História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 74 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 73

O momento finalmente me pareceu propício, fazia muito tempo que não reencontrávamos a antiga sintonia. Só que dessa vez a sintonia de fato se limitava a um enlace de tons vibrantes através dos fios telefônicos. Não nos víamos há séculos. Ela não conhecia meu aspecto depois das duas gestações, eu não sabia se ela permanecera pálida, magérrima, ou se tinha mudado. Há alguns anos eu vinha falando a uma imagem mental que a voz exumava preguiçosamente. Talvez por isso, repentinamente, o assassinato de dom Achille me parecera sobretudo uma invenção, o núcleo de um possível romance. E assim que terminei a ligação tentei pôr uma ordem em nossa conversa, reconstruindo as passagens a que Lila me conduzira, fundindo passado e presente, do assassinato do pobre Dario ao do agiota, até Manuela Solara. Foi difícil pegar no sono, fiquei remoendo aquilo demoradamente. Senti com nitidez cada vez maior que aquele material podia ser como uma margem da qual me lançar para capturar uma história. Nos dias seguintes misturei Florença e Nápoles, os tumultos do presente com as vozes distantes, o conforto de agora e o esforço que tinha feito para romper com minhas raízes, o terror de perder tudo e o fascínio da regressão. De tanto pensar no assunto, me convenci de que poderia tirar um livro dali. Com dificuldade, entre ruminações contínuas e dolorosas, enchi um caderno quadriculado construindo uma trama de violências que amarrava os últimos vinte anos. Lila às vezes telefonava e perguntava:

“Por que é que você não tem ligado? Está tudo bem?”

“Tudo ótimo, estou escrevendo.”

“E quando você escreve eu deixo de existir?”

“Existe, mas eu me distraio.”

“E se eu estiver mal, se precisar de você?”

“Telefone.”

“E se eu não telefonar? Você fica dentro de seu romance?”

“Sim.”

“Que inveja, sorte sua.”

Trabalhei com crescente ansiedade, temendo não conseguir terminar a história antes do parto, imaginando que morreria ao dar à luz e deixaria o livro inacabado. Foi difícil, nada a ver com a feliz inconsciência com que rabiscara meu primeiro romance. Uma vez esboçada a história, me empenhei em dar ao texto um andamento mais meditado. Queria uma escrita movimentada, nova, estudadamente caótica, e não me poupei. Então trabalhei numa segunda redação, cavilosa. Voltei a fazer e refazer cada linha mesmo quando, graças a uma Lettera 32 que eu comprara no período em que estava esperando Dede, graças ao papel carbono, transformei os cadernos num datiloscrito substancioso, em cópia tríplice, quase duzentas páginas, sem um erro de digitação.

Era verão, fazia muito calor, eu estava com uma barriga enorme. Há algum tempo tinha reaparecido aquela dor no glúteo, ia e vinha, e os passos de minha mãe pelo corredor me davam nos nervos. Fixei as folhas, descobri que estava com medo. Durante dias não consegui me decidir, a ideia de dá-lo a Pietro para que o lesse me agitava. Talvez, pensei, devesse mandar o livro diretamente a Adele, ele não é adequado para esse tipo de história. Além disso, com a teimosia de sempre, Pietro continuava complicando a vida na faculdade, voltava para casa nervosíssimo, me fazia discursos abstratos sobre o valor da legalidade, enfim, não estava no clima favorável para ler um romance em que havia operários, patrões, lutas, sangue, camorristas e agiotas. De resto, era o meu romance. Ele me mantém distante de seus conflitos internos, não se interessou pelo que eu era e pelo que me tornei, qual o sentido de lhe dar o texto? Vai se limitar a discutir sobre essa ou aquela escolha lexical, sobre a pontuação, e se eu insistir num parecer me dirá frases vagas. Enviei a Adele uma cópia do datiloscrito e telefonei para ela.

“Terminei.”

“Fico muito feliz. Vai mandar para mim?”

“Já mandei hoje de manhã.”

“Excelente, não vejo a hora de ler.”

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