História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 37 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 36

Galiani também deve ter percebido algo que lhe agradou, talvez uma franqueza no limite da descortesia. Porém, quando Lila mencionou nossa amizade, a professora se mostrou contente e exclamou: ah, sim, Greco, ela nunca mais deu notícias, o sucesso deve ter subido à cabeça. Então convidou mãe e filho a se acomodarem na sala de estar, onde tinha deixado o neto brincando, um menino louro a quem quase ordenou: Marco, cumprimente seu novo amigo. Lila, por sua vez, fez o filho dar um passo à frente e disse: vá, Gennaro, brinque com Marco, e se sentou numa antiga e confortável poltrona verde, continuando a falar sobre a festa de anos atrás. A professora lamentou não ter nenhuma lembrança dela, mas Lila se recordava de tudo. Disse que tinha sido uma das piores noites de sua vida. Contou como se sentira fora de lugar, ironizou pesadamente as conversas que escutara sem entender nada. Eu era muito ignorante, exclamou com alegria excessiva, e hoje sou ainda mais.

Galiani ficou ouvindo e se espantou com sua sinceridade, com o tom desconcertante, as frases ditas num italiano muito intenso, a ironia habilmente controlada. Deve ter sentido em Lila, suponho, aquele algo de inapreensível que seduzia e ao mesmo tempo alarmava, uma potência de sereia: acontecia com qualquer um, aconteceu também com ela, e a conversa só se interrompeu quando Gennaro deu um tapa em Marco e gritou um insulto em dialeto, arrancando um carrinho verde das mãos dele. Lila se levantou furiosa, agarrou o filho pelo braço, deu vários tapas vigorosos na mão que tinha batido no outro menino e, embora Galiani lhe dissesse, branda: deixe pra lá, são crianças, o censurou com dureza e o obrigou a devolver o brinquedo. Marco chorava, Gennaro não derramou uma lágrima, ao contrário, arremessou contra o outro o brinquedo com desprezo. Lila bateu nele de novo, muito forte, na cabeça.

“Vamos embora”, disse então, nervosa.

“Não, fique mais um pouco.”

Lila voltou a se sentar.

“Ele não é sempre assim.”

“É um menino lindo. Não é verdade, Gennaro, que você é bonito e bonzinho?”

“Ele não é nada bonzinho, não é mesmo. Mas é inteligente. Apesar de pequeno, sabe ler e escrever todas as letras, maiúsculas e cursivas. E então, Gennà, quer mostrar à professora como você sabe ler?”

Pegou uma revista sobre uma bela mesinha de cristal, indicou ao acaso uma palavra na capa e disse: vamos, leia. Gennaro se recusou, Lila lhe deu um tapinha no ombro e repetiu ameaçadora: leia, Gennà. O menino decifrou de má vontade: d-e-s-t, e então parou, fixando com raiva o carrinho de Marco. Marco o apertou forte contra o peito, deu um sorrisinho e leu com desenvoltura: destinação.

Lila ficou mal, fechou o cenho, olhou o neto de Galiani com antipatia.

“Ele lê bem.”

“Porque lhe dedico muito tempo. Já os pais andam sempre por aí.”

“Quantos anos ele tem?”

“Três anos e meio.”

“Parece mais velho.”

“É verdade, ele é bem desenvolvido. Seu filho tem que idade?”

“Vai fazer cinco anos”, admitiu Lila contrariada.

A professora fez um carinho em Gennaro e lhe disse:

“Mamãe o fez ler uma palavra difícil, mas você é excelente, vê-se perfeitamente que sabe ler.”

Naquele instante houve uma agitação, a porta da escada se abriu e se fechou, rumor de passos pela casa, vozes masculinas, vozes femininas. Meus filhos chegaram, disse Galiani, e chamou: Nadia. Mas não foi Nadia quem apareceu na sala, em vez dela surgiu ruidosamente uma garota magra, muito pálida, louríssima e com olhos de um azul tão azul que parecia falso. A jovem abriu os braços e gritou para Marco: quem vai dar um beijo na mamãe? O menino correu em sua direção e ela o abraçou e encheu de beijinhos, enquanto Armando, o filho mais velho de Galiani, se aproximava. Lila também se lembrou dele imediatamente e o observou enquanto quase arrancava Marco dos braços da mãe, gritando: vamos, pelo menos trinta beijos também no papai. Então Marco passou a beijar o pai na bochecha, contando: um, dois, três, quatro.

“Nadia”, chamou de novo Galiani com um tom subitamente irritado, “está surda? Venha aqui, há uma visita para você.”

Finalmente Nadia entrou na sala. Atrás dela apareceu Pasquale.

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