História de quem foge e de quem fica

Elena Ferrante · Capítulo 2 de 124

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História de quem foge e de quem fica

Tempo Intermédio

 

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1.

Encontrei Lila pela última vez cinco anos atrás, no inverno de 2005. Estávamos passeando de manhã cedo pelo estradão e, como há anos vinha acontecendo, não conseguíamos nos sentir à vontade. Lembro que apenas eu falava; ela cantarolava, cumprimentava gente que nem respondia, e nas raras vezes que me interrompia só pronunciava frases exclamativas, sem um nexo evidente com o que eu dizia. Ao longo dos anos, muita coisa ruim tinha ocorrido, algumas horríveis, e para retomar a via da intimidade teríamos de nos fazer confidências secretas, mas eu não tinha a força para encontrar as palavras, e ela — a quem talvez não faltasse força — não tinha a vontade, nem via utilidade nisso.

De todo modo eu gostava muito dela e sempre que ia a Nápoles procurava encontrá-la, ainda que — devo dizer — sentisse um certo medo. Ela estava muito mudada. A velhice já tinha levado a melhor sobre nós duas, mas, enquanto eu combatia a tendência a ganhar peso, ela se estabilizara numa magreza só pele e ossos. Tinha cabelos curtos, que ela mesma cortava, e muito brancos: não por escolha, mas por desleixo. O rosto, bastante marcado, lembrava cada vez mais o do pai. Ria de nervoso, quase um guincho, e falava altíssimo. Gesticulava sem parar, dando ao gesto uma determinação tão feroz que parecia querer cortar em dois os edifícios, a rua, os passantes, a mim.

Estávamos na altura da escola fundamental quando um homem jovem, que eu não conhecia, correu para nós e gritou para ela que, em um canteiro ao lado da igreja, tinha sido encontrado o cadáver de uma mulher. Fomos depressa para os jardinzinhos, Lila me arrastou em meio ao círculo de curiosos abrindo caminho com maus modos. A mulher jazia de lado, era extraordinariamente gorda, vestia um impermeável verde escuro e fora de moda. Lila a reconheceu num instante, eu, não: era nossa amiga de infância Gigliola Spagnuolo, ex-mulher de Michele Solara.

Eu não a encontrava havia décadas. O rosto bonito se estragara, os tornozelos estavam enormes. Os cabelos, antigamente castanhos, eram agora de um vermelho fogo, longo como quando era uma garota, mas ralos, espalhados sobre o humo revolvido. Apenas um dos pés calçava um sapato de salto baixo, muito gasto; o outro estava metido numa meia de lã cinza, furada no dedão, ao passo que o sapato estava um metro e meio mais à frente, como se tivesse se desprendido depois de um chute provocado por dor ou por espanto. Caí no choro, e Lila me olhou com fastio.

Sentadas em um banco perto dali, aguardamos em silêncio que Gigliola fosse levada embora. O que havia acontecido com ela, como tinha morrido, por ora não se sabia. Depois fomos para a casa de Lila, o velho e pequeno apartamento dos pais, onde agora ela morava com o filho Rino. Conversamos sobre nossa amiga, ela me falou mal dela, da vida que tinha levado, das pretensões, das deslealdades. Mas neste momento era eu quem não conseguia ouvir, pensava naquele rosto de perfil na terra, em como eram ralos os cabelos compridos, nas manchas esbranquiçadas do crânio. Quantas pessoas que tinham sido crianças com a gente e não estavam mais vivas, desaparecidas da face da terra por doença, porque os nervos não tinham resistido à lixa dos tormentos, porque seu sangue tinha sido derramado. Por um tempo ficamos absortas na cozinha, sem que nenhuma das duas se decidisse a tirar a mesa, e então saímos de novo.

O sol do belo dia de inverno conferia às coisas um aspecto sereno. O bairro velho, diferentemente de nós, permanecera idêntico. Resistiam as casas baixas e cinzentas, o pátio de nossas brincadeiras, o estradão, as bocas escuras do túnel e a violência. No entanto a paisagem em torno mudara. A extensão esverdeada dos pântanos não existia mais, a velha fábrica de conservas desaparecera. Em seu lugar havia o brilho dos espigões de vidro, noutros tempos sinais de um futuro radiante no qual ninguém nunca acreditou. Com o passar dos anos todos registraram as mudanças, às vezes com curiosidade, quase sempre distraidamente. Quando menina eu imaginava que, para além do bairro, Nápoles oferecesse maravilhas. O arranha-céu da estação central, por exemplo, me fascinara muito, décadas atrás, por sua elevação andar a andar, um esqueleto de edifício que então nos parecia altíssimo, ao lado da arrojada estação ferroviária. Como eu me surpreendia quando passava pela piazza Garibaldi: olha só como é alto, dizia a Lila, a Carmen, a Pasquale, a Ada, a Antonio, a todos os colegas daquela época, com os quais eu caminhava até o mar, margeando os bairros ricos. Lá no alto — pensava — moram os anjos, e certamente usufruem toda a cidade. Como eu gostaria de subir até lá, escalar até o topo. Era o nosso arranha-céu, mesmo estando fora do bairro, uma coisa que víamos crescer dia a dia. Mas a obra foi interrompida. Quando eu voltava de Pisa para casa, o arranha-céu da estação, em vez de símbolo de uma comunidade que estava se renovando, me parecia mais um nicho da ineficiência.

Naquele período me convenci de que não havia grande diferença entre o bairro e Nápoles, o mal-estar escoava de um para o outro sem interrupções. A cada retorno encontrava uma cidade cada vez mais de estuque, que não resistia às mudanças de estação, ao calor, ao frio, sobretudo aos temporais. E logo a estação da piazza Garibaldi se alagava, logo vinha abaixo a Galeria em frente ao Museu, logo havia um deslizamento de terra, e a luz elétrica não voltava mais. Guardava na memória ruas escuras e cheias de perigo, um trânsito cada vez mais caótico, a pavimentação irregular, poças enormes. Os bueiros entupidos transbordavam, regurgitavam. Lavas de água, esgoto, lixo e bactérias se despejavam no mar vindas das colinas repletas de construções novíssimas e frágeis, ou erodiam o mundo de baixo. As pessoas morriam por incúria, corrupção, opressão e, apesar de tudo, a cada turno eleitoral, dava seu consenso entusiástico aos políticos que tornavam sua vida insuportável. Assim que descia do trem, movia-me com cautela nos lugares onde eu tinha crescido, atenta para falar sempre em dialeto, como para assinalar sou um de vocês, não me façam mal.

Quando me formei, quando escrevi de jato uma história que, de modo totalmente inesperado, em poucos meses se transformou em um livro, os elementos do mundo de onde eu vinha me pareceram ainda mais deteriorados. Enquanto em Pisa ou Milão eu me sentia bem, às vezes até feliz, em minha cidade natal temia a cada retorno que algum imprevisto me impedisse de fugir dali, que as coisas que eu tinha conquistado fossem tiradas de mim. Não poderia mais ir encontrar Pietro, com quem deveria me casar em breve; o espaço impecável da editora me seria vetado; não poderia mais usufruir as gentilezas de Adele, minha futura sogra, uma mãe como nunca tive. Já no passado a cidade me parecera lotada, uma única multidão que se estendia da piazza Garibaldi até Forcella, Duchesca, Lavinaio, Rettifilo. No final dos anos 1960, tive a impressão de que a multidão aumentara, de que a intolerância e a agressividade estavam se espalhando de modo incontrolável. Numa manhã fui até a via Mezzocannone, onde anos antes eu tinha trabalhado como atendente numa livraria. Fui por curiosidade, para ver o lugar em que passara horas de trabalho, especialmente para dar uma olhada na universidade, onde eu nunca tinha entrado. Queria compará-la com a de Pisa, com a Normal, esperava até cruzar com os filhos da professora Galiani — Armando, Nadia — e me gabar do que eu tinha sido capaz de fazer. Mas a rua, os espaços universitários me deram angústia, estavam cheios de estudantes napolitanos, da província e de todo o Sul, jovens bem-vestidos, barulhentos, seguros de si, e de rapazes de modos grosseiros e ao mesmo tempo subalternos. Aglomeravam-se nas entradas, dentro das salas, em frente às secretarias onde havia longas filas, onde frequentemente surgiam animosidades. Três ou quatro trocaram socos sem aviso prévio a poucos passos de mim, como se tivesse bastado se verem para chegar a uma explosão de insultos e agressões físicas, uma fúria de homem berrando sua vontade de sangue num dialeto que eu mesma tinha dificuldade de entender. Fui embora depressa, como se algo ameaçador me tivesse atingido em um local que eu imaginava seguro, habitado apenas por boas razões.

Enfim, cada ano me parecia pior. Naquele período de chuvas, a cidade estava mais uma vez colapsada, um prédio inteiro pendera de lado como uma pessoa que se apoia no braço carcomido de uma velha poltrona e o braço cede. Mortos, feridos. E gritos, massacres, bombas caseiras. Parecia que a cidade gestava nas vísceras uma fúria que não conseguia extravasar e por isso mesmo a corroía, ou irrompia em pústulas epidérmicas, inchadas de veneno contra todos, crianças, adultos, velhos, gente de outras cidades, americanos da Otan, turistas de qualquer nacionalidade, os próprios napolitanos. Como era possível resistir naquele lugar de desordem e perigo, na periferia, no centro, nas colinas, sob o Vesúvio? Que impressão horrível me causara San Giovanni a Teduccio, a viagem para chegar até lá. Que impressão horrível me deu a fábrica em que Lila trabalhava, e a própria Lila, Lila com o filho pequeno, Lila que, num edifício miserável, vivia com Enzo embora não dormissem juntos. Tinha dito que ele queria estudar o funcionamento das calculadoras eletrônicas e que ela estava tentando ajudá-lo. Ficou em minha memória a voz dela tentando apagar San Giovanni, os embutidos, o cheiro da fábrica, sua condição, citando com fingida competência siglas do tipo: Centro de cibernética da Estatal de Milão, Centro soviético para a aplicação dos computadores nas ciências sociais. Queria me fazer acreditar que em breve surgiria um centro daquele gênero também em Nápoles. Aí pensei: em Milão talvez sim, com certeza na União Soviética, mas aqui não, aqui são delírios de sua cabeça incontrolável, para dentro dos quais você também está arrastando o pobre e devotíssimo Enzo. Em vez disso, ir embora. Escapar definitivamente, para longe da vida que tínhamos experimentado desde o nascimento. Fixar-se em territórios bem organizados, onde realmente tudo era possível. E de fato foi o que eu fiz. Mas só para descobrir, nas décadas seguintes, que eu tinha me enganado, que se tratava de uma corrente com anéis cada vez maiores: o bairro remetia à cidade, a cidade, à Itália, a Itália, à Europa, a Europa, a todo o planeta. E hoje eu vejo assim: não é o bairro que está doente, não é Nápoles, é o globo terrestre, é o universo, ou os universos. E a habilidade consiste em ocultar e esconder para si o real estado das coisas.

Falei a respeito disso com Lila naquela tarde, no inverno de 2005, como para fazer uma reparação. Queria reconhecer que ela havia compreendido tudo desde pequena, sem jamais ter saído de Nápoles. Mas me envergonhei quase imediatamente, senti em minhas palavras o pessimismo rabugento de quem envelhece, o tom que — eu sabia — ela detestava. De fato, me mostrou os dentes envelhecidos num sorriso que era uma careta nervosa e disse:

“Agora vai bancar a sábia, proferir sentenças? Quais são suas intenções? Quer escrever sobre nós? Quer escrever sobre mim?”.

“Não.”

“Diga a verdade.”

“Seria muito complicado.”

“Mas pensou nisso, e continua pensando.”

“Um pouco, sim.”

“Me deixe em meu canto, Lenu. Deixe todo mundo pra lá. Nós devemos desaparecer, não merecemos nada, nem Gigliola nem eu, ninguém.”

“Isso não é verdade.”

Fez uma feia expressão de descontentamento e me perscrutou com pupilas que mal se viam, a boca entreaberta.

“Tudo bem”, disse, “escreva, se faz tanta questão, escreva sobre Gigliola, sobre quem quiser. Mas não sobre mim, nem tente, me prometa.”

“Não vou escrever sobre ninguém, nem sobre você.”

“Olha lá, estou de olho em você.”

“É mesmo?”

“Vou vasculhar seu computador, ler seus arquivos, apagar um por um.”

“Que nada.”

“Acha que não sou capaz?”

“Eu sei que você é capaz. Mas sei me proteger.”

Riu com seu velho jeito maldoso.

“De mim, não.”

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