História de quem foge e de quem fica
Capítulo 106
Fui passear com Eleonora e as três crianças num estado de bem-estar tão intenso que, mesmo se ela me enfiasse uma faca, eu não sentiria nada. De resto, diante de minha euforia cheia de gentilezas, a mulher de Nino suspendeu qualquer hostilidade, elogiou a disciplina de Dede e de Elsa, confessou que me admirava muito. Seu marido lhe contara tudo de mim, os estudos que eu tinha feito, meu sucesso como escritora. Mas sou um pouco ciumenta — admitiu —, e não por você ser excelente, mas porque o conhece desde pequena, e eu, não. Ela também gostaria de tê-lo conhecido na infância, saber como ele era aos dez, aos catorze anos, a voz que tinha antes de engrossar, a risada de quando era criança. Ainda bem que tenho Albertino — disse —, é igualzinho ao pai.
Observei o menino, mas não achei que tivesse traços de Nino; talvez se manifestassem mais tarde. Eu me pareço com papai, exclamou imediatamente Dede com orgulho, e Elsa acrescentou: eu me pareço mais com a mamãe. Tornei a me lembrar do filho de Silvia, Mirko, que sempre fora idêntico a Nino. Que prazer eu sentira ao apertá-lo entre os braços, acalmando seus vagidos na casa de Mariarosa. O que eu buscara naquele menino, quando ainda estava longe da experiência da maternidade? O que eu tinha buscado em Gennaro, quando ainda não sabia que seu pai era Stefano? O que buscava em Albertino, agora que eu era mãe de Dede e de Elsa, e por que o examinava com tanta atenção? Excluí que Nino se lembrasse de vez em quando de Mirko. Nem me constava que ele tivesse demonstrado qualquer curiosidade por Gennaro. Essa distraída semeadura dos homens, entorpecidos pelo prazer; nos fecundam dominados pelo seu orgasmo; irrompem dentro de nós e se retraem nos deixando, selado na carne, seu fantasma como um objeto perdido. Albertino era filho da vontade, da atenção? Ou também ele estava nos braços dessa mulher-mãe sem que Nino lhe desse importância? Voltei a mim, disse a Eleonora que seu filho era a cópia do pai e ela ficou contente com aquela mentira. Depois lhe contei minuciosamente, com afeto, com ternura, de Nino na época da escola fundamental, nos tempos das competições organizadas por Oliviero e pelo diretor, no período do liceu, da Galiani e das férias em Ischia, que passamos juntos com outros amigos. Parei ali, embora ela, como uma menina, continuasse me perguntando: e depois?
Conversa vai, conversa vem, mostrei-me cada vez mais simpática a ela, que acabou se apegando a mim. Se eu entrava numa loja e alguma coisa me agradava, se a provava e depois desistia, descobria na saída que Eleonora a comprara de presente para mim. Quis também comprar vestidinhos para Dede e Elsa. No restaurante, ela pagou a conta. E pagou o táxi com que me acompanhou até em casa com as meninas, para depois seguir carregada de sacolas rumo ao hotel. Então nos despedimos, e tanto eu quanto as meninas acenamos com as mãos para ela até o carro dobrar a esquina. É mais uma peça de minha cidade, pensei. Muitíssimo distante de minha experiência. Usava o dinheiro como se não tivesse o menor valor. Excluí que fosse dinheiro de Nino. O pai dela era advogado, o avô, também, a mãe pertencia a uma estirpe de banqueiros. Perguntei-me que diferença havia entre sua riqueza de burgueses e a dos Solara. Pensei em quantas voltas ocultas o dinheiro dá antes de se transformar em altos salários e lautos honorários. Lembrei-me dos rapazes do bairro que ganhavam o dia descarregando mercadorias de contrabando, cortando árvores de parques, trabalhando nos canteiros de obras. Lembrei-me de Antonio, de Pasquale, de Enzo, que desde meninos arranjavam uns trocados para sobreviver. Os engenheiros, os arquitetos, os advogados, os bancos eram outra coisa, nunca o dinheiro deles provinha — mesmo entre mil filtros — dos mesmos malfeitos, do mesmo massacre, alguma migalha tinha até se transformado em gorjeta para meu pai e contribuíra com meus estudos. Então qual era o limiar além do qual o dinheiro ruim se tornava bom e vice-versa? Até que ponto era limpo o dinheiro que Eleonora gastara sem problemas no calor daquele dia florentino?; e os cheques com que tinham sido compradas as mercadorias que eu estava levando para casa, até que ponto eram diferentes daqueles com que Michele pagava o trabalho de Lila? Durante toda a tarde, eu e as meninas nos pavoneamos na frente do espelho com as roupas que ganháramos de presente. Eram artigos de qualidade, exuberantes, alegres. Havia um vestido vermelho desbotado, anos 1940, que me caía especialmente bem; queria que Nino me visse com ele.
No entanto a família Sarratore voltou para Nápoles sem que tivéssemos a ocasião de nos encontrarmos mais uma vez. Porém, contra todas as previsões, o tempo não colapsou, ao contrário, começou a correr com leveza. Nino voltaria, isso era certo. E discutiria meu texto comigo. Para evitar atritos inúteis, coloquei uma cópia dele sobre a escrivaninha de Pietro. Depois telefonei para Mariarosa com a agradável certeza de ter trabalhado bem e lhe disse que tinha conseguido pôr em ordem aquele rascunho que eu havia mencionado. Quis que eu lhe mandasse logo uma cópia. Poucos dias depois me ligou entusiasmada, perguntou se ela mesma podia traduzi-lo em francês e mandá-lo para uma amiga de Nanterre que tinha uma pequena editora. Aceitei com entusiasmo, mas a coisa não terminou ali. Passaram-se poucas horas e minha sogra me telefonou com uma voz falsamente ofendida.
“Como é que as coisas que você escreve agora vão parar nas mãos de Mariarosa, e não nas minhas?”
“Temo que não interessem a você. São umas setenta páginas, não é um romance, nem eu sei bem o que é.”
“Quando você não sabe o que é que escreveu, quer dizer que trabalhou bem. De todo modo, deixe que eu decida se me interessa ou não.”
Mandei uma cópia também para ela. Fiz isso quase com displicência. Fiz justo na manhã em que Nino, por volta do meio-dia, me telefonou de surpresa da estação — tinha acabado de chegar em Florença.
“Chego aí daqui a meia hora, deixo a bagagem e vou para a biblioteca.”
“Não quer comer alguma coisa?”, perguntei com naturalidade. Pareceu-me normal — o ponto de chegada de um longo percurso — que ele viesse dormir em minha casa, que eu lhe preparasse o almoço enquanto tomava uma ducha em meu banheiro, que comêssemos juntos, eu, ele e as meninas, enquanto Pietro aplicava provas na universidade.
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