História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 116 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 115

 

Minha volta foi muito comemorada por Elsa, que falou séria: papai não sabe brincar direito. Dede defendeu Pietro, exclamou que a irmã era pequena, idiota e estragava todas as brincadeiras. Pietro me examinou de mau humor.

“Você não dormiu.”

“Dormi mal.”

“Encontrou os livros?”

“Sim.”

“E onde eles estão?”

“Onde você queria que estivessem? Em casa. Chequei o que precisava checar e pronto.”

“Por que essa irritação?”

“Porque você me irrita.”

“Ligamos para você de novo, ontem à noite. Elsa queria lhe dizer boa noite, mas você não estava.”

“Estava calor, fui dar um passeio.”

“Sozinha?”

“E com quem?”

“Dede falou que você tem um namorado.”

“Dede tem uma forte ligação com você e morre de vontade de me substituir.”

“Ou então está vendo e ouvindo coisas que eu não vejo e não ouço.”

“O que você está querendo dizer?”

“Isso que eu disse.”

“Pietro, vamos tentar ser claros: entre suas tantas doenças, agora vamos ter de acrescentar o ciúme também?”

“Não sou ciumento.”

“Espero que sim. Porque do contrário já vou logo dizendo: o ciúme é demais, assim eu não aguento.”

Nos dias seguintes, as discussões como aquela se multiplicaram. Eu o mantinha sob controle, o recriminava e ao mesmo tempo me desprezava. Mas também sentia raiva: o que se pretendia de mim, o que eu devia fazer? Eu amava Nino, sempre o amei: como conseguiria arrancá-lo do peito, da cabeça, da barriga, agora que ele também me queria? Desde pequena eu me construíra como um perfeito mecanismo autorrepressivo. Nenhum de meus verdadeiros desejos havia prevalecido, sempre tinha achado um meio de canalizar qualquer aspiração. Agora chega, dizia a mim mesma, que tudo se exploda, eu em primeiro lugar.

No entanto oscilava. Por uns dias não telefonei a Nino, justo como sabiamente lhe havia anunciado em Florença. Mas depois, de uma hora para outra, comecei a ligar até três ou quatro vezes ao dia, sem nenhuma prudência. Estava me lixando até para Dede, parada a poucos passos da cabine telefônica. Discutia com ele no calor insuportável daquela gaiola ao sol e de vez em quando, molhada de suor, exasperada pelo olhar espião de minha filha, escancarava a porta de vidro e gritava: o que você está fazendo aí feito um poste, já lhe disse para ficar de olho em sua irmã. Meus pensamentos agora estavam concentrados no congresso de Montpellier. Nino me pressionava, fazia disso cada vez mais uma espécie de prova definitiva da autenticidade de meus sentimentos, de modo que passávamos de brigas violentas a declarações de afeto sem limites, de longas e caras discussões por interurbano à urgência de derramar num rio de palavras incandescentes nosso desejo. Numa tarde, extenuada, com Dede e Elsa resmungando do lado de fora da cabine mamãe, ande logo, a gente não aguenta mais, disse a ele:

“Só há uma maneira de ir com você a Montpellier.”

“Qual?”

“Contar tudo a Pietro.”

Houve um longo silêncio.

“Você está realmente pronta para fazer isso?”

“Sim, mas com uma condição: que você conte tudo a Eleonora.”

Outro longo silêncio. Nino murmurou:

“Quer que eu faça mal a Eleonora e ao menino?”

“Quero. Não vou fazer a Pietro e a minhas filhas? Tomar decisões significa fazer mal.”

“Albertino é muito pequeno.”

“Elsa também é. E para Dede vai ser insuportável.”

“Vamos fazer isso depois de Montpellier.”

“Nino, não brinque comigo.”

“Não estou brincando.”

“Então, se não está, comporte-se como deve: você fala com sua mulher e eu falo com meu marido. Agora. Esta noite.”

“Me dê um pouco de tempo, não é algo fácil.”

“E para mim é?”

Tergiversou, tentou me explicar. Disse que Eleonora era uma mulher muito frágil. Disse que ela organizara a vida em torno dele e do menino. Disse que quando era novinha tinha tentado se matar duas vezes. Mas não parou por aí, senti que estava se obrigando a uma honestidade absoluta. De frase em frase, com a lucidez que lhe era peculiar, chegou a admitir que romper seu casamento significava não só fazer mal à mulher e ao menino, mas também dar um chute em muitas mordomias — somente vivendo numa condição de riqueza a vida em Nápoles se torna aceitável — e numa rede de relações que lhe garantia poder fazer o que bem queria na universidade. Depois, tragado por sua própria escolha de não omitir nada, concluiu: lembre-se de que seu sogro gosta muito de mim e que tornar pública nossa relação levaria, tanto a mim quanto a você, a uma ruptura irremediável com os Airota. Foi essa última observação dele que, não sei por que, me fez mal.

“Tudo bem”, falei, “vamos encerrar por aqui.”

“Espere.”

“Já esperei até demais, devia ter me decidido antes.”

“O que você pretende fazer?”

“Assumir que meu casamento não tem mais sentido e seguir meu caminho.”

“Tem certeza?”

“Tenho.”

“E vai vir comigo a Montpellier?”

“Eu disse seguir meu caminho, não o seu. Nossa relação acabou.”

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