História de quem foge e de quem fica
Capítulo 75
Enquanto aguardava que Lila fizesse sua leitura, soube-se que em Nápoles havia uma epidemia de cólera. Minha mãe se agitou exageradamente, depois ficou absorta, acabou quebrando uma sopeira de que eu gostava muito, anunciou que precisava voltar para casa. Logo intuí que, se a cólera tinha algum peso em sua decisão, o fato de eu ter recusado dar o nome dela a minha segunda filha não era algo secundário. Tentei segurá-la, mas ela me abandonou mesmo assim, quando eu ainda não havia me recuperado do parto e a perna continuava doendo. Não suportava mais sacrificar meses e meses da vida por minha causa, uma criatura que nascera dela sem nenhum respeito ou reconhecimento: preferia ir correndo morrer de vibrião com o marido e os filhos bons. No entanto, até a despedida, manteve a impassibilidade que eu exigira: não se lamentou, não resmungou, não me jogou nada na cara. Aceitou de bom grado que Pietro a acompanhasse de carro à estação. Sentia que o genro gostava dela e provavelmente — pensei — sempre se controlara não para me agradar, mas para não fazer feio diante dele. Só se comoveu quando precisou se separar de Dede. No patamar da escada, perguntou à menina em seu italiano forçado: está triste que vovó vai embora? Dede, que estava vivendo aquela partida como uma traição, respondeu enfezada: não.
Fiquei com mais raiva de mim do que dela. Depois fui tomada de uma fúria autodestrutiva e, poucas horas depois, demiti Clelia. Pietro ficou espantado, se assustou. Disse-lhe irritada que não aguentava mais lutar ora com o sotaque maremmano de Dede, ora com o napolitano de minha mãe: queria voltar a ser dona de minha casa e de meus filhos. Na verdade, me sentia culpada e tinha uma enorme necessidade de me punir. Com um prazer desesperado, me abandonei à ideia de que seria esmagada pelas duas meninas, pelos afazeres domésticos, pela perna doente.
Não tinha dúvida de que Elsa me submeteria a um ano não menos terrível do que aquele vivido com Dede. No entanto, talvez porque tivesse mais prática com recém-nascidos, talvez porque estivesse resignada a ser uma mãe ruim e abandonara a ânsia de perfeição, a menina grudou em meu peito sem problemas, entregando-se a longas mamadas e sonos intermináveis. Consequentemente também dormi bastante naqueles primeiros dias em casa, e para minha surpresa Pietro tratou de manter o apartamento limpo, fez as compras, cozinhou, deu banho em Elsa e brincou com Dede, que estava atordoada com o surgimento da irmãzinha e a partida da avó. A dor na perna cessou de repente. E no fim das contas eu estava tranquila, até que, num fim de tarde, enquanto cochilava, meu marido veio me acordar: sua amiga de Nápoles está no telefone, disse. Corri para atender.
Lila tinha conversado bastante com Pietro, disse que não via a hora de conhecê-lo pessoalmente. Ouvi sem vontade o que ela me dizia — Pietro era sempre afável com quem não pertencia ao mundo de seus pais — e, como ela se demorava em frases que me pareceram de uma alegria nervosa, estive a ponto de gritar: dei a você a possibilidade de me fazer todo o mal possível, vamos logo, fale, você ficou treze dias com o livro, me diga o que você pensa sobre ele. Em vez disso, limitei-me a interrompê-la bruscamente:
“Você leu ou não?”
Ficou séria.
“Li.”
“E então?”
“É bom.”
“Bom como? O livro lhe pareceu interessante, divertido, tedioso?”
“Interessante.”
“Quanto? Muito, pouco?”
“Muito.”
“E por quê?”
“Pela história: dá vontade de ler.”
“E o que mais?”
“O que mais o quê?”
Fui dura, falei:
“Lila, eu preciso absolutamente saber como é esse troço que escrevi e não tenho mais ninguém que me possa dizer isso, somente você.”
“É o que estou fazendo.”
“Não, não é verdade, você está me enrolando: você nunca falou de modo tão superficial quanto agora.”
Houve um longo silêncio. Imaginei-a sentada de pernas cruzadas, ao lado de uma feia mesinha onde estava apoiado o telefone. Talvez ela e Enzo tivessem acabado de voltar do trabalho, talvez Gennaro estivesse brincando ali por perto. Falou:
“Eu tinha dito a você que não sei mais ler.”
“Não é este o ponto: a questão é que preciso de você, e você não está nem aí.”
Outro silêncio. Então resmungou algo que não entendi, talvez um insulto. Disse com dureza, ressentida: eu faço um tipo de trabalho, você faz outro, o que quer de mim, foi você que estudou, é você quem sabe como os livros devem ser. Depois sua voz se rompeu e ela quase gritou: você não deve escrever essas coisas, Lenu, você não é isso, nada do que li se parece com você, é um livro feio, feio, feio — e o anterior também era.
Assim. Frases velozes e entrecortadas, como se a respiração suave de repente se tornasse sólida e não conseguisse mais entrar e sair da garganta. Senti dor de estômago, uma dor forte acima do ventre, que cresceu, mas não pelo que ela dissera, e sim por como o dissera. Estava soluçando? Exclamei ansiosa: Lila, o que foi, se acalme, vamos, respire. Não se acalmou. De fato, eram soluços, pude ouvi-los nitidamente tão carregados de sofrimento que não consegui sentir a ferida daquele feio, Lenu, feio, feio, nem me ofendi por ter reduzido meu primeiro livro — o livro que vendera tanto, o livro do meu sucesso, sobre o qual ela nunca se pronunciara de verdade — a um fracasso. O que me fez mal foi seu choro. Eu não estava preparada, não esperava aquilo. Teria preferido a Lila cruel, teria preferido seu tom pérfido. Mas não, ela soluçava e não conseguia parar.
Me senti perdida. Tudo bem, pensei, escrevi dois livros ruins, mas e daí?, esse sofrimento é bem mais grave. Então murmurei: Lila, por que esse choro, eu é que devia estar chorando, pare com isso. Mas ela estrilou: por que você me forçou a ler, por que me obrigou a dizer o que penso? Eu devia guardar para mim. E eu: não, estou contente por você ter falado, lhe juro. Queria que sossegasse, mas ela não conseguia, e continuou despejando em mim frases desconexas: não me faça ler mais nada, não sou capaz, espero o máximo de você, tenho certeza de que sabe fazer melhor, quero que você faça melhor, é a coisa que mais desejo, pois quem sou eu se você não for excelente, quem sou eu? Murmurei: não se preocupe, me diga sempre o que pensa, só assim você pode me ajudar, e me ajudou desde que éramos pequenas, eu sem você não sou capaz de nada. Ela finalmente sufocou os soluços e sussurrou, fungando o nariz: não sei por que comecei a chorar, sou mesmo uma cretina. Riu: não queria lhe dar um desgosto, tinha preparado todo um discurso positivo, imagine que até o escrevi, queria dar uma boa impressão. Insisti para que me mandasse o texto, disse: pode ser que você saiba melhor que eu o que devo escrever. Nessa altura deixamos o livro de lado, anunciei que Elsa tinha nascido, falamos de Florença, de Nápoles, da cólera. Que cólera — ironizou —, não há nenhuma cólera, há apenas a confusão de sempre e o medo de morrer na merda, mais medo que fatos, não há fatos, comemos um monte de limões e ninguém mais caga.
Agora falava sem freios, quase alegre, tinha se livrado de um peso. Então tornei a sentir a cilada em que eu estava — duas filhas pequenas, um marido em geral ausente, o desastre do novo livro —, mas não fiquei ansiosa, ao contrário, me senti leve, e fui eu mesma que reconduzi a conversa ao meu fracasso. Tinha em mente frases do tipo: a corda arrebentou, aquele seu fluxo que me influenciava positivamente secou, agora estou realmente sozinha. Mas não falei nada. Em vez disso, confessei num tom autoirônico que por trás do esforço daquele livro havia o desejo de acertar as contas com o bairro, que tive a impressão de estar representando as grandes mudanças que testemunhara, que o que de algum modo me inspirou, me encorajou a escrevê-lo, tinha sido a história de dom Achille e da mãe dos Solara. Ela caiu na risada. Disse que a face nojenta das coisas não era suficiente para escrever um romance: sem imaginação não parecia uma face verdadeira, mas uma máscara.
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