História de quem foge e de quem fica
Capítulo 56
Decidi completar meu circuito exploratório. Desci a pé até a Mergellina e cheguei à piazza dei Martiri justamente quando o céu negro estava tão baixo que parecia apoiado sobre os prédios. Entrei depressa na elegante loja de calçados Solara convencida de que o temporal desabaria a qualquer instante. Achei Alfonso ainda mais bonito do que me lembrava, grandes olhos de cílios longos, lábios bem delineados, o corpo delgado e ao mesmo tempo forte, o italiano um tanto artificial por causa do estudo de latim e grego. Ficou sinceramente feliz ao me ver. Termos atravessado juntos os anos difíceis do ginásio e do liceu havia criado uma relação afetuosa entre nós que, embora não nos víssemos há tempos, se reanimou prontamente. Começamos a nos divertir. Falamos sem parar e simultaneamente, sobre nosso passado na escola, sobre os professores, sobre o livro que eu tinha publicado, o casamento dele, o meu. Naturalmente fui eu que mencionei Lila, e ele se confundiu, não queria falar mal dela, mas tampouco do irmão, nem de Ada. Disse apenas:
“Era previsível que fosse terminar assim.”
“Por quê?”
“Lembra quando eu dizia que Lina me dava medo?”
“Lembro.”
“Não era medo, só entendi bem mais tarde.”
“E o que era?”
“Estranhamento e adesão, um efeito simultâneo de distância e proximidade.”
“Ou seja?”
“É difícil explicar: eu e você ficamos imediatamente amigos, eu gosto de você. Com ela isso sempre me pareceu impossível. Tinha algo de terrível que me fazia ter vontade de me ajoelhar e confessar meus pensamentos mais secretos.”
Ironizei:
“Bonito, uma experiência quase religiosa.”
Ele continuou sério:
“Não, apenas uma admissão de subalternidade. Bonito mesmo foi quando ela me ajudou a estudar, isso sim. Lia o manual, entendia imediatamente, resumia tudo para mim de modo simples. Houve momentos — e isso acontece ainda hoje — em que pensava: se eu tivesse nascido mulher, gostaria de ter sido como ela. De fato, dentro da família Carracci, éramos dois corpos estranhos: nem eu nem ela podíamos durar. Por isso nunca me importei com suas culpas, e sempre me senti do seu lado.”
“Stefano ainda tem mágoa dela?”
“Não sei. Mesmo que a odeie, tem encrencas demais para gastar com isso. Neste momento Lina é o último problema dele.”
A afirmação me pareceu sincera e sobretudo fundada, e não falei mais de Lila. Em vez disso, perguntei sobre Marisa, sobre a família Sarratore, por fim sobre Nino. Foi vago em relação a todos, especialmente sobre Nino, que ninguém — por vontade de Donato, me disse — se arriscara a convidar para o insuportável casamento que ele enfrentaria.
“Você não está contente de se casar?”, arrisquei.
Olhou para além da vitrine: relampejava, trovejava, mas ainda não chovia. Disse:
“Eu estava bem do jeito que estava.”
“E Marisa?”
“Ela, não, não estava bem.”
“Queria que ela ficasse noiva para o resto da vida?”
“Não sei.”
“Então no fim das contas você fez a vontade dela.”
“Ela procurou Michele.”
Olhei para ele sem entender.
“Em que sentido?”
Riu, uma risadinha nervosa.
“Foi até ele, o colocou contra mim.”
Eu estava sentada num pufe, ele estava de pé, contra a luz. Tinha o aspecto tenso, compacto, dos toureiros nos filmes sobre corridas.
“Não entendi: você vai se casar com Marisa porque ela pediu a Solara que lhe dissesse que você devia fazer isso?”
“Estou me casando com Marisa para não fazer uma desfeita a Michele. Foi ele quem me pôs aqui dentro, confiou em minhas capacidades, tenho afeto por ele.”
“Você é doido.”
“Você fala assim porque todos têm uma ideia errada de Michele, não sabem como ele é.” Contraiu o rosto, tentou inutilmente segurar as lágrimas. Acrescentou: “Marisa está grávida”.
“Ah.”
Então o verdadeiro motivo era esse. Peguei a mão dele e, com grande constrangimento, tentei acalmá-lo. Sossegou com muito esforço e me disse:
“A vida é uma coisa muito feia, Lenù”.
“Não é verdade: Marisa vai ser uma boa esposa e uma ótima mãe.”
“Estou me lixando para Marisa.”
“Agora não exagere.”
Fixou os olhos em mim, senti que me examinava como para entender algo de mim que o deixava bloqueado. Perguntou:
“Nem a você Lila nunca disse nada?”
“O que ela devia me dizer?”
Balançou a cabeça, subitamente divertido.
“Está vendo que tenho razão? É uma pessoa incomum. Certa vez confiei um segredo a ela. Estava apavorado e precisava dizer a alguém a razão de meu pavor. Contei a ela, e ela me ouviu com atenção, tanto que até me acalmei. Para mim foi importante falar com ela, me parecia que não me escutava com os ouvidos, mas com um órgão que só ela possuía e que tornava as palavras aceitáveis. No final não lhe pedi nada, como se costuma fazer: jure, por favor, que não vai me trair. Mas agora é claro que, se não disse nada a você, não falou com ninguém, nem por despeito, nem no período mais duro para ela, os dias de ódio e das porradas de meu irmão.”
Não o interrompi. Senti apenas que estava descontente porque ele confiara sabe-se lá o que a Lila, e não a mim, que também era sua amiga desde sempre. Ele deve ter percebido e decidiu remediar. Me abraçou forte e sussurrou em meu ouvido:
“Lenù, eu sou bicha, não gosto de mulheres.”
Quando eu estava para ir embora, murmurou embaraçado: tenho certeza de que você já tinha percebido. Isso acentuou meu desgosto, na verdade o fato nunca me ocorrera.
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