História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 80 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Capítulo 79

Na verdade, Pietro não conseguia aceitar a desordem agora difusa em cada âmbito da existência. Teria preferido uma vida regrada por hábitos indiscutíveis: estudar, ensinar, brincar com as meninas, fazer amor, contribuir a cada dia, em seu pequeno raio de ação, para desembaraçar de acordo com a democracia o complicadíssimo emaranhado italiano. Em vez disso, estava extenuado com os conflitos universitários, seus colegas denegriam seu trabalho que, no entanto, tinha cada vez mais crédito no exterior, sentia-se continuamente vilipendiado e ameaçado, tinha a impressão de que, por conta de minha inquietude (mas que inquietude, eu era uma mulher opaca), nossa própria família estivesse exposta a contínuos riscos. Numa tarde, Elsa estava brincando sozinha, eu obrigava Dede a exercícios de leitura, ele estava fechado no escritório, a casa estava imóvel. Pietro — pensei nervosa — aspira a uma fortaleza em que possa trabalhar em seu livro, eu me preocupo com a economia doméstica e as meninas crescem serenamente. Depois veio a descarga elétrica da campainha, corri para abrir e, de surpresa, entraram em casa Pasquale e Nadia.

Estavam carregando pesadas mochilas militares, ele usava um chapéu surrado sobre uma massa cheíssima de cabelos crespos que caíam numa barba igualmente cheia e crespa, ela parecia mais magra e cansada, com olhos enormes, de menina assustada que finge não ter medo. Tinham conseguido nosso endereço com Carmen, que por sua vez o obtivera com minha mãe. Ambos foram afetuosos, e eu também, como se nunca tivéssemos tido tensões ou divergências. Ocuparam a casa deixando coisas espalhadas por todo lado. Pasquale falava muito, em voz alta, quase sempre em dialeto. No início ambos me pareceram uma agradável interrupção em meu cotidiano monótono. Mas logo me dei conta de que Pietro não gostava deles. Ficou irritado por não terem telefonado antes avisando da chegada, por ambos se comportarem com excessiva desenvoltura. Nadia tirou os sapatos e se espreguiçou no sofá. Pasquale continuou com o chapéu na cabeça, tocou em objetos, folheou livros, pegou na geladeira uma cerveja para si e para Nadia sem pedir permissão, bebeu no gargalo e arrotou de um jeito que fez Dede rir. Disseram que tinham decidido dar um rolé, falaram exatamente dar um rolé, sem especificar. Quando tinham saído de Nápoles? Foram vagos. Quando voltariam para lá? Foram igualmente vagos. E o trabalho? — perguntei a Pasquale. Ele riu: chega, já trabalhei demais, agora descanso. E mostrou as mãos a Pietro, quis que ele mostrasse as dele, esfregou palma contra palma dizendo: sente a diferença? Depois pegou o Lotta Continua e passou a direita sobre a primeira página, orgulhoso do som que fazia o papel raspado pela pele áspera, alegre como se tivesse inventado um novo jogo. Então acrescentou quase ameaçador: sem estas mãos de lixa, professô, não existiria nenhuma cadeira sequer, nenhum prédio, um automóvel, nada, nem sequer você; se nós, trabalhadores, deixássemos de labutar, tudo pararia, o céu cairia por terra e a terra salpicaria no céu, as plantas retomariam as cidades, o Arno alagaria suas belas casas, e somente quem sempre labutou saberia como sobreviver, enquanto vocês dois, com todos os seus livros, seriam trucidados pelos cães.

Foi um discurso ao modo de Pasquale, exaltado e sincero, que Pietro escutou sem replicar. Assim como Nadia, que, enquanto seu companheiro falava, se mantinha séria, deitada no sofá, os olhos fixos no teto. Ela pouco interveio na conversa entre os dois homens, nem disse nada a mim. Mas, quando fui preparar o café, me acompanhou até a cozinha. Notou que Elsa estava sempre grudada em mim e disse séria:

“Ela gosta muito de você.”

“É muito pequena.”

“Está dizendo que quando crescer não vai mais gostar de você?”

“Não, espero que goste de mim também quando estiver grande.”

“Minha mãe falava muitíssimo de você. Era só uma aluna dela, mas parecia mais filha do que eu.”

“É mesmo?”

“Eu odiava você por isso, e também porque tomou Nino de mim.”

“Não foi por mim que ele deixou você.”

“Estou me lixando, agora nem me lembro mais da cara que ele tinha.”

“Quando eu era novinha, queria ser que nem você.”

“Pra quê? Você acha que nascer e já encontrar tudo de mão beijada é uma coisa boa?”

“Bem, você precisa batalhar menos.”

“Você se engana, a verdade é que tudo parece já feito e você não tem nenhum bom motivo para se esforçar. Sente apenas a culpa pelo que você é sem ter merecido.”

“Melhor que sentir a culpa de ter fracassado.”

“É o que sua amiga Lina lhe diz?”

“Não, não.”

Nadia fez um movimento agressivo com a cabeça e uma expressão pérfida, que nunca pensaria ver nela. Disse:

“Prefiro ela a você. Vocês são duas merdinhas que nunca vão mudar, dois exemplares da escória subproletária. Mas você se faz de simpática, Lina, não.”

Deixou-me na cozinha sem palavras. Ouvi que ela gritava a Pasquale, vou tomar uma ducha, e você também devia dar uma enxaguada no corpo. Os dois se fecharam no banheiro. Escutamos suas risadas, ela lançava gritinhos que — percebi — deixavam Dede muito preocupada. Quando saíram estavam seminus, os cabelos molhados, felicíssimos. Continuaram brincando entre si como se não estivéssemos ali. Pietro tentou se intrometer com perguntas do tipo: há quanto tempo vocês estão juntos? Nadia respondeu friíssima: não estamos juntos, talvez vocês dois estejam juntos. Ele então perguntou com o tom birrento que costumava exibir nos casos em que as pessoas lhe pareciam superficiais: o que significa? Você não conseguiria entender, respondeu Nadia. Meu marido objetou: quando alguém não consegue entender, os outros tentam explicar. Neste ponto Pasquale interveio, rindo: não há nada a explicar, professô; você precisa pensar que está morto e não sabe; tudo está morto, o modo como vocês vivem, como falam, a convicção de serem inteligentíssimos, democratas e de esquerda. Como se pode explicar algo a quem está morto?

Houve um momento de tensão. Eu não disse nada, não conseguia tirar da cabeça os insultos de Nadia, assim, como se nada fosse, na minha própria casa. Finalmente eles foram embora, quase sem avisar, assim como tinham chegado. Pegaram as coisas deles e desapareceram. Pasquale apenas disse da soleira, com um tom subitamente triste:

“Tchau, senhora Airota.”

Senhora Airota. Até meu amigo do bairro estava me julgando negativamente? Queria dizer que, para ele, eu não era mais Lenu, Elena, Elena Greco? Para ele e para todos os outros? Até para mim? Eu mesma não usava quase sempre o sobrenome de meu marido, agora que o meu tinha perdido aquele pouco de prestígio que havia conquistado? Recoloquei a casa em ordem, principalmente o banheiro, que os dois tinham deixado em péssimo estado. Pietro disse: não quero nunca mais esses dois em minha casa; alguém que fala assim do trabalho intelectual é um fascista, mesmo que não saiba; quanto a ela, é um tipo que conheço muito bem, não tem nada na cabeça.

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