História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 45 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 44

 

Sabia desde sempre que, mais cedo ou mais tarde, Michele reapareceria em sua vida, mas encontrá-lo no escritório de Bruno a assustou tanto quanto, na infância, os espíritos nos recantos escuros da casa. O que ele está fazendo aqui dentro, pensou, preciso ir embora. Mas, ao vê-la, Solara ficou de pé, abriu os braços, pareceu realmente emocionado. Disse em italiano: Lina, que prazer, como estou contente. Queria abraçá-la, e o teria feito se ela não o tivesse interrompido com um gesto irrefletido de repulsa. Michele ficou por alguns segundos de braços abertos e então, desordenadamente, tocou com uma mão a maçã do rosto, a nuca, e com a outra indicou Lila a Soccavo, dessa vez falando de modo fingido:

“Mas olha só, nem posso acreditar: quer dizer que, no meio dos salames, você realmente mantinha a senhora Carracci escondida?”

Lila se dirigiu a Bruno bruscamente:

“Volto mais tarde.”

“Sente-se”, disse ele, soturno.

“Prefiro ficar de pé.”

“Sente-se que assim você se cansa.”

Ela sacudiu a cabeça, permaneceu de pé, e Michele lançou um sorriso cúmplice a Soccavo:

“Ela é assim mesmo, desista, não obedece nunca.”

Lila teve a impressão de que a voz de Michele estava mais potente que no passado, pronunciava as sílabas finais de cada palavra como se naqueles últimos anos tivesse feito exercícios de pronúncia. Talvez para poupar as forças, talvez apenas para contradizê-lo, mudou de ideia e se sentou. Michele também se reacomodou, mas todo voltado na direção dela, quase como se a partir daquele momento Bruno não estivesse mais na sala. Ele a esquadrinhou bem, com simpatia, e falou demonstrando amargura: suas mãos estão destruídas, que pena, quando garotinha eram tão lindas. Então desandou a falar da loja na piazza dei Martiri com um tom informativo, como se Lila ainda fosse sua funcionária e eles estivessem tendo um encontro de trabalho. Fez menção a novas estantes, a novos pontos de iluminação e disse que tinha mandado murar de novo a porta do banheiro que dava para o pátio. Lila se lembrou daquela porta e disse devagar, em dialeto:

“Estou cagando para sua loja.”

“Você quer dizer nossa: nós a inventamos juntos.”

“Nunca inventei nada com você.”

Michele sorriu mais uma vez, balançando a cabeça em sinal de suave discordância. Quem põe dinheiro, disse, faz e desfaz exatamente como quem trabalha com as mãos e com a cabeça. O dinheiro inventa os panoramas, as situações, a vida das pessoas. Você não sabe quanta gente eu posso fazer feliz ou arruinar somente assinando um cheque. Em seguida, voltou a conversar com tranquilidade, parecia contente por contar as últimas notícias, como se faz entre amigos. Começou com Alfonso, que tinha feito bem seu trabalho na piazza dei Martiri e agora ganhava o suficiente para poder constituir família. Mas não tinha vontade de se casar, preferia manter a pobre Marisa na condição de noiva eterna e continuar fazendo o que bem quisesse. Então ele, como empregador, o encorajara, uma vida regular faz bem aos funcionários, oferecera-se para pagar a festa de núpcias, de modo que, finalmente, em junho haveria o casamento. Está vendo, lhe disse, se você tivesse continuado a trabalhar para mim, muito mais que Alfonso, eu lhe daria tudo o que me pedisse, você seria uma rainha. Depois, sem lhe dar tempo de replicar, bateu a cinza do cigarro num velho cinzeiro de bronze e anunciou que ele também estava se casando, também em junho, naturalmente com Gigliola, o grande amor de sua vida. Pena que não posso convidá-la, lamentou, eu gostaria, mas não quero constranger seu marido. E passou a falar de Stefano, de Ada e da filha deles, ora falando muito bem dos três, ora sublinhando que as duas charcutarias não iam tão bem como antigamente. Enquanto o dinheiro do pai durou — disse —, Carracci conseguiu se manter, mas o comércio hoje é um mar agitado, há um bom tempo os negócios de Stefano estão afundando, ele não aguenta mais. A concorrência — explicou — tinha crescido, abriam-se continuamente novas lojas. O próprio Marcello, por exemplo, metera na cabeça de ampliar o velho armazém de dom Carlo, que Deus o tenha, e transformá-lo num desses locais onde se vendia de tudo, de sabonetes a lâmpadas, de mortadelas a doces. E acabou fazendo, o negócio ia de vento em popa, o batizara de Tutto per tutti.

“Está me dizendo que você e seu irmão conseguiram arruinar Stefano também?”

“Que arruinar, Lina: nós apenas fazemos nosso trabalho, só isso. Aliás, quando podemos ajudar os amigos, ajudamos de bom grado. Adivinhe quem Marcello pôs para trabalhar na nova loja?”

“Não sei.”

“Seu irmão.”

“Reduziram Rino a funcionário de vocês?”

“Bem, você o abandonou, e aquele rapaz carrega nas costas seu pai, sua mãe, um filho e Pinuccia, que está grávida de novo. O que ele podia fazer? Procurou Marcello pedindo ajuda, e Marcello o ajudou. Não gostou da notícia?”

Lila respondeu gélida:

“Não, não gostei, não gosto de nada do que vocês fazem.”

Michele fez um ar descontente, lembrou-se de Bruno:

“Está vendo? É como eu lhe dizia, o problema dela é que tem um caráter ruim.”

Bruno esboçou um sorriso embaraçado, que pretendia ser cúmplice.

“É verdade.”

“Ela também lhe fez mal?”

“Um pouco.”

“Sabe que ela ainda era uma menina quando pôs um trinchete na garganta de meu irmão, que era o dobro dela? E não estava brincando, se via que estava pronta para usá-lo.”

“Está falando sério?”

“Estou. Essa aí tem coragem, é determinada.”

Lila cerrou os punhos com força, detestava a fraqueza que sentia no corpo. A sala ondejava, os corpos das coisas mortas e das pessoas vivas se dilatavam. Observou Michele apagar o toco do cigarro no cinzeiro. Estava pondo muita energia naquilo, como se ele também, apesar do tom pacato, estivesse buscando dar vazão a um mal-estar. Lila fixou seus dedos, que não paravam de amassar o cigarro, as unhas brancas. Tempos atrás, pensou, me pediu que eu me tornasse sua amante. Mas não é isso que ele realmente quer, há algo mais aí, algo que não tem a ver com trepar e que nem ele mesmo sabe explicar. Ficou fixado, é como uma superstição. Talvez acredite que eu tenha algum poder, e que esse poder lhe é indispensável. Ele o deseja, mas não consegue tomá-lo, e sofre com isso, é uma coisa que não pode tirar de mim à força. Sim, talvez seja isso. Se não fosse assim, já teria me esmagado. Mas por que justamente eu? O que identificou em mim que serviria a ele? Não devo continuar aqui, sob os olhos dele, não devo ouvi-lo, me dá medo o que ele vê e o que quer. Lila disse a Soccavo:

“Deixo uma coisa com você e estou indo.”

Ficou de pé, pronta a lhe entregar a lista das reivindicações, um gesto que lhe pareceu cada vez mais desprovido de sentido e, no entanto, necessário. Queria pôr a folha sobre a mesa, ao lado do cinzeiro, e sair daquela sala. Mas a voz de Michele a deteve. Agora era decididamente afetuosa, quase acariciante, como se tivesse intuído que ela tentava escapar-lhe e ele quisesse apostar tudo para encantá-la e mantê-la ali. Continuou falando a Soccavo:

“Está vendo? Ela tem mesmo um caráter ruim. Estou falando, e ela não está nem aí, saca uma folha de papel, diz que quer ir embora. Mas por favor a perdoe, porque o caráter ruim é compensado por enormes qualidades. Você acha que contratou uma operária? Não é verdade. Esta senhora é muito, muito mais que isso. Se você a deixar agir, ela transforma merda em ouro, é capaz de reorganizar todo este barraco e levá-lo a níveis que você nem sequer imagina. Por quê? Porque tem uma cabeça que normalmente não só nenhuma mulher tem, mas nem nós, homens, temos. Estou de olho nela desde que era quase uma menina, e é justamente assim. Ela desenhou sapatos que até hoje eu vendo em Nápoles e fora da cidade, e ganho um monte de dinheiro com isso. E me reformou uma loja na piazza dei Martiri com tanta fantasia que a transformou num salão de encontro para os senhores de via Chiaia, de Posillipo, do Vomero. E poderia fazer muitas, muitíssimas outras coisas. Mas tem uma cabeça doida, acredita que sempre pode fazer o que lhe dá na telha. Vai, vem, conserta, quebra. Você acha que eu a demiti? Não, um belo dia, como se nada fosse, não veio mais trabalhar. Sumiu, assim. E, se você torna a capturá-la, ela escapa de novo, é uma enguia. O problema dela está aí: mesmo sendo muito inteligente, não consegue entender o que pode e o que não pode fazer. Isso porque ainda não encontrou um homem de verdade. Um homem de verdade sabe colocar a mulher nos trilhos. Não é capaz de cozinhar? Aprende. Deixa a casa suja? Limpa. Um homem de verdade pode fazer com que uma mulher faça tudo. Só para lhe dizer, conheci recentemente uma fulana que não sabia assoviar. Bem, ficamos juntos apenas duas horas — horas de fogo —, e depois disse a ela: vai, assovia. E ela — você não vai acreditar — assoviou. Se você sabe educar uma mulher, bem. Se não sabe, melhor desistir, que lhe faz mal.” Pronunciou essas últimas palavras com um tom seriíssimo, como se condensassem um mandamento imprescindível. Mas, enquanto falava, deve ter percebido que ele não tinha sido e ainda não era capaz de respeitar sua própria lei. Então mudou de cara, mudou de voz de repente, sentiu a urgência de humilhá-la. Virou-se para Lila com um impulso de intolerância e sublinhou num crescendo de vulgaridades dialetais: “Mas com essa aqui é difícil, não é nada fácil tirá-la do pé. No entanto, olhe só pra ela, os olhos miúdos, as tetas pequenas, a bunda pequena, reduzida a um cabo de vassoura. Com uma assim o que se pode fazer? Nem dá pra ficar duro. Mas basta um instante, um instante só: você olha pra ela e tem vontade de fodê-la”.

Foi nesse ponto que Lila sentiu um baque violentíssimo na cabeça, como se seu coração, em vez de martelar na garganta, explodisse na calota craniana. Gritou-lhe um insulto não menos pesado que as palavras ditas por ele, agarrou o cinzeiro de bronze da escrivaninha derrubando cinzas e guimbas, tentou acertá-lo. Mas o gesto, apesar da fúria, veio lento, desprovido de força. E mesmo a voz de Bruno — Lina, por favor, o que é que você está fazendo — atravessou-a desinteressada. Talvez por isso Solara a tenha bloqueado facilmente e facilmente lhe tirou o cinzeiro das mãos, dizendo raivoso:

“Você pensa que depende do doutor Soccavo? Pensa que não sou ninguém aqui? Você se engana. Há algum tempo o doutor Soccavo está no livro vermelho de minha mãe, que é um livro muito mais importante que o livrinho de Mao. Por isso você não depende dele, depende de mim, depende sempre e apenas de mim. E eu até agora a deixei agir, queria ver até onde você ia parar, você e aquele merda com quem fode. Mas a partir de agora lembre-se de que estou de olho em você, e se eu quiser você tem de correr, está claro?”

Só então Bruno saltou de pé nervosíssimo e exclamou:

“Deixe-a em paz, Michè, agora você está exagerando.”

Solara soltou aos poucos o pulso de Lila e então balbuciou, dirigindo-se a Soccavo novamente em italiano:

“Você tem razão, me desculpe. Mas a senhora Carracci tem esse dom: de um modo ou de outro, sempre força você a exagerar.”

Lila reprimiu a fúria, esfregou com cuidado o pulso, tirou com a ponta dos dedos um pouco de cinza que caíra sobre ela. Depois desdobrou a folha de reivindicações, colocou-a diante de Bruno e, enquanto se dirigia para a porta, virou-se para Solara e disse:

“Sei assoviar desde os cinco anos de idade.”

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