História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 21 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 20

Fui embora de manhã cedo, deixei Silvia dormindo com o menino no peito. Não vi sombra do pintor. Só consegui me despedir de Mariarosa, que acordara cedíssimo para acompanhar Franco à estação e tinha acabado de voltar. Tinha um ar sonolento, me pareceu incomodada. Perguntou:

“Dormiu bem?”

“Conversei muito com Silvia.”

“Ela lhe falou de Sarratore?”

“Falou.”

“Sei que vocês são amigos.”

“Foi ele quem disse?”

“Foi. Fofocamos um pouco sobre você.”

“É verdade que Mirko é filho dele?”

“É.” Reprimiu um bocejo, sorriu. “Nino é fascinante, as meninas vivem atrás dele, o disputam, o puxam pra cá e pra lá. E — ainda bem — passam dias felizes, fazem o que querem, tanto mais que ele emana uma força que transmite alegria e vontade de agir.”

Disse que o movimento tinha grande necessidade de pessoas como ele. Mas acrescentou que era preciso cuidar dele, fazê-lo amadurecer, orientá-lo. Pessoas muito capazes — disse — devem ser guiadas, nelas está sempre à espreita o democrata burguês, o técnico empresarial, o modernizador. Ambas lamentamos o fato de termos tido pouco tempo para estar juntas e nos prometemos que faríamos melhor na próxima oportunidade. Retirei a bagagem no hotel e parti.

Somente no trem, durante a longa viagem até Nápoles, assimilei aquela segunda paternidade de Nino. Um cinza esquálido se estendeu de Silvia a Lila, de Mirko a Gennaro. Pareceu-me que a paixão de Ischia, a noite de amor em Forio, a relação secreta na piazza dei Martiri, a gravidez, tudo desbotasse e se reduzisse a um dispositivo mecânico que, ao sair de Nápoles, Nino reativara com Silvia e sabe-se lá com quantas outras. A coisa me ofendeu, quase como se eu tivesse Lila escondida num canto de minha cabeça e experimentasse seus próprios sentimentos. Senti uma amargura como se ela mesma sentiria se tivesse sabido, fiquei furiosa como se tivesse sofrido a mesma injustiça que ela. Nino tinha traído Lila e a mim. Estávamos, ela e eu, dentro da mesma humilhação, o amávamos sem nunca termos de fato sido amadas. Portanto ele era, apesar de suas qualidades, um homem frívolo, superficial, um organismo animal que exalava suores e fluidos e deixava para trás, como resíduo de um prazer distraído, matéria viva concebida, nutrida e formada em ventres femininos. Lembrei-me de quando viera me encontrar no bairro, anos antes, e tínhamos ficado conversando no pátio e Melina o avistara da janela e o confundira com o pai. A ex-amante de Donato tinha captado semelhanças que a mim pareceram inexistentes. Mas agora era claro, ela estava certa e eu, errada. Nino não fugia do pai por medo de se tornar como ele, Nino já era o pai e não queria admitir isso.

Contudo não consegui odiá-lo. No trem trincando de calor, não só me lembrei de quando o tinha revisto na livraria, mas também o inseri nos acontecimentos, palavras e frases daqueles dias. O sexo me perseguia, agarrava, torpe e atraente, obsessivamente presente nos gestos, nas falas, nos livros. As paredes divisórias estavam desabando, as correntes das relações estavam despedaçando. E Nino vivia intensamente aquela época. Era parte da assembleia barulhenta da Estatal com seu cheiro intenso, era adequado à desordem da casa de Mariarosa, de quem certamente tinha sido amante. Com sua inteligência, com seus desejos, com sua capacidade de sedução, movia-se com segurança e curiosidade dentro daqueles tempos. Talvez eu tenha me enganado ao associá-lo às vontades abjetas do pai, seu comportamento já pertencia a outra cultura, e Silvia e Mariarosa haviam deixado isso claro: as garotas o queriam, ele ficava com elas, não havia opressão, não havia culpa, somente os direitos do desejo. Talvez, quem sabe, quando Nino me dissera que Lila tinha problemas também com o sexo, quisesse me comunicar que o tempo das obrigações tinha acabado, que sobrecarregar o prazer com a responsabilidade era uma distorção. Se ele também tinha a mesma natureza do pai, com certeza sua paixão pelas mulheres apontava em outro sentido.

Com espanto, com desaponto, cheguei a Nápoles no instante em que uma parte de mim, ao pensar em quanto Nino era amado e em quanto amava, tinha cedido e chegava a admitir: que mal há, goza-se a vida com quem sabe gozá-la. E, enquanto regressava ao bairro, percebi que justamente porque todas o queriam, e ele pegava todas, eu, que gostava dele desde sempre, agora gostava mais ainda. Por isso decidi que evitaria ao máximo encontrá-lo de novo. Quanto a Lila, não sabia como me comportar. Não dizer nada, contar tudo? Quando a reencontrasse, decidiria no momento.

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