História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 51 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 50

A partir daquele momento tudo começou a fluir, quase como se eu tivesse a arte de fazer os eventos correrem como água da nascente. Até Pietro trabalhou para Lila. O tal colega helenista revelou-se um literato tagarela, mas se mostrou igualmente útil: conhecia um tal de Bologna, de fato especialista em calculadores — a fonte confiável de suas fantasias de filólogo —, que lhe dera o número de um conhecido de Nápoles, considerado também confiável. Ditou-me nome, sobrenome, endereço e telefone do tal senhor napolitano, e eu o papariquei muito, ironizei com carinho aquele seu esforço empreendedor, até estalei um beijo no telefone.

Fui logo ver Lila. Estava com uma tosse cavernosa, o rosto tenso e pálido, o olhar excessivamente vigilante. Mas eu levava ótimas notícias e estava contente. Sacudi-a, abracei-a, segurei forte suas mãos e lhe falei da conversa que tive com Bruno por telefone, li o artigo que tinha preparado, listei os resultados da zelosa dedicação de Pietro, de minha sogra, de minha cunhada. Escutou-me como se eu falasse de muito longe — um outro mundo no qual eu adentrara —, e só conseguisse ouvir com clareza metade das coisas que eu dizia. Além disso, Gennaro a puxava sem parar para que brincassem juntos, e ela, enquanto eu falava, prestava atenção a ele sem entusiasmo. Mesmo assim me senti contente. No passado, Lila tinha aberto a gaveta milagrosa da charcutaria e me comprara de tudo, especialmente livros. Agora eu abria minhas gavetas e retribuía, esperando que se sentisse segura como eu já me sentia.

“Então”, finalmente indaguei, “amanhã você vai ao cardiologista?”

Reagiu à pergunta de modo incongruente e falou com uma risadinha:

“Nadia não vai gostar desse modo de enfrentar as coisas. Nem o irmão dela.”

“Que modo? Não entendi.”

“Nada.”

“Lila”, eu disse, “por favor, o que Nadia tem a ver com isso, não lhe dê mais importância do que ela mesma já se dá. Quanto a Armando, deixe ele pra lá, sempre foi um rapaz superficial.”

Eu mesma me surpreendi com aqueles julgamentos, no fim das contas sabia pouco dos filhos da Galiani. E por uns segundos tive a impressão de que Lila não me reconhecesse, mas visse diante de si um espírito que se aproveitava de sua fraqueza. Na realidade, mais que falar mal de Nadia e de Armando, só queria que ela entendesse que as hierarquias de poder eram outras, que em comparação aos Airota os Galiani não contavam nada, que contava menos ainda gente como Bruno Soccavo ou o bonitão do Michele, que enfim ela devia fazer como eu dizia e não se preocupar. Porém, já enquanto eu falava, me dei conta de que arriscava parecer arrogante e lhe acariciei a bochecha, de todo modo me mostrei muito admirada com o empenho político dos dois irmãos e completei, rindo: mas confie em mim. Ela resmungou:

“Tudo bem, vamos ao cardiologista.”

Insisti:

“E quanto a Enzo, o que devo decidir? Em que dia marco o encontro, em que horário?”

“Quando quiser, mas depois das cinco.”

Assim que voltei para casa corri ao telefone. Liguei para o advogado, expliquei detalhadamente a situação de Lila. Telefonei ao cardiologista, confirmei a consulta. Telefonei ao expert em calculadores, que trabalhava na Secretaria de Desenvolvimento: me disse que as apostilas de Zurique não serviam para nada, mas que de todo modo eu podia mandar Enzo encontrá-lo em tal dia, em tal hora e em tal endereço. Telefonei ao Unità, o redator me disse: vejo que a senhora não tem pressa, vai me trazer o artigo ou esperamos até o Natal? Telefonei à secretária de Soccavo, pedi que informasse ao patrão que, como ele não tinha dado notícias, em breve sairia um artigo meu no Unità.

Essa minha última chamada teve uma reação imediata e violenta. Soccavo me ligou dois minutos depois e dessa vez não se mostrou amigável, ao contrário, me ameaçou. Respondi que a qualquer momento ele iria receber uma visita da inspetoria do trabalho e um advogado que cuidaria dos interesses de Lila. Então, prazerosamente exaltada — estava orgulhosa do combate, por afeto e por convicção, contra a injustiça, nas barbas de Pasquale e de Franco, que achavam que ainda podiam me dar lições —, à noite corri ao Unità e entreguei meu artigo.

O homem com quem eu tinha falado era de meia-idade, baixa estatura, roliço, com olhinhos vivazes permanentemente acesos por uma ironia benévola. Acomodou-me numa cadeira escangalhada e leu o artigo com atenção. Por fim, pôs as folhas na escrivaninha e disse:

“E isto são sessenta linhas? Me parecem cento e cinquenta.”

Senti o rosto corar, murmurei:

“Contei várias vezes, são sessenta.”

“Sim, mas escritas à mão com uma letra que não dá para ler nem com uma lupa. Mas o texto realmente está ótimo, companheira. Arranje em algum lugar uma máquina de escrever e corte o que conseguir cortar.”

“Agora?”

“E quando? Uma vez na vida eu tenho algo que alguém vai ler e você quer que eu espere as calendas gregas?”

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