História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 46 de 124

Páginas do PDF

História de quem foge e de quem fica

Capítulo 45

Quando voltou para baixo, palidíssima, Edo perguntou como tinha sido, mas Lila não respondeu, o afastou com a mão e foi se fechar no banheiro. Temia ser imediatamente reconvocada por Bruno, temia ser obrigada a um confronto na presença de Michele, temia a fragilidade incomum do corpo, não conseguia se habituar. Pelo basculante manteve o olho no pátio e deu um suspiro de alívio quando viu Michele, alto, o passo nervoso, a fronte com entradas, o belo rosto barbeado com cuidado, uma jaqueta de couro preto sobre calças escuras, chegar até seu carro e partir. Nessa altura voltou à descarnagem, e Edo lhe perguntou de novo:

“E então?”

“Foi. Mas a partir de agora vocês cuidam disso.”

“Em que sentido?”

Não pôde responder, a secretária de Bruno chegou ofegante, o patrão queria vê-la imediatamente. Seguiu como aquela santa que, mesmo tendo a cabeça ainda sobre o pescoço, a carrega nas mãos, como se já a tivessem cortado. Assim que a viu na sua frente, Bruno quase gritou:

“Querem que de manhã lhes sirva até o café na cama? O que é esta novidade aqui, Lina? Você se dá conta? Sente-se e explique. Nem posso acreditar.”

Lila explicou as reivindicações uma a uma, com o tom que usava com Gennaro quando ele não queria entender. Enfatizou que era conveniente a ele tomar aquela lista a sério e enfrentar os vários pontos com espírito construtivo, porque, se ele se comportasse de modo imponderado, logo a inspetoria do trabalho cairia em cima dele. Por fim perguntou em que tipo de problema se metera para cair nas mãos de gente perigosa como os Solara. Nesse instante Bruno perdeu totalmente a calma. Sua tez avermelhada ficou roxa, os olhos se injetaram, gritou que acabaria com ela, que bastaria dar poucas liras por fora aos quatro cretinos que lhe faziam oposição para arranjar tudo. Berrou que há anos seu pai dava regalias à inspetoria do trabalho, e imagine se ele ia ter medo de inspeções. Gritou que os Solara fariam que ela perdesse a vontade de bancar a sindicalista e concluiu com voz engasgada: pra fora, pra fora imediatamente, fora.

Lila andou até a porta. Somente na soleira lhe disse:

“É a última vez que você me vê: a partir deste momento paro de trabalhar aqui dentro.”

Diante dessas palavras, Soccavo voltou bruscamente a si. Fez uma careta alarmada, devia ter prometido a Michele que não a demitiria. Disse:

“Agora você se ofende? Agora banca a caprichosa? Deixe de bobagem, venha cá, vamos pensar juntos, sou eu quem decido se devo demiti-la ou não. Idiota, já disse, venha cá.”

Por uma fração de segundo, Ischia lhe voltou à mente de novo, as manhãs em que esperávamos que chegassem Nino e seu amigo rico, que tinha casa em Forio, o rapaz cheio de gentilezas e sempre paciente. Saiu e fechou a porta atrás de si. Logo em seguida sentiu um tremor violentíssimo, recobriu-se de suor. Não foi para a descarnagem, não se despediu de Edo e de Teresa, passou diante de Filippo, que a olhou com estranheza, gritando: Cerù, aonde você vai, volte aqui. Mas ela seguiu pela estrada de terra correndo, pegou o primeiro ônibus para a Marina, chegou ao mar. Perambulou muito. Havia um vento frio, subiu ao Vomero no funicular, passeou por piazza Vanvitelli, por via Scarlatti, por via Cimarosa, tomou de novo o funicular e tornou para baixo. Já tarde se deu conta de que se esquecera de Gennaro. Chegou em casa às nove, pediu a Enzo e a Pasquale — que lhe faziam perguntas ansiosas para entender o que havia ocorrido — que fossem me procurar no bairro.

E agora estou aqui, em plena noite, neste cômodo esquálido de San Giovanni a Teduccio. Gennaro dorme, Lila fala e fala em voz baixa, Enzo e Pasquale estão à espera na cozinha. Eu me sinto como o cavaleiro de um romance medieval que, fechado em sua armadura reluzente, depois de ter cumprido mil prodigiosas empresas a girar pelo mundo, topa com um pastor esfarrapado e desnutrido que, sem jamais ter se afastado do pasto, comanda e governa de mãos nuas feras horríveis com uma coragem portentosa.

OceanofPDF.com