História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 64 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 63

 

Assim que descobri que esperava um filho, fui tomada de ansiedade e telefonei logo para minha mãe. Por mais que nossa relação sempre tivesse sido conflituosa, naquela circunstância prevaleceu a necessidade de ouvi-la. Foi um erro, ela imediatamente passou a me atormentar. Queria sair de Nápoles, estabelecer-se em minha casa, me ajudar, me orientar ou, em vez disso, levar-me de volta para o bairro, ter-me de novo em sua casa, confiar-me à velha parteira que trouxera à luz todos os seus filhos. Tive dificuldade de mantê-la a distância, falei que já estava sendo acompanhada por um ginecologista amigo de minha sogra, um grande professor, e que eu faria o parto na clínica dele. Ela se ofendeu. Sibilou para mim: prefere sua sogra a mim — e não telefonou mais.

Passados alguns dias, quem me ligou foi Lila. Já tínhamos tido uns contatos telefônicos depois de minha partida, mas só de poucos minutos, não queríamos gastar muito, ela alegre, eu distante, ela perguntando irônica sobre minha vida de casada, eu me informando séria sobre sua saúde. Dessa vez me dei conta de que algo não ia bem.

“Está chateada comigo?”, indagou.

“Não, por que deveria?”

“Você não me comunicou nada. A notícia só me chegou porque sua mãe se gaba de sua gravidez com todo mundo.”

“Só tive a confirmação recentemente.”

“Achei que estivesse tomando a pílula.”

Fiquei confusa.

“Sim, mas depois decidi que não.”

“Por quê?”

“Os anos passam.”

“E o livro que você deve escrever?”

“Depois vejo isso.”

“Veja mesmo.”

“Farei o possível.”

“Deve fazer o máximo.”

“Vou tentar.”

“Eu estou tomando a pílula.”

“Então vai tudo bem com Enzo?”

“Muito bem, mas não quero engravidar nunca mais.”

Ela se calou, eu também não disse mais nada. Quando tornou a falar, me contou sobre as duas vezes em que se deu conta de que esperava um bebê. Definiu ambas como uma experiência horrível: na segunda — disse — eu tinha certeza de que o menino era de Nino e, mesmo estando mal, fiquei contente. Mas, contente ou não, você vai ver, o corpo sofre, não aceita se deformar, sente muita dor. A partir dali, seguiu adiante num crescendo cada vez mais tétrico, eram coisas que ela já tinha me falado, mas nunca com tanto afã de me arrastar para seu sofrimento a fim de que eu também o experimentasse. Parecia querer me preparar para o que me esperava, estava muito preocupada comigo e com meu futuro. A vida de um outro, me disse, primeiro ele se gruda na barriga e, quando finalmente sai lá de dentro, logo a transforma numa prisioneira, lhe mete uma coleira, e você não é mais dona de si. Esboçou animadamente cada fase de minha maternidade decalcando-a da sua, expressou-se com seu modo eficaz de sempre. É como se você fabricasse para si seu próprio tormento, exclamou, e percebi que Lila não conseguia pensar que ela era ela e eu era eu, parecia-lhe inconcebível que eu pudesse ter uma gravidez diferente da dela, um sentimento diverso dos filhos. Dava por tão certo que eu enfrentaria suas mesmas dificuldades que me pareceu pronta a considerar uma eventual alegria minha com a maternidade como uma traição.

Não quis mais ouvi-la, afastei o fone do ouvido, ela me assustava. Despedimo-nos sem calor.

“Se precisar de mim”, disse, “me avise.”

“Tudo bem.”

“Você me ajudou, agora eu quero te ajudar.”

“Tudo bem.”

Mas aquele telefonema não me ajudou em nada, ao contrário, me deixou mais inquieta. Estava morando numa cidade sobre a qual não sabia nada, embora graças a Pietro agora a conhecesse em cada recanto, coisa que não podia dizer de Nápoles. Eu adorava as margens do Arno, fazia belos passeios por lá, mas não gostava da cor das casas, me deixava de mau humor. O ar arrogante de seus moradores — o porteiro do prédio, o açougueiro, o padeiro, o carteiro — me levava a ser igualmente arrogante, e daí nascia uma hostilidade sem motivo. Além disso, os muitos amigos de meus sogros, tão disponíveis no dia do casamento, nunca mais tinham dado as caras, nem Pietro tinha intenção de revê-los. Sentia-me sozinha e frágil. Comprei uns livros sobre como se tornar uma mãe perfeita e me preparei com a habitual diligência.

Os dias passaram, as semanas, mas, para minha surpresa, a gravidez não me pesou nem um pouquinho, ao contrário, me deixou alegre. As náuseas foram irrelevantes, nunca tive fraquezas no corpo, no humor, na vontade de fazer as coisas. Estava no quarto mês quando meu livro recebeu um prêmio relevante, que me trouxe mais reconhecimento e um pouco mais de dinheiro. Fui recebê-lo apesar do clima político hostil àquele tipo de distinção e me senti em estado de graça, orgulhosa de mim, com um sentimento de completude física e intelectual que me deixou sem timidez, muito expansiva. No discurso de agradecimento falei demais, disse que me sentia feliz como os astronautas na branca extensão da lua. Dois dias depois, já que me sentia forte, telefonei a Lila para lhe contar sobre o prêmio. Queria dizer que as coisas não estavam indo como ela previra, que, ao contrário, tudo seguia tranquilamente, que eu estava satisfeita. Eu me sentia tão plena que desejava passar por cima dos desgostos que ela me tinha dado. Mas Lila tinha lido no Mattino — apenas os jornais napolitanos haviam dedicado algumas linhas ao prêmio — aquela minha frase sobre os astronautas e, sem me dar tempo de falar, criticou-a com aspereza. A branca extensão da lua, ironizou, às vezes é melhor ficar calado que dizer cagadas. E acrescentou que a lua era uma pedra entre bilhões de outras pedras e que, pedra por pedra, o melhor era ficar com os pés bem plantados nos problemas da terra.

Senti uma agulhada no estômago. Por que continuava me ferindo? Não queria que eu fosse feliz? Ou nunca se recuperara de fato, e era seu mal-estar que acentuava seu lado ruim? Ocorreram-me palavras terríveis, mas não consegui pronunciá-las. Como se não tivesse percebido que me machucara, ou como se pensasse que tinha direito a isso, passou em seguida a me contar suas coisas com um tom muito amigável. Tinha feito as pazes com o irmão, com a mãe, até com o pai; brigou com Michele Solara sobre a velha questão da marca dos calçados e do dinheiro que ele devia a Rino; entrou em contato com Stefano para solicitar que, pelo menos do ponto de vista econômico, ele também cumprisse seu papel de pai com Gennaro, e não só com Maria. Pronunciou frases cortantes, às vezes vulgares, seja contra Rino, seja contra os Solara, seja contra Stefano. Por fim me perguntou, como se de fato tivesse uma necessidade urgente de ouvir minha opinião: fiz bem? Não respondi. Eu tinha ganhado um prêmio importante e ela só se importara com a frase sobre os astronautas. Perguntei a ela, talvez para ofendê-la, se ainda tinha aqueles sintomas que lhe perturbavam a cabeça. Respondeu que não, repetiu duas vezes que estava ótima e acrescentou com uma risadinha autoirônica: só de vez em quando vejo com o canto do olho umas pessoas saindo dos móveis. Então me perguntou: tudo bem com a gravidez? Tudo ótimo, excelente — eu disse —, nunca estive melhor.

Viajei bastante naqueles meses. Era convidada para cá e para lá não só por causa de meu livro, mas também pelos artigos que escrevia, os quais por sua vez me forçavam a deslocar-me para ver de perto as novas formas de greve, as reações do patronato. Nunca pensei em me esfalfar para ser articulista. Fazia porque, ao fazê-lo, ficava contente. Me sentia desobediente, em revolta, insuflada de uma tal potência que minha docilidade parecia um disfarce. De fato, graças a isso, me intrometia nos piquetes em frente das fábricas, falava com operários, operárias e sindicalistas, irrompia entre os policiais. Nada me atemorizava. Quando o Banco da Agricultura explodiu eu estava em Milão, na editora, mas não me alarmei, não tive presságios sombrios. Considerava-me parte de uma força irrefreável, considerava-me invulnerável. Ninguém podia fazer nenhum mal a mim nem a meu menino. Nós dois éramos a única realidade durável, eu visível, e ele (ou ela: mas Pietro desejava um menino), por ora, invisível. O resto era uma corrente de ar, uma onda imaterial de imagens e sons que, desastrosa ou benéfica que fosse, constituía material para o meu trabalho, ia além ou pesava para que eu a pusesse em palavras mágicas dentro de um romance, um artigo, um discurso público, atentando para que nada escapasse ao esquema e cada conceito agradasse aos Airota, à editora, a Nino — que em algum lugar com certeza me lia —, até a Pasquale (por que não?) e a Nadia, e a Lila, que finalmente seriam forçados a pensar: olha aí, fomos injustos com Lena, ela está do nosso lado, veja só o que ela escreve.

Foi uma época particularmente intensa, a da gravidez. Fiquei surpresa com o fato de que meu estado me tornava mais propensa ao sexo. Era eu quem procurava Pietro, o abraçava, o beijava, embora ele não fosse dado a beijos e abraços e passasse quase imediatamente a me penetrar com seu modo demorado e doloroso. Depois se levantava e trabalhava até tarde da noite. Eu dormia uma ou duas horas, depois acordava, não o encontrava na cama, acendia a luz e lia até me cansar. Então ia até o escritório dele, obrigava-o a vir dormir. Ele me obedecia, mas se levantava de manhã cedo, parecia que o sono o assustava. Já eu continuava dormindo até o meio-dia.

Houve apenas um acontecimento que me deixou angustiada. Era o sétimo mês, a barriga já pesava bastante. Eu estava nos portões da metalúrgica Nuovo Pignone quando estourou uma briga e fugi. Talvez eu tenha feito um movimento errado, não sei, o fato é que senti uma fisgada dolorosíssima no centro da nádega direita, que se estendeu pela perna como um ferro quente. Voltei para casa mancando, deitei na cama, passou. Mas de vez em quando a dor reaparecia e se irradiava pela coxa até a virilha. Habituei-me a reagir buscando posições que a atenuassem, mas, quando me dei conta de que tendia a mancar continuamente, fiquei aterrorizada e fui ao professor que acompanhava meu pré-natal. Ele me acalmou, disse que estava tudo em ordem, o peso que eu carregava no ventre me cansava, causando um pouco de ciática. Por que está tão preocupada, me perguntou com um tom afetuoso, a senhora é uma pessoa tão serena. Menti, disse que não sabia. Na verdade eu sabia perfeitamente, era o temor de que os passos de minha mãe tivessem me alcançado, que tivessem se infiltrado em meu corpo, que eu passasse a mancar para sempre que nem ela.

Depois das palavras apaziguadoras do obstetra fiquei mais tranquila, a dor durou ainda um tempo, até sumir. Pietro me proibiu de fazer outras loucuras, chega dessa mania de correr para cá e para lá. Dei razão a ele, passei o último período da gravidez lendo, não escrevi quase nada. Nossa filha nasceu em 12 de fevereiro de 1970, às cinco e vinte da manhã. Demos-lhe o nome de Adele, embora minha sogra não parasse de repetir: coitada da menina, Adele é um nome horrível, deem qualquer outro nome a ela, mas não este. Dei à luz depois de dores atrozes, mas que duraram pouco. Quando vi a menina, cabelos pretíssimos, um organismo arroxeado que se retorcia e vagia cheio de vigor, experimentei um prazer físico tão arrebatador que ainda hoje não consigo achar nenhum prazer que se compare. Não a batizamos, minha mãe gritou coisas infames pelo telefone, jurou que nunca viria vê-la. Ela vai se acalmar, pensei entristecida; de todo modo, se não vier, pior para ela.

Assim que me recuperei do parto telefonei para Lila, não queria que se chateasse por eu não ter dito nada.

“Foi uma experiência maravilhosa”, disse a ela.

“O quê?”

“A gravidez, o parto. Adele é linda, e muito boazinha.”

Ela respondeu:

“Cada um conta a própria vida como acha melhor.”

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