu ouvira tristes relatos que esperava não fossem verdadeiros. Entendeu num instante e logo reagiu. Falou malíssimo de Lila, de sua ingratidão, dos problemas que lhe causara. Mudei de tom, respondi que acreditava mais em Lila do que nele. Pegue caneta e papel — falei —, anote meu número, feito? Agora ordene que paguem a ela o que deve até o último centavo, e me avise quando posso passar para retirar o dinheiro: não queria que sua foto também aparecesse nos jornais.

Desliguei antes que ele retrucasse, senti orgulho de mim. Não tinha demonstrado a mínima emoção, tinha sido seca, poucas frases em italiano, de início gentis, depois distantes. Esperava que Pietro tivesse razão: estava de fato assimilando o tom de Adele, estava aprendendo sem perceber seu modo de estar no mundo? Resolvi checar se eu seria capaz — querendo — de dar seguimento à ameaça com que tinha encerrado o telefonema. Mais agitada do que quando liguei para Bruno — afinal era o mesmo jovem aborrecido que tentara me beijar na praia de Citara —, disquei o número da redação do Unità. Enquanto o telefone chamava, esperei que não se ouvisse ao fundo a voz de minha mãe gritando algo a Elisa em dialeto. Aqui é Elena Greco, disse à telefonista, e mal tive tempo de explicar o que eu queria quando a mulher exclamou: Elena Greco, a escritora? Tinha lido meu livro, me fez muitos elogios. Agradeci, me senti alegre, forte, expliquei sem necessidade que tinha em mente um artigo sobre uma fabriqueta da periferia e mencionei o nome do redator que Adele me aconselhara. A telefonista me cumprimentou mais uma vez e então assumiu um tom profissional. Aguarde na linha, me disse. Um minuto depois uma voz masculina muito rouca me indagou em tom provocador desde quando os cultores das belas letras estavam dispostos a sujar sua pena com trabalhos por empreitada, turnos e horas extras, coisas chatíssimas, evitadas especialmente por jovens romancistas de sucesso.

“De que se trata?”, perguntou. “Construção civil, portos, mineradoras?”

“É uma fabriqueta de embutidos”, murmurei, “nada demais.”

O homem continuou me provocando:

“Não precisa se desculpar, está ótimo. Se Elena Greco, a quem este jornal dedicou nada menos que meia página de elogios efusivos, resolve escrever sobre linguiças, nós, pobres redatores, podemos dizer que não nos interessa? Trinta linhas são suficientes para você? São poucas? Então sejamos mais generosos, sessenta. Quando estiver pronto, o que pretende fazer: me traz pessoalmente ou prefere ditar o texto?”

Comecei a escrever o artigo imediatamente. Precisava espremer das páginas de Lila as minhas sessenta linhas e, por amor a ela, queria fazer um bom trabalho. Mas não tinha nenhuma experiência em relatos jornalísticos, exceto a vez em que, aos quinze anos, com péssimos resultados, tentara escrever sobre o conflito com o professor de religião para a revista de Nino. Não sei, talvez tenha sido essa lembrança que me complicou as coisas. Ou talvez o sarcasmo do redator, que me ficara nos ouvidos, especialmente quando ao final da ligação me pediu que eu cumprimentasse minha sogra. O certo é que demorei muito tempo, escrevi e reescrevi ferozmente. Porém, quando tive a impressão de ter terminado, não me senti satisfeita e não o levei ao jornal. Antes preciso falar com Lila, pensei, é algo que devemos decidir juntas, amanhã entrego.

No dia seguinte fui ver Lila, que me pareceu particularmente mal. Balbuciou que, quando eu não estava, certas presenças se aproveitavam disso e saíam das coisas para molestar a ela e Gennaro. Depois notou que eu estava alarmada e fez um ar brincalhão, murmurou que eram bobagens, só queria que eu passasse mais tempo com ela. Conversamos muito, tentei acalmá-la, mas não lhe mostrei o artigo. O que me fez desistir foi a ideia de que, se o Unità recusasse o texto, eu seria forçada a dizer a ela que não o tinham achado bom e me sentiria humilhada. Foi preciso que, à noite, um telefonema de Adele inoculasse em mim uma boa dose de otimismo para que eu me decidisse. Ela se aconselhara com o marido e até com Mariarosa. Em poucas horas tinha acionado meio mundo: medalhões da medicina, professores socialistas especializados em sindicatos, um democrata-cristão que ela definiu como simplório, mas boa pessoa e muito experiente em direito trabalhista. O resultado era que eu tinha um encontro no dia seguinte com o melhor cardiologista de Nápoles — um amigo de amigos, não precisava pagar nada —, que a inspetoria do trabalho faria imediatamente uma visita à Soccavo, que para recuperar o dinheiro de Lila eu podia procurar aquele amigo de Mariarosa que Pietro mencionara, um jovem advogado socialista que tinha escritório na piazza Nicola Amore e já tinha sido informado.

“Está contente?”

“Estou.”

“Escreveu o artigo?”

“Escrevi.”

“Está vendo? Eu tinha certeza de que você não o faria.”

“No entanto está pronto, amanhã vou levá-lo ao Unità.”

“Muito bem. Corro o risco de subestimá-la.”

“É um risco?”

“A subestimação sempre é. Como vão as coisas com a pobre criatura do meu filho?”

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