História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 111 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 110

As meninas dormiram na frente da televisão, e as levei para a cama. Quando voltei, Nino não estava mais lá, tinha se fechado em seu quarto. Deprimida, tirei a mesa, lavei os pratos. Que tolice pedir que ficasse mais um pouco, era melhor que partisse. Por outro lado, como suportar a esqualidez sem ele? Queria que fosse embora pelo menos com a promessa de que mais cedo ou mais tarde voltaria. Desejava que dormisse de novo em minha casa, que tomássemos café da manhã juntos e, à noite, jantássemos na mesma mesa, que falasse disso e daquilo com seu tom divertido, que me ouvisse quando eu quisesse dar forma a uma ideia, que fosse sempre respeitoso diante de cada frase minha, que nunca recorresse à ironia e ao sarcasmo comigo. Entretanto tive de admitir que, se a situação se deteriorara rapidamente, tornando a convivência impossível, a culpa era dele. Pietro se afeiçoara a ele. Tinha prazer em vê-lo por perto, prezava a amizade que surgira entre os dois. Por que Nino sentiu a necessidade de machucá-lo, de humilhá-lo, de lhe retirar autoridade? Tirei a maquiagem, me lavei, pus a camisola. Fechei a porta de casa com chave e corrente, desliguei o gás, baixei todas as persianas, apaguei as luzes. Passei para ver como as meninas estavam. Torci para que Pietro não estivesse fingindo que dormia, que não estivesse me esperando para brigar. Dei uma olhada em sua mesinha de cabeceira, ele tinha tomado o tranquilizante, estava apagado. Senti ternura por ele, beijei seu rosto. Que pessoa imprevisível: inteligentíssimo e estúpido, sensível e obtuso, corajoso e vil, cultíssimo e ignorante, bem-educado e rude. Um Airota que não deu certo, que tropeçara no meio do caminho. Nino, tão seguro de si, tão determinado, teria sido capaz de recolocá-lo em movimento, de ajudá-lo a melhorar? Tornei a me perguntar por que aquela amizade nascente havia se transformado em hostilidade de mão única. E dessa vez tive a impressão de entender. Nino quis me ajudar a ver meu marido tal como ele realmente era. Estava convencido de que eu tinha uma visão idealizada dele, à qual me submetera tanto no plano sentimental quanto no intelectual. Tinha desejado me revelar a inconsistência que havia por trás do jovem titular de cátedra, autor de uma tese que depois se tornara um livro apreciadíssimo, o estudioso que há tempos trabalhava numa nova publicação que deveria consolidar seu prestígio. Era como se naqueles últimos dias não tivesse feito outra coisa senão me gritar: você vive com um homem banal, teve duas filhas com uma nulidade. Seu plano era desvalorizá-lo para me libertar, restituir-me a mim mesma e demoli-lo. Porém, ao fazer isso, se dava conta de que se propunha a mim — querendo ou não — como um modelo alternativo de virilidade?

Aquela pergunta me deixou com raiva. Nino tinha sido imprudente. Tinha provocado desordem numa situação que, para mim, constituía o único equilíbrio possível. Por que causar confusão sem sequer me consultar? Quem lhe havia pedido que me abrisse os olhos, que me salvasse? Com base em que havia deduzido que eu precisava disso? Pensou que podia fazer o que bem quisesse com minha vida de casada, com minha responsabilidade de mãe? Com que propósito? Onde achava que isso ia parar? É ele — disse a mim mesma — quem precisa clarear as ideias. Não tem interesse por nossa amizade? As férias estão próximas. Eu vou para Viareggio, ele disse que vai para a casa dos sogros em Capri. Precisamos esperar o final das férias para nos encontrarmos? E por quê? Já agora, durante o verão, seria possível consolidar a relação entre nossas famílias. Eu poderia ligar para Eleonora, convidá-la com o marido e o filho a passar uns dias com a gente em Viareggio. E gostaria também de ser convidada a Capri, onde nunca estive, com Dede, Elsa e Pietro. Mas, se nem mesmo isso acontecer, por que não nos escrevemos, trocamos ideias, indicações de livros, falamos de nossos projetos de trabalho?

Não consegui me acalmar. Nino havia errado. Se de fato tinha consideração por mim, era preciso que reconduzisse tudo ao ponto de partida. Ele devia reconquistar a simpatia e a amizade de Pietro, meu marido não esperava outra coisa. Realmente supunha me fazer bem provocando aquelas tensões? Não, não, eu tinha de falar com ele, dizer que era uma tolice tratar Pietro daquela maneira. Levantei-me da cama com cautela, saí do quarto. Atravessei o corredor de pés descalços, bati na porta de Nino. Esperei um instante, entrei. O quarto estava escuro.

“Você se decidiu”, escutei sua voz.

Estremeci, não me perguntei se decidiu a quê. Soube apenas que ele tinha razão, eu estava decidida. Tirei depressa a camisola e me deitei ao lado dele, apesar do calor.

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