História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 110 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 109

Dias antes de ele voltar a Nápoles, houve dois episódios particularmente desagradáveis. Numa tarde Adele me telefonou, ela também muito contente com meu trabalho. Disse que eu devia mandar o texto imediatamente para a editora, era possível fazer um livrinho a ser publicado simultaneamente ao lançamento na França ou, se não desse tempo, logo em seguida. Durante o jantar mencionei o fato com um ar displicente, e Nino me fez muitos elogios, dizendo às meninas:

“Vocês têm uma mãe excepcional”. Depois se dirigia a Pietro: “Você leu o texto?”.

“Não tive tempo.”

“Seria melhor não ler.”

“Por quê?”

“Não é coisa para você.”

“Como assim?”

“É muito inteligente.”

“O que você quer dizer com isso?”

“Que você é menos inteligente que Elena.”

E riu. Pietro não disse nada, Nino insistiu:

“Ficou ofendido?”

Queria que reagisse para humilhá-lo ainda mais. Mas Pietro se levantou da mesa e disse:

“Licença, preciso trabalhar.”

Murmurei:

“Termine de comer.”

Ele não respondeu. Estávamos na sala de jantar, que era ampla. Por um instante pareceu que realmente iria atravessá-la e se fechar no escritório. No entanto deu meia-volta, sentou-se no sofá e ligou a televisão, aumentando bastante o volume. O clima era intolerável. Em poucos dias tudo se complicara. Me senti muito infeliz.

“Pode abaixar um pouco?”, pedi.

Respondeu simplesmente:

“Não.”

Nino deu uma risadinha, terminou de comer, me ajudou a tirar a mesa. Na cozinha eu disse a ele:

“Por favor, o perdoe, Pietro trabalha demais e dorme pouco.”

Replicou com um ímpeto de raiva:

“Como você consegue suportá-lo?”

Olhei para a porta alarmada, ainda bem que o volume da tv continuava alto.

“Eu gosto dele”, respondi. E, como insistisse em me ajudar a lavar os pratos, acrescentei: “Vá, por favor, se não me complico”.

O outro episódio foi ainda pior, se bem que decisivo. Eu não sabia mais o que ele realmente estava querendo: agora torcia para que aquele período terminasse logo, queria retomar os hábitos familiares, acompanhar de perto meu livrinho. Entretanto gostava de entrar no quarto de Nino de manhã, arrumar a desordem que ele deixava, fazer sua cama, cozinhar pensando que à noite jantaria conosco. E me angustiava o fato de que tudo isso estivesse prestes a acabar. Em certas horas da tarde, me sentia louca. Tinha a impressão de que a casa estivesse vazia apesar das meninas, eu mesma me esvaziava, não sentia nenhum interesse pelo que havia escrito, percebia a superficialidade, perdia confiança no entusiasmo de Mariarosa, de Adele, da editora francesa, da italiana. Pensava: assim que ele for embora, nada mais terá sentido.

Estava nesse estado — a vida me escapava com uma insuportável sensação de perda — quando Pietro voltou particularmente soturno da universidade. Estávamos esperando que ele chegasse para o jantar, Nino tinha voltado uma meia hora antes, mas fora imediatamente sequestrado pelas meninas. Perguntei-lhe com gentileza:

“Aconteceu alguma coisa?”

Esbravejou:

“Nunca mais me traga para casa gente de suas bandas.”

Fiquei gelada, pensei que se referisse a Nino. E também Nino, que aparecera com Dede e Elsa em seus calcanhares, deve ter pensado a mesma coisa, porque o olhou com um sorrisinho provocador, como se só estivesse esperando aquela cena. Mas Pietro tinha outra coisa em mente. Disse com seu tom desdenhoso, o tom que sabia usar bem quando se convencia de que estavam em jogo princípios basilares e se sentia chamado a defendê-los:

“Hoje os policiais reapareceram e me citaram alguns nomes, me mostraram umas fotos.”

Suspirei de alívio. Sabia que, depois de se recusar a retirar a queixa contra o estudante que lhe apontara uma arma, o que mais lhe pesava não era o desprezo de muitos jovens militantes e de não poucos professores, mas sobretudo as visitas da polícia, que o tratava como um confidente. Estava certa de que a causa de seu mau humor era aquela e o interrompi, irritada:

“Culpa sua. Você não devia ter agido daquele modo, eu lhe disse. Agora vai ser difícil se livrar deles.”

Nino se intrometeu e perguntou a Pietro, sarcástico:

“Quem você denunciou?.

Pietro nem se virou para olhá-lo. Estava bravo comigo, era comigo que queria brigar. Disse:

“Fiz o que era preciso na época e deveria ter feito o mesmo hoje. Mas fiquei calado para não a envolver.”

Nesse ponto entendi que o problema não eram os policiais, mas o que ficara sabendo por meio deles. Murmurei:

“O que é que eu tenho a ver com isso?”

Sua voz se alterou:

“Pasquale e Nadia não são seus amigos?”

Repeti bobamente:

“Pasquale e Nadia?”

“Os policiais me mostraram fotos de terroristas, e eles apareciam em algumas.”

Não reagi, fiquei sem palavras. Então o que eu tinha imaginado era verdade, Pietro estava de fato me confirmando. Em poucos segundos voltaram as imagens de Pasquale descarregando a pistola em Gino, atirando nas pernas de Filippo, enquanto Nadia — Nadia, não Lila — subia as escadas, batia na porta de Bruno e lhe disparava na cara. Terrível. No entanto de repente o tom de Pietro me pareceu fora de lugar, como se estivesse usando a notícia para me pôr em dificuldade aos olhos de Nino, para acender uma discussão que eu não queria enfrentar. De fato, logo em seguida Nino tornou a se intrometer e continuou em tom de deboche:

“Então você é um informante da polícia? É isso que você faz? Denuncia os companheiros? E seu pai sabe disso? Sua mãe? Sua irmã?”

Balbuciei sem ânimo: vamos jantar. Mas logo em seguida disse a Nino, minimizando com gentileza, até para evitar que ele continuasse alfinetando Pietro ao mencionar sua família de origem: pare com isso, informante coisa nenhuma. Depois aludi confusamente ao fato de que, tempos atrás, recebera uma visita de Pasquale Peluso, não sei se ele se lembrava, um jovem do bairro, um bom rapaz que, pelos acasos da vida, se juntara a Nadia, dela você se lembra, naturalmente, a filha de Galiani, ela mesma. E nessa altura parei, porque Nino já estava rindo. Exclamou: Nadia, oh, meu Deus, Nadia, e se virou de novo para Pietro, ainda mais sarcástico: somente você e meia dúzia de policiais obtusos podiam pensar que Nadia Galiani estivesse na luta armada, coisa de louco. Nadia, a pessoa melhor e mais gentil que já conheci, a que ponto chegamos na Itália, vamos comer, vamos, por enquanto a defesa da ordem constituída pode prescindir de você. Então se encaminhou para a mesa chamando Dede e Elsa, e eu comecei a servir os pratos, certa de que Pietro estava vindo.

Mas ele não apareceu. Pensei que tivesse ido lavar as mãos, que estivesse dando um tempo para se acalmar, e me sentei em meu lugar. Estava agitada, queria passar uma noite boa e tranquila, um final ameno para aquela convivência. Mas ele não chegava, as meninas já estavam comendo. Agora até Nino parecia perplexo.

“Pode começar”, disse a ele, “vai ficar frio.”

“Só se você também comer.”

Vacilei. Talvez devesse ir ver como meu marido estava, o que estava fazendo, se estava mais calmo. Mas não tinha vontade, estava aborrecida com o comportamento dele. Por que não guardara para si aquela incursão dos policiais? Geralmente era o que fazia com tudo o que lhe dizia respeito, nunca me contava nada. Por que me falara daquele modo na presença de Nino: nunca mais me traga para casa gente de suas bandas. Qual a urgência de tornar pública aquela questão? Podia esperar, podia desabafar mais tarde, quando estivéssemos no quarto de dormir. Estava bravo comigo, esse era o ponto. Queria estragar minha noite, estava se lixando para tudo o que eu fazia e desejava.

Comecei a comer. Comemos nós quatro, o primeiro, o segundo prato e até a sobremesa que eu tinha preparado. Nem sinal de Pietro. Naquela altura fiquei furiosa. Pietro não queria jantar? Muito bem, não jantasse, evidentemente estava sem fome. Queria que o deixassem em paz? Ótimo, a casa era grande, sem ele não haveria tensões. De todo modo, agora parecia claro que o problema não era que duas pessoas que vieram uma única vez à nossa casa estivessem entre as suspeitas de participação em um grupo armado. O problema era que ele não tinha uma inteligência suficientemente rápida, não sabia dar conta das escaramuças entre homens, sofria com isso e pretendia descontar em mim. Mas que me importa você e sua mesquinharia? Tiro a mesa depois, falei em voz alta como se desse uma ordem a mim mesma, a meu estado de confusão. Então liguei a tv e me sentei no sofá com Nino e as meninas.

Passou um longo tempo, enervante. Eu sentia que Nino estava ao mesmo tempo incomodado e achando divertido. Vou chamar papai, disse Dede, que, de barriga cheia, agora estava preocupada com Pietro. Vá, reforcei. Voltou quase na ponta dos pés e sussurrou em meu ouvido: deitou na cama, está dormindo. Nino ouviu mesmo assim e disse:

“Amanhã vou embora.”

“Já terminou o trabalho?”

“Não.”

“Fique mais um pouco.”

“Não posso.”

“Pietro é uma boa pessoa.”

“Você ainda o defende?”

Defendê-lo de quê, de quem? Não entendi, e quase me enfureci com ele também.

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