História de quem foge e de quem fica
Capítulo 43
Ao amanhecer teve um sobressalto, seu corpo recordou a ela que precisava despertar. Num instante lhe chegaram os maus pensamentos, todos nitidíssimos: o coração doente, as regressões de Gennaro, os fascistas do bairro, o pedantismo de Nadia, a inconfiabilidade de Pasquale, a lista das reivindicações. Somente depois se deu conta de que havia dormido com Enzo, mas que ele já não estava na cama. Levantou-se depressa, justo a tempo de ouvir a porta de casa se fechando. Será que ele se levantara assim que ela tinha pegado no sono? Ficara acordado a noite toda? Tinha dormido no outro quarto com o menino? Ou adormecera com ela, esquecendo-se de todo desejo? Com certeza tinha tomado café sozinho após deixar a mesa posta para ela e Gennaro. Foi embora trabalhar, sem palavras, os pensamentos na cabeça.
Depois de ter entregue o filho à vizinha, Lila também correu para a fábrica.
“Então, já se decidiu?”, perguntou Edo um tanto mal-humorado.
“Me decido quando quiser”, respondeu Lila, voltando ao velho tom.
“Somos uma comissão, você precisa nos informar.”
“Vocês já fizeram a lista circular?”
“Já.”
“E o que os outros estão dizendo?”
“Quem cala consente.”
“Não”, disse ela, “quem cala se caga nas calças.”
Capone tinha razão, Nadia e Armando, também. Era uma iniciativa frágil, uma forçação. Lila trabalhou no corte da carne com afinco, tinha vontade de machucar e se machucar. Meter a faca na mão, fazê-la escapar, agora, da carne morta para a carne dela, viva. Urrar, arremessar-se contra os outros, fazer com que todos pagassem por sua incapacidade de achar um equilíbrio. Ah, Lina Cerullo, você é incorrigível. Por que preparou aquela lista? Não quer ser explorada? Quer melhorar sua condição e a desse pessoal? Está convencida de que você, eles, começarão a partir daqui, disto que vocês são agora, e depois se unirão à marcha vitoriosa do proletariado de todo o mundo? Que nada. Marcha para se tornar o quê? Ainda e sempre operários? Operários que labutam o dia inteiro, mas no poder? Cretinices. Cortina de fumaça para dourar a pílula do cansaço. Você bem sabe que é uma condição terrível, não deve ser melhorada, mas eliminada, você sabe desde pequenininha. Melhorar, melhorar-se? Você, por exemplo, melhorou por acaso, tornou-se alguém como Nadia ou Isabella? Seu irmão melhorou, tornou-se alguém como Armando? E seu filho, é como Marco? Não, nós continuamos nós, e ele, eles. Então por que você não se resigna? Culpa da cabeça que não sabe acalmar-se, procura continuamente uma maneira de funcionar. Desenhar sapatos. Batalhar para construir uma fábrica de calçados. Reescrever os artigos de Nino, não dar trégua a ele até que fizesse como você queria. Usar a seu modo as apostilas de Zurique, com Enzo. E agora demonstrar a Nadia que, se ela faz a revolução, você faz mais ainda. A cabeça, ah, sim, o mal está lá, é pela insatisfação da cabeça que o corpo está adoecendo. Estou cansada de mim, de tudo. Estou cansada até de Gennaro: o destino dele, se tiver sorte, é acabar num lugar como este, rastejando por cinco liras a mais diante de algum patrão. E aí? Aí, Cerullo, assuma suas responsabilidades e faça o que sempre teve em mente: assustar Soccavo, tirar dele o vício de comer as operárias dentro da maturação. Mostre o que você soube preparar ao estudante com cara de lobo. Naquele verão em Ischia. As bebidas, a casa de Forio, a cama luxuosa em que esteve com Nino. O dinheiro vinha deste lugar, deste mau cheiro, destes dias passados no asco, desta labuta paga com poucas liras. O que eu cortei aqui? Está saindo pra fora uma gosma amarelada, que nojo. O mundo gira, mas pelo menos, se cair, se quebra.
Logo após a pausa para o almoço se decidiu e disse a Edo: vou lá. Mas nem teve tempo de tirar o avental, foi a secretária do patrão que se apresentou na descarnagem para dizer:
“Doutor Soccavo quer lhe falar com urgência no escritório dele.”
Lila achou que algum espião já tivesse dito a Bruno o que vinha pela frente. Interrompeu o trabalho, pegou a folha de reivindicações no armário e subiu. Bateu na porta do escritório, entrou. No aposento não havia apenas Bruno. Sentado numa poltrona, cigarro na boca, encontrou Michele Solara.
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