História de quem foge e de quem fica
Capítulo 32
Dias depois os problemas começaram. Lila chegou ao trabalho de manhã cedo, sobrecarregada por mil incumbências e totalmente despreparada para o que estava prestes a acontecer. Fazia muito frio, há dias ela estava tossindo, com um resfriado. Já na estrada encontrou dois rapazes, deviam ter decidido cabular a escola. Um deles a cumprimentou com certa intimidade e lhe deu não um folheto, como é mais comum, mas um caderninho mimeografado de várias páginas. Ela respondeu ao cumprimento com um olhar perplexo, tinha visto o rapaz no comitê da via dei Tribunali. Depois meteu o fascículo no bolso do capote e passou por Filippo, o vigia, sem sequer lhe dirigir o olhar, tanto que ele gritou: olha lá, hein, agora não se diz nem bom dia?
Trabalhou com o afinco de sempre — naquele período estava na descarnagem — e se esqueceu do rapaz. Na hora do almoço foi para o pátio com a marmita e procurou um cantinho ao sol para comer, mas Filippo, assim que a avistou, saiu da guarita e caminhou até ela. Era um homem de seus cinquenta anos, de baixa estatura, pesado, propenso às obscenidades mais asquerosas, mas também inclinado a sentimentalismos melosos. Recentemente nascera seu sexto filho, e ele se comovia facilmente, sacava a carteira do bolso e impunha a todos a foto do menino. Lila pensou que ele decidira mostrá-la também a ela, mas não era isso. O homem tirou do bolso do casaco o texto mimeografado e lhe disse em tom muito agressivo:
“Cerù, escute bem o que eu vou lhe dizer: se as coisas que estão escritas aqui foi você quem contou a esses strunz, cê tá numa enrascada fodida, sabia disso?”
Ela respondeu gélida:
“Não sei de que merda você está falando, me deixe comer.”
Filippo abriu com raiva o fascículo em sua cara e esbravejou:
“Não sabe, né? Então leia. Aqui dentro a gente sempre viveu na paz e amor e só uma puta que nem você podia falar essas coisas por aí. Eu acendo a triagem quando me dá na telha? Eu fico bolinando as mulheres? Eu, um pai de família? Olhe bem, ou dom Bruno faz você pagar por isso, e caro, ou juro por Deus que eu mesmo quebro sua cara.”
Então deu meia-volta e retornou à guarita.
Lila acabou de comer com calma, depois recolheu o panfleto. O título era pretensioso: Enquete sobre a condição operária em Nápoles e província. Folheou as páginas, achou uma inteira dedicada à fábrica de embutidos Soccavo. Leu palavra por palavra tudo o que saíra de sua boca na reunião em via dei Tribunali.
Fez de conta que não era nada. Deixou o fascículo no chão, voltou sem olhar para a guarita e retomou o trabalho. Mas estava furiosa com quem a metera naquela confusão sem nem mesmo avisá-la: sobretudo com Nadia, a santinha; com certeza foi ela quem escreveu aquela droga, toda certinha e cheia de afetações emocionadas. Enquanto trabalhava com a faca na carne fria e o cheiro a nauseava e a raiva crescia, sentiu em torno de si a hostilidade dos colegas de trabalho, homens e mulheres. Todos se conheciam havia tempos, sabiam que eram vítimas coniventes e não tinham a menor dúvida de quem tinha sido a delatora: ela, a única que se comportara desde o início como se a necessidade de labutar não se confundisse com a necessidade de se humilhar.
À tarde Bruno apareceu e, logo em seguida, mandou chamá-la. Estava com o rosto mais vermelho que o habitual, trazia na mão o panfleto mimeografado.
“Foi você?”
“Não.”
“Me diga a verdade, Lina: lá fora já tem gente demais fazendo confusão, você também se juntou a eles?”
“Já disse que não.”
“Não, hein? Mas aqui não há ninguém que tenha a capacidade e a cara de pau de inventar todas essas lorotas.”
“Deve ter sido um dos funcionários.”
“Os funcionários menos ainda.”
“Então o que você quer de mim, os passarinhos estão cantando por aí, vá se informar com eles.”
Ele bufou, parecia realmente amargurado. Disse:
“Eu lhe dei um trabalho. Fiquei quieto quando você se inscreveu na Cgil, meu pai a expulsaria a pontapés. Tudo bem, cometi uma tolice lá na maturação, mas lhe pedi desculpas, você não pode dizer que a persegui. E você faz o quê? Se vinga expondo assim meu estabelecimento e dizendo preto no branco que eu levo as operárias para a secagem? Mas desde quando eu, com as operárias, você é maluca? Já estou me arrependendo do bem que lhe fiz.”
“O bem? Eu trabalho que nem uma condenada, e você me paga uma ninharia. Eu faço muito mais bem a você do que você a mim.”
“Está vendo? Está falando como aqueles imbecis. Tenha a coragem de admitir que quem escreveu isto aqui foi você.”
“Eu não escrevi nada.”
Bruno torceu a boca, olhou as páginas diante de si, e ela percebeu que ele vacilava, não conseguia se decidir: adotar tons mais duros, ameaçá-la, demiti-la, recuar e tentar entender se havia outras iniciativas daquele tipo em andamento? Por fim ela se decidiu e disse em voz baixa — de má vontade, mas com um pequeno trejeito cativante que se chocava com a lembrança da violência dele, ainda viva em seu corpo — três frases conciliadoras:
“Confie em mim, eu tenho um filho pequeno para criar, realmente não fiz isso aí.”
Ele fez sinal que sim, mas também resmungou, descontente:
“Sabe o que você me obriga a fazer agora?”
“Não, e não quero saber.”
“Mesmo assim vou lhe dizer. Se aqueles lá são seus amigos, avise a eles: se voltarem a fazer arruaça aqui em frente, vou mandar dar tanta porrada neles que vão até perder a vontade. Quanto a você, fique atenta: se puxar mais a corda, vai ver que arrebenta.”
Mas o dia não terminou ali. Na saída, quando Lila passou, o vermelho da triagem se acendeu. Era o ritual de sempre: todos os dias o vigia escolhia alegremente três ou quatro vítimas, as garotas tímidas se deixavam apalpar de olhos baixos, as mulheres escoladas riam e diziam: Filì, se você quer tocar, toque, mas ande logo que eu preciso ir cozinhar. Naquela vez Filippo só parou Lila. Fazia frio, soprava um vento forte. O vigia saiu da guarita. Lila estremeceu e disse:
“Se você tocar em mim, juro por Deus que eu mato você ou mando alguém matar.”
Carrancudo, Filippo apontou uma mesinha de bar que estava sempre ao lado da guarita.
“Esvazie os bolsos um de cada vez, ponha tudo aqui em cima.”
Lila encontrou no casaco uma linguiça fresca, sentiu com desgosto a carne mole compactada dentro da tripa. Tirou para fora, caiu na risada e falou:
“Que gente de merda vocês são, todos vocês.”
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