História de quem foge e de quem fica
Capítulo 62
Não recordo nada de meu casamento. O auxílio de algumas fotos, ao invés de mover a memória, congelou-a em torno de umas poucas imagens: Pietro com uma expressão distraída, eu com aparência irritada, minha mãe fora de foco, mas mesmo assim conseguindo se mostrar descontente. Ou não. É do ritual em si que não lembro nada, mas tenho em mente a longa discussão que tive com Pietro dias antes de nos casarmos. Disse a ele que pretendia tomar a pílula para não ter filhos, que me parecia urgente tentar antes de tudo escrever outro livro. Estava certa de que contaria imediatamente com sua concordância. Em vez disso, para minha surpresa, ele se mostrou contrário. Primeiro fez disso um problema jurídico, a pílula ainda não estava sendo oficialmente comercializada; depois disse que muitos falavam que ela fazia mal à saúde; então passou a uma argumentação complicada sobre sexo, amor e fecundação; por fim resmungou que, se alguém realmente precisa escrever, escreve de qualquer jeito, mesmo esperando um bebê. Fiquei incomodada, me enfureci, aquela reação me pareceu incoerente com o jovem culto que tinha exigido o casamento apenas no civil, e disse isso a ele. Brigamos. Chegamos ao dia do matrimônio sem fazermos as pazes, ele mudo, eu fria.
Houve ainda outra surpresa que não se apagou: a recepção. Tínhamos decidido casar, nos despedir dos parentes e ir para casa sem nenhum tipo de festa. Aquela escolha havia amadurecido fundindo a vocação ascética de Pietro com minha tendência a mostrar que eu não pertencia mais ao mundo de minha mãe. Mas nossa linha de conduta foi secretamente minada por Adele. Ela nos arrastou para a casa de uma amiga, para um brinde, e ali Pietro e eu nos vimos no centro de uma grande recepção numa nobilíssima mansão florentina, entre um considerável número de parentes dos Airota e pessoas conhecidas, algumas conhecidíssimas, que ficaram lá até a noite. Meu marido ficou taciturno, e eu me perguntei desorientada por que, já que de fato se tratava da festa do meu casamento, eu teria de me limitar a convidar apenas meus pais e irmãos. Indaguei a Pietro:
“Você sabia que as coisas estavam nesse pé?”
“Não.”
No início enfrentamos juntos a situação. Mas logo ele se mostrou refratário às tentativas da mãe e da irmã de apresentá-lo ora a um, ora a outro convidado, isolou-se num canto com meus parentes e conversou com eles durante todo o tempo. Eu a princípio me resignei — com certo desconforto — a habitar a arapuca em que tínhamos caído, depois comecei a achar excitante que políticos famosos, intelectuais prestigiosos, jovens revolucionários e até um poeta e um romancista muito conhecidos demonstrassem interesse por mim, pelo meu livro, e me elogiassem pelos artigos no Unità. O tempo voou, e me senti cada vez mais aceita no mundo dos Airota. Até meu sogro quis me ter a seu lado, perguntando-me com gentileza sobre minhas competências em questões relativas ao trabalho. Em pouco tempo se formou um círculo, pessoas empenhadas em refletir nos jornais e revistas sobre a maré de reivindicações que estava tomando conta do país. E eu, eu estava ali, ao lado deles, e aquela era a minha festa, e eu estava no centro dos debates.
A certa altura meu sogro elogiou muito um artigo publicado no Mondo Operaio que, segundo ele, expunha o problema da democracia na Itália com límpida inteligência. Graças a uma grande quantidade de dados, o texto substancialmente mostrava que enquanto a rai, os grandes jornais, a escola, a universidade e a magistratura trabalhassem dia e noite para consolidar a ideologia dominante, a concorrência eleitoral resultaria de fato truncada, e os partidos operários nunca teriam votos suficientes para governar. Sinais de concordância, citações em defesa daquela tese, referências a essa e aquela contribuição. Por fim o professor Airota, com toda sua autoridade, disse o nome do autor do artigo, e eu soube antes mesmo que o pronunciasse — Giovanni Sarratore — que se tratava de Nino. Fiquei tão contente que não consegui me conter, disse que o conhecia, chamei Adele para que confirmasse a meu marido e aos presentes como meu amigo napolitano era brilhante.
Nino participou de meu casamento mesmo não estando presente, e ao falar sobre ele me senti autorizada a falar também sobre mim, sobre as razões que me levaram a tratar das lutas dos trabalhadores, da necessidade de fornecer elementos para que partidos e representantes parlamentares da esquerda superassem os atrasos que tinham acumulado na compreensão da quadra política e econômica em curso e assim por diante, com fórmulas que eu tinha aprendido fazia pouco, mas que usei com desenvoltura. Me senti poderosa. Fiquei cada vez mais bem-humorada, gostei de estar ao lado de meus sogros e de me sentir apreciada por seus amigos. No final, quando meus parentes se despediram tímidos e correram para se abrigar não sei onde, à espera do primeiro trem que os levasse de volta a Nápoles, eu já não tinha vontade de manter a cara amarrada para Pietro. Coisa que ele deve ter notado, já que, por sua vez, ficou mais carinhoso e diluiu qualquer tensão.
Assim que chegamos ao nosso apartamento e fechamos a porta de casa, começamos a fazer amor. No início gostei muito, mas o dia ainda me reservava um fato surpreendente. Antonio, meu primeiro namorado, quando se esfregava em mim era rápido e intenso; Franco fazia enormes esforços para se conter, mas a certa altura saía de dentro de mim com um estertor ou, quando estava usando preservativo, de repente parava e parecia se tornar mais pesado, me esmagava sob seu peso rindo em meu ouvido. Já Pietro se esforçou por um tempo que me pareceu eterno. Entrava em mim com investidas calculadas, violentas, tanto que o prazer inicial se atenuou aos poucos, vencido pela insistência monótona e pela dor que sentia no ventre. Ele se cobriu de suor pelo demorado esforço, talvez pelo sofrimento, e ao ver seu rosto e o pescoço banhados, ao tocar suas costas empapadas, o desejo sumiu inteiramente. Mas ele não se deu conta, continuou a sair e a afundar dentro de mim com força, no mesmo ritmo, sem parar nunca. Eu não sabia como me comportar; acariciava-o, sussurrava-lhe palavras de amor e torcia para que parasse. Quando explodiu num rugido e desabou finalmente exausto, me senti contente, apesar de dolorida e insatisfeita.
Ficou pouquíssimo tempo na cama, levantou-se, foi ao banheiro. Esperei-o por alguns minutos, mas estava cansada e mergulhei no sono. Acordei assustada depois de uma hora e me dei conta de que ele não tinha voltado para a cama. Encontrei-o no escritório, sentado à escrivaninha.
“O que você está fazendo?”
Ele sorriu.
“Trabalhando.”
“Venha dormir.”
“Vá você, estou indo mais tarde.”
Tenho certeza de que engravidei naquela noite.
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