História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 30 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 29

Na fábrica — ela logo se dera conta — o cansaço extremo levava as pessoas a querer trepar não com a mulher ou com o marido na própria casa, para onde todos voltavam exaustos e sem vontade, mas ali mesmo, no trabalho, de manhã ou de tarde. Os homens passavam a mão em qualquer oportunidade, faziam propostas assim que passavam ao lado; e as mulheres, sobretudo as menos jovens, riam, se esfregavam com os peitos grandes, se apaixonavam, e o amor se tornava uma distração que atenuava o cansaço e o tédio, conferia uma impressão de vida verdadeira.

Desde os primeiros dias de trabalho os homens tentaram reduzir as distâncias, como para farejá-la. Lila os rechaçava, eles riam ou se afastavam cantarolando cançõezinhas cheias de alusões obscenas. Numa manhã, para deixar as coisas definitivamente às claras, quase arrancou a orelha de um sujeito que, ao passar a seu lado, lhe disse uma frase pesada e lhe tascou um beijo no pescoço. Era um tipo bonitão, de seus quarenta anos, chamado Edo, que falava a todas com um tom insinuante e contava bem as piadas mais nojentas. Lila agarrou-lhe a orelha com uma mão e a retorceu, puxando com toda a força, as unhas cravadas na membrana, sem soltar a presa enquanto ele berrava e tentava se defender dos chutes que ela lhe aplicava. Depois disso, furiosa, foi protestar com Bruno Soccavo.

Desde que Bruno a contratara, Lila o tinha visto poucas vezes, de passagem, sem lhe dar atenção. Já naquela circunstância teve a oportunidade de observá-lo bem, estava de pé, atrás da escrivaninha, e se levantara de propósito, como fazem os cavalheiros quando uma senhora entra no recinto. Lila se surpreendeu: Soccavo tinha o rosto intumescido, os olhos velados pela abundância, o peito pesado e sobretudo uma cor acesa que contrastava como um magma com os cabelos pretíssimos e o branco dos dentes de lobo. Perguntou a si mesma: o que este aqui tem a ver com o rapaz amigo de Nino, que estudava direito? E sentiu que não havia continuidade entre os tempos de Ischia e a fábrica de embutidos: no meio se estendia o vazio, e no salto de um espaço a outro Bruno — quem sabe porque o pai tinha estado mal recentemente, e o peso da empresa (as dívidas, alguns diziam) recaíra de repente em seus ombros — se estragara.

Ela expôs suas razões, ele começou a rir.

“Lina”, advertiu, “eu lhe fiz um favor, mas não me arrume confusões. Todos aqui nos esforçamos, não fique sempre com essa arma apontada: de vez em quando as pessoas precisam relaxar, se não a coisa desanda.”

“Então relaxem entre vocês.”

Ele correu sobre ela um olhar divertido:

“Eu sabia que você gostava de brincar.”

“Só gosto quando eu quero.”

O tom hostil de Lila o fez mudar o seu. Ficou sério e disse sem lhe dirigir o olhar: você sempre a mesma, como era linda em Ischia. Então lhe indicou a porta: vá trabalhar, vá.

Mas desde então, sempre que cruzava com ela na fábrica, nunca deixava de lhe dirigir a palavra diante de todos, e sempre para lhe fazer um elogio benevolente. Aquela intimidade terminou legitimando a condição de Lila na empresa: caíra nas graças do jovem Soccavo e, por isso, era melhor não mexer com ela. A confirmação pareceu vir quando, numa tarde, logo após a pausa para o almoço, uma mulherona chamada Teresa atravessou seu caminho e lhe disse, debochada: pede-se gentilmente que compareça à maturação. Lila foi para a grande sala onde secavam os salames, um ambiente retangular repleto de carne ensacada que pendia do teto sob uma luz amarela. Bruno estava lá, aparentemente fazendo checagens, mas na verdade queria era conversar.

Enquanto circulava pelo ambiente apalpando e farejando com ar de especialista, pediu-lhe notícias de Pinuccia, a cunhada, e — coisa que irritou Lila — disse sem olhar para ela, examinando um salsichão: seu irmão nunca a satisfez, naquele verão ela se apaixonou por mim, e você, por Nino. Então avançou mais ainda e, dando-lhe as costas, acrescentou: foi graças a ela que descobri que as grávidas adoram fazer amor. Em seguida, sem lhe dar tempo de comentar, ironizar ou se enfurecer, parou no centro do salão e disse que, se a fábrica em seu conjunto lhe dava náusea desde pequeno, ali, na secagem, sempre se sentira bem, havia algo de agradável, de pleno, o produto que chegava a seu término, que se afinava, que exalava seu cheiro, que ficava pronto para ir ao mercado. Veja, toque, lhe disse, é matéria compacta, dura, sinta o perfume que solta: parece o cheiro de quando um macho e uma fêmea se abraçam e se tocam — você gosta? —, se soubesse quantas eu trouxe aqui desde rapazinho. E nesse ponto ele a pegou pela cintura, desceu a boca sobre seu pescoço comprido ao mesmo tempo em que já lhe apertava a bunda, parecia ter cem mãos, apalpou-as sobre o avental, debaixo, numa velocidade frenética e ofegante, uma exploração sem prazer, uma pura agonia intrusiva.

Cada coisa ali, a começar pelo cheiro dos embutidos, trazia à memória de Lila as violências de Stefano e por alguns segundos se sentiu aniquilada, teve medo de ser trucidada. Até que foi tomada pela fúria, acertou Bruno na cara e entre as pernas, berrou para ele você é um homem de merda, não tem nada aí embaixo, venha cá, tire pra fora que eu arranco, strunz.

Bruno a soltou, recuou. Tocou o lábio que sangrava, zombou constrangido, balbuciou: desculpe, pensei que podia haver ao menos um pouco de gratidão. Lila gritou: quer dizer que eu devo pagar tributo senão você me demite, é assim? Ele riu de novo, sacudiu a cabeça: não, se você não quer, não quer, basta, já lhe pedi desculpas, o que mais preciso fazer? Mas ela, fora de si, só agora começava a sentir no corpo o rastro de suas mãos e sabia que isso duraria, não era algo que se tirasse com água e sabão. Recuou para a porta e lhe disse: agora você se safou, mas, me demitindo ou não, juro que você vai maldizer o momento em que me tocou. Saiu enquanto ele murmurava: o que eu lhe fiz, não lhe fiz nada, venha aqui, se todos os problemas fossem esses, vamos fazer as pazes.

Ela retornou a seu posto. Na época trabalhava em meio aos vapores das piscinas, era uma espécie de servente que entre outras coisas devia deixar o piso enxuto, um esforço inútil. Edo, aquele de quem quase arrancara a orelha, a observou com curiosidade. Todos, operárias e operários, ficaram de olho nela enquanto voltava furiosa da secagem. Lila não retribuiu o olhar de ninguém. Pegou um trapo, bateu-o sobre os ladrilhos e começou a esfregá-lo no pavimento pantanoso, escandindo em voz alta, ameaçadora: vamos ver se algum outro filho da puta vai querer testar. Seus colegas se concentraram no trabalho.

Durante dias aguardou a demissão, que não veio. As vezes em que ocorria de passar por Bruno, ele fazia um sorriso gentil, ela respondia com um gesto gelado. Nenhuma consequência, pois, salvo a repulsa por aquelas mãos curtas e os ímpetos de ódio. No entanto, visto que Lila continuava se lixando de todos com a soberba de sempre, os chefetes logo voltaram a atormentá-la, mudando constantemente suas obrigações e fazendo-a trabalhar até a exaustão, enquanto lhe diziam obscenidades. Sinal de que tinham tido permissão para isso.

Não disse nada a Enzo sobre a orelha quase arrancada, sobre a agressão de Bruno, sobre os desaforos e os cansaços de todo dia. Se ele perguntava como estava indo na fábrica, ela respondia com sarcasmo: por que você não me fala como está indo em seu trabalho? E, como ele não dizia nada, Lila zombava um pouco dele e depois se dedicavam juntos aos exercícios do curso apostilado. Refugiavam-se nele por vários motivos, o mais importante era evitar interrogações sobre o futuro: quem eram um para o outro, por que ele cuidava dela e de Gennaro, por que ela aceitava que o fizesse, por que viviam na mesma casa há tanto tempo, mas Enzo esperava inutilmente toda noite que ela fosse procurá-lo, e virava na cama, e revirava, ia à cozinha com a desculpa de beber um gole d’água, lançava um olhar para a porta de vidro a meia altura para ver se ela já tinha apagado a luz e espiar sua sombra. Tensões mudas — bato, o deixo entrar —, dúvidas dele e dela. Por fim preferiam entorpecer-se às voltas com diagramas em blocos, como se fossem aparelhos de ginástica.

“Vamos fazer o esquema da porta que se abre”, dizia Lila.

“Vamos fazer o esquema do nó da gravata”, dizia Enzo.

“Vamos fazer o esquema de quando amarro os sapatos de Gennaro”, dizia Lila.

“Vamos fazer o esquema de quando preparamos o café com a napolitana”, dizia Enzo.

Das ações mais simples às mais complicadas, ambos quebravam a cabeça para esquematizar o cotidiano, embora os testes de Zurique não previssem isso. E não porque Enzo quisesse, mas porque como sempre Lila, que tinha começado em surdina, noite após noite se entusiasmou cada vez mais e agora, apesar da casa que à noite ficava gelada, estava tomada pelo delírio de reduzir todo o mundo miserável em que viviam à verdade de 0 e de 1. Parecia tender a uma abstrata linearidade — a abstração que gerava todas as abstrações —, esperando que lhe assegurasse uma perfeição repousante.

“Vamos esquematizar”, lhe propôs uma noite, “a fábrica.”

“Cada coisa que se faz ali?”, ele indagou perplexo.

“Sim.”

Ele a olhou e disse:

“Está bem, vamos começar pela sua.”

Ela fez uma expressão irritada, murmurou boa noite e foi se recolher em seu quarto.

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